(31/01/1966 a – 15/03/1971)
A vida lhe deu quase tudo que um homem pode almejar. Atendeu à convocação para servir a Deus e ao povo, ajudando na formação de várias gerações de jovens que passaram pelo Ginásio Diocesano Seridoense, de Caicó, do qual foi professor e diretor. Refiro-me ao monsenhor Walfredo Dantas Gurgel*, ex-deputado federal, constituinte de 1946, ex-senador da República, ex-vice-governador e ex-governador do Rio Grande do Norte.
Quando Aluízio Alves se dispôs a enfrentar Dinarte Mariz, em 1960, a quem foi buscar para ser o companheiro de chapa? O monsenhor Walfredo Gurgel. Quando precisou eleger o senador da sua inteira confiança, em 62, a quem procurou? O monsenhor Walfredo Gurgel. Sua figura inatacável e honrada era o passaporte para a vitória.
Paz
Apesar de ter enfrentado uma das mais radicais campanhas políticas do Rio Grande do Norte, o monsenhor Walfredo portou-se como um magistrado. Foi o precursor da paz pública no Estado. Recebia da mesma maneira, no palácio Potengi, correligionários e adversários. Não perseguia ninguém. Jogou água fria no caldeirão que estava pegando fogo. Governou num clima de justiça e paz. Esta foi a sua maior obra: a pacificação da família norte-rio-grandense.
No começo, enfrentou até a incompreensão de alguns amigos. Foi fustigado pela revolução, por sua lealdade a Aluízio Alves. Sofreu calado, mas com dignidade. Somente ele pôde avaliar o sofrimento e a discriminação que sofreu do chamado comando revolucionário, no Estado, que queria monitorizar seu governo por meio de ameaças.
Ponte
Mas portou-se com altivez. Não baixou a cabeça para ninguém. E realizou, apesar de tudo, uma obra administrativa marcante, como a criação da Companhia de Águas e Esgotos do Rio Grande do Norte (CAERN), a eletrificação de cidades no interior com a energia de “Paulo Afonso” recém-chegada ao Estado, a construção do Hospital Pronto Socorro de Natal, que hoje tem o seu nome, a primeira ponte de concreto armado sobre o rio Potengi, a Biblioteca Pública “Câmara Cascudo”, além de escolas, estradas e pontes por todo o Estado.
Pressionado em palácio, pelo comandante da guarnição militar de Natal, general Hidelbrando Duque Estrada, que queria retaliar contra o governo Aluízio Alves, mandou-lhe um recado pelo secretário Jurandir Navarro:
— Diga ao general que, se he quiser fazer uma devassa no governo do meu antecessor, me deponha agora. Não forneço informação nenhuma.
Foi o desabafo de um homem de coragem. Coisa rara nos tempos tenebrosos e obscuros do AI-5. O mais comum, na época, era ceder ou render-se para se manter no cargo. Ele não. Continuou no poder, mas sem fazer concessões. De pé e sem curvar-se.
Num lapso de cinco anos de sua vida pública, foi tudo ou quase tudo na política do Rio Grande do Norte: vice-governador, senador e governador. Um recorde nacional. Foi aí que se cunhou a frase de efeito famosa: “O padre é bom de urna”. E era.
Governou o Estado com austeridade e autoridade moral. Ninguém era capaz de acusá-lo de nada. Costumava receber os amigos na residência oficial à avenida Hermes da Fonseca, aos sábados, para o bate-papo regado a cerveja e batida de limão. Às 13 horas encerrava a conversa: “Vão embora porque o almoço aqui só dá para o pessoal da casa”.
Catedral
Aos domingos, celebrava missa na Catedral e vinha de casa dirigindo o seu volks verde já gasto pelo tempo. No seu governo não existia a palavra mordomia. Muito menos para ele. Na mesa, a comida caseira com o inconfundível tempero do Seridó. O monsenhor era fiel às suas origens.
Bem parecido, cabelos bem cuidados, porte ereto e elegante eram características que faziam dele uma figura que chamava a atenção aonde chegava. Cobri para o “Diário de Natal” todo o seu período de governo. Cheguei a privar da sua amizade.
O monsenhor Walfredo era um apaixonado pelo futebol. Nunca permitia que o time do Ginásio Diocesano Seridoense fosse derrotado. Tinha de vencer de qualquer jeito. Nem que fosse com a ajuda do juiz. Cumpriu todas as missões que Deus e o povo lhe confiaram como padre, professor e político. Nasceu em Caicó, no dia 02/12/1908, e faleceu em Natal, no dia 04/11/1971.
*Vice-governador: deputado Clóvis Coutinho da Motta.
Com as vitórias de Negrão de Lima (Estado da Guanabara) e Israel Pinheiro (Minas Gerais) em 1965, a chamada “linha dura” do recém-implantado regime militar queria impedir arbitrariamente a posse dos dois governadores eleitos pela oposição. Para contornar a crise, o então presidente Castelo Branco baixou o Ato Institucional 2, extinguindo os partidos existentes e tornando indiretas as eleições para governador a partir de 1970. O ciclo indireto durou doze anos (1971-1983).
Autor: João Batista Machado
Fonte: Perfil da República no Rio Grande do Norte (1889–2003) — páginas 197 a 199.
A vida lhe deu quase tudo que um homem pode almejar. Atendeu à convocação para servir a Deus e ao povo, ajudando na formação de várias gerações de jovens que passaram pelo Ginásio Diocesano Seridoense, de Caicó, do qual foi professor e diretor. Refiro-me ao monsenhor Walfredo Dantas Gurgel*, ex-deputado federal, constituinte de 1946, ex-senador da República, ex-vice-governador e ex-governador do Rio Grande do Norte.
Quando Aluízio Alves se dispôs a enfrentar Dinarte Mariz, em 1960, a quem foi buscar para ser o companheiro de chapa? O monsenhor Walfredo Gurgel. Quando precisou eleger o senador da sua inteira confiança, em 62, a quem procurou? O monsenhor Walfredo Gurgel. Sua figura inatacável e honrada era o passaporte para a vitória.
Paz
Apesar de ter enfrentado uma das mais radicais campanhas políticas do Rio Grande do Norte, o monsenhor Walfredo portou-se como um magistrado. Foi o precursor da paz pública no Estado. Recebia da mesma maneira, no palácio Potengi, correligionários e adversários. Não perseguia ninguém. Jogou água fria no caldeirão que estava pegando fogo. Governou num clima de justiça e paz. Esta foi a sua maior obra: a pacificação da família norte-rio-grandense.
No começo, enfrentou até a incompreensão de alguns amigos. Foi fustigado pela revolução, por sua lealdade a Aluízio Alves. Sofreu calado, mas com dignidade. Somente ele pôde avaliar o sofrimento e a discriminação que sofreu do chamado comando revolucionário, no Estado, que queria monitorizar seu governo por meio de ameaças.
Ponte
Mas portou-se com altivez. Não baixou a cabeça para ninguém. E realizou, apesar de tudo, uma obra administrativa marcante, como a criação da Companhia de Águas e Esgotos do Rio Grande do Norte (CAERN), a eletrificação de cidades no interior com a energia de “Paulo Afonso” recém-chegada ao Estado, a construção do Hospital Pronto Socorro de Natal, que hoje tem o seu nome, a primeira ponte de concreto armado sobre o rio Potengi, a Biblioteca Pública “Câmara Cascudo”, além de escolas, estradas e pontes por todo o Estado.
Pressionado em palácio, pelo comandante da guarnição militar de Natal, general Hidelbrando Duque Estrada, que queria retaliar contra o governo Aluízio Alves, mandou-lhe um recado pelo secretário Jurandir Navarro:
— Diga ao general que, se he quiser fazer uma devassa no governo do meu antecessor, me deponha agora. Não forneço informação nenhuma.
Foi o desabafo de um homem de coragem. Coisa rara nos tempos tenebrosos e obscuros do AI-5. O mais comum, na época, era ceder ou render-se para se manter no cargo. Ele não. Continuou no poder, mas sem fazer concessões. De pé e sem curvar-se.
Num lapso de cinco anos de sua vida pública, foi tudo ou quase tudo na política do Rio Grande do Norte: vice-governador, senador e governador. Um recorde nacional. Foi aí que se cunhou a frase de efeito famosa: “O padre é bom de urna”. E era.
Governou o Estado com austeridade e autoridade moral. Ninguém era capaz de acusá-lo de nada. Costumava receber os amigos na residência oficial à avenida Hermes da Fonseca, aos sábados, para o bate-papo regado a cerveja e batida de limão. Às 13 horas encerrava a conversa: “Vão embora porque o almoço aqui só dá para o pessoal da casa”.
Catedral
Aos domingos, celebrava missa na Catedral e vinha de casa dirigindo o seu volks verde já gasto pelo tempo. No seu governo não existia a palavra mordomia. Muito menos para ele. Na mesa, a comida caseira com o inconfundível tempero do Seridó. O monsenhor era fiel às suas origens.
Bem parecido, cabelos bem cuidados, porte ereto e elegante eram características que faziam dele uma figura que chamava a atenção aonde chegava. Cobri para o “Diário de Natal” todo o seu período de governo. Cheguei a privar da sua amizade.
O monsenhor Walfredo era um apaixonado pelo futebol. Nunca permitia que o time do Ginásio Diocesano Seridoense fosse derrotado. Tinha de vencer de qualquer jeito. Nem que fosse com a ajuda do juiz. Cumpriu todas as missões que Deus e o povo lhe confiaram como padre, professor e político. Nasceu em Caicó, no dia 02/12/1908, e faleceu em Natal, no dia 04/11/1971.
*Vice-governador: deputado Clóvis Coutinho da Motta.
Com as vitórias de Negrão de Lima (Estado da Guanabara) e Israel Pinheiro (Minas Gerais) em 1965, a chamada “linha dura” do recém-implantado regime militar queria impedir arbitrariamente a posse dos dois governadores eleitos pela oposição. Para contornar a crise, o então presidente Castelo Branco baixou o Ato Institucional 2, extinguindo os partidos existentes e tornando indiretas as eleições para governador a partir de 1970. O ciclo indireto durou doze anos (1971-1983).
Com informações: imagens e trechos do livro: Perfil da República no Rio Grande do Norte: 1889-2003, de João Batista Machado.
Pesquisa e Edição: Ricardo Tersuliano – Historiador Independente –e-mail: ricardotersuliano@yahoo.com.br – Colaborador do Blog do Cobra
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