Zé De Banda

Equipe de Redação do Blog do Cobra
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08/08/2025 às
10:05

Ainda alcancei, nos tumultuosos recreios do colégio Santo Antônio, a exclamação: nem Zé de Banda, significando alguma coisa sem remédio possível. Informaram-me que existia, corrente o dito: nem Zé de Banda dá jeito. Chamem Zé de Banda, era outro. E assim inúmeros vestígios diziam da passagem de um homem valente e hábil que fortemente impressionara a imaginação popular. Quem fora realmente esse Zé de Banda?

José Paes da Silva Banda, sargento do Corpo Policial, depois Batalhão de Segurança, foi esse singular e afoito Zé de Banda de lendárias e agora esquecidas façanhas valentonas. Era alto, magro, tipo de caboclo seco, ágil, enxuto de corpo, saltando como uma sussuarana e mais veloz que um gato do mato. Sabendo manejar um cacete tão bem quanto segurar a pontaria da espingarda. Zé de Banda, atirava faca como se trabalhasse em circo e fazia letras de capoeiragem, assombrando gente.

Esses elementos, comumente característicos do malandro, estavam a serviço da ordem, da lei e da tranquilidade. Punha Zé de Banda os recursos da agilidade e da destreza em capturar criminosos, prender valentões, desarmar arruaceiros, empatar, de igual para igual, os jogos de força física ou os efeitos de boa mirada ante os cangaceiros e famanazes das vilas do interior. Depressa se tornou famoso e o fabulário fê-lo tipo de lendas heróicas, amplificando gestos e detalhando lutas que teriam sido inexistentes.

Bala não o alcançava nem ponta de faca riscaria sua pele de bronze. Tinha reza-forte, patuá, mandinga soberana. O Sargento Gato (Vicente Inácio Ferreira) reformado da nossa F. P. conta-me façanhas de Zé de Banda. Na Vila de Coitezeira, posteriormente mudada para Vila Nova, Zé de Banda foi alvejado várias vezes por um desafeto. A cada tiro, gritava, impassível: não acertas cabra danado… Por sugestão, convenhamos, o agressor errou todos os tiros e entrou na madeira.

A zona do prestígio desse Roldão legal foi o oeste da Província, especialmente Imperatriz (Martins) e Pau dos Ferros, outrora sedes de banditismo egresso das cadeias paraibanas e cearenses. Superior ao medo, impossível de ser subornado, com um respeito supersticioso às ordens, Zé de Banda fez o milagre do saneamento quase total de toda a região. Onde ele estava, por mera ação catalítica, não havia criminoso em vinte léguas de arredor.

Sua fama se foi espalhando e chegou à Corte, ao Rio de Janeiro. O Jornal do Comércio, de 16 de fevereiro de 1874, narrava andanças e elogiava seus feitos. O grave diário carioca dizia: “O valente José de Banda prosseguiu com o maior empenho e atividade, nas diligências contra os criminosos da comarca de Maioridade. Acaba de capturar o criminoso Antônio Marques de Aquino; e é tal a nomeada de que goza, com assombro dos malfeitores, que estes, segundo informe, deixaram a comarca de Maioridade e foram procurar as do Pombal e Teixeira, tendo-se dado até o caso de se haver entregado à prisão José Celestino de Souza, por não poder mais subtrair-se à ação e vigilância daquele agente da autoridade pública. É tal a nomeada de que goza, como assombro dos malfeitores! Como é edificante isto! É de crer que José de Banda tenha posto à banda o fazer ou ser eleitor. Procure o Governo, em cada lugar, um José de Banda que o há de achar; que tenha olhos para ver, ouvidos para ouvir e braços para prender”.

O artigo é maior e mais derramado. Sua Majestade o Imperador D. Pedro II leu o artigo e entusiasmou-se. E, sem pedido ou sugestão, mandou conceder a José Paes da Silva Banda a Imperial Ordem da Rosa no título de Cavaleiro. Veio a condecoração cintilante e Zé de Banda recebeu-a e usava, tufando o peito, com orgulho justificado.

Ainda recordam suas originalidades. Quando cercava um criminoso, costumava gritar uma intimação curiosa, sempre a mesma, tornada célebre para os ouvidos alheios. João Felismino de Melo, há dias, dizia-me a intimação. Era assim: “o senhor está cercado pelo Sargento José Paes da Silva Banda, cui-cuico, vaca-vaca, surta bem a quem ganhar. Prepare os braços p’ra corda ou a rede p’ro cemitério. Rapaziada, prepara as armas”!

E nunca deixou de trazer, amarrados e tristes, os homens mais temidos. Gostava da branquinha. Vez por outra ficava a meio-lastro e dava que fazer aos companheiros de farda que o estimavam. Em novembro de 1889 foi mandado rebaixar do posto de sargento, em bem da disciplina militar. No mesmo mês, vinha a República, Pedro Velho, governador aclamado, fazia dar baixa ao soldado Joaquim Pereira da Silva e nessa vaga assentar praça a Zé de Banda.

Uma vez, quando o quartel ficava no fim da Rua Voluntários da Pátria, Zé de Banda, em castigo de uma bebedeira, foi indicado pelo sargento Luis Pessoa para ficar de sentinela à porta. Foi para casa e voltou com a Imperial Ordem da Rosa no peito. Era, oficialmente, portador de honras de capitão. O comandante fez-lhe continência e não houve coragem para efetivar a ordem. Nas suas frequentes insubordinações sofria prisão mas era recolhido ao Estado-Maior. Constituía uma relíquia de coragem, de valentia, de dever estritamente cumprido e desempenhado. Não sei quando morreu. Foi esse Zé de Banda que, analfabeto, tinha o que muito doutor não possuía: a Ordem da Rosa, dada pela mão imperial de Dom Pedro II.

A República, 20 de fevereiro de 1940.

Com informações e imagens extraídas do livro Actas Diurnas – Crônicas de Luís da Câmara Cascudo.

Foto da capa: Acervo Luduvicus – Instituto Câmara Cascudo.

Pesquisa e Edição: Ricardo Tersuliano – Historiador Independente –e-mail: ricardotersuliano@yahoo.com.br – Colaborador do Blog do Cobra

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