Visões de Natal em 1888

Ana Tersuliano
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19/07/2025 às
09:31

Dediquei o tempo que me foi possível empregar na longa jornada que fiz no regresso ao distante ano de 1888 à Cidade dos Reis Magos. Anotei apenas algumas informações que julguei convenientes para escrever sobre essa viagem no tempo — 174 anos após a construção da Igreja do Bom Jesus das Dores na Ribeira (1714).

Os fatos e lembranças que adquiri consultando velhas anotações e livros de autores potiguares somam-se às notícias orais, guardadas pelos mais velhos e transmitidas a outras gerações, que, após minucioso resgate me ajudaram a escrever essa crônica.

Natal daqueles finais do século XIX era uma cidade simples, aberta, ventilada com a ação dos ventos que vinham do mar. Nota-se que as vantagens naturais da terra ainda eram pouco aproveitadas pela população.

Àquela época, Natal possuía apenas dois bairros: Ribeira e Cidade Alta, ligados pela Rua da Cruz. A Cidade não dispunha de água encanada, esgoto e energia elétrica.

É de se estranhar que a Cidade de Natal, uma das mais antigas do Brasil, com um excelente rio navegável, em uma província tão privilegiada, estivesse ainda tão pouco adiantada.

Naquele ano, as ruas da Ribeira eram pouco povoadas e ali se concentrava o maior comércio da província. Alguns edifícios de pedra e cal, próximos à Rua Grande, eram bem construídos, embora os animais ainda ruminassem à sombra de grandes castanheiras, no local onde seria construída a Praça Augusto Severo, no princípio do século seguinte.

As produções que vinham do Interior para serem embarcadas nos navios eram: açúcar, algodão, couros e carnes salgadas. As importações que chegavam eram: ferro, aço, tecidos e vinhos, e, além desses, em maior ou menor quantidade, vários artigos que a Europa produzia.

O comércio da província, até essa data, concentrava-se na dependência absoluta do mercado de Pernambuco, em virtude de um grande obstáculo: “a baixinha” — o estado de nossa barra não dava acesso aos vapores das linhas transatlânticas. Desde 1865 que o Governo Provincial calçava a ladeira de acesso ao Passo da Pátria com pedras pretas e irregulares, extraídas dos arrecifes.

O Cais do Passo da Pátria, com o seu casario miúdo, era o porto de abastecimento principal da Cidade. Tudo que provinha do Interior em animais ou carros de bois era embarcado por ali. Os armazéns ribeirinhos guardavam as mercadorias, até serem despachadas aos locais de destino. Os navios à vela fundeavam próximos à terra e as mercadorias eram carregadas e descarregadas com dificuldade, em pequenos botes ou catraias, que saíam do ancoradouro do Passo da Pátria.

O Potengi assistia indiferente a todo esse processo, enquanto descarregava seu peso d’água no Oceano, ao lado da Fortaleza dos Reis Magos. Nos manguezais, às margens do Potengi, ainda existiam árvores de grande porte.

Da Cidade Alta avistavam-se muitas léguas de mar, que se confundiam com a abóbada celeste. Naquele ano, a Câmara Municipal de Natal decidiu mudar a toponímia de algumas ruas da Cidade — uma infeliz ideia, visto que a maioria dos nomes antigos ser bem mais bonito.

A Cidade era pequena, cercada de pomares e um frondoso jardim de árvores frutíferas nativas: “cambuis, gabirobas, jabuticabas, uvaías…”. As chácaras e os sítios embelezavam os subúrbios, nos quais a caça era abundante: jacus, cotias, inhambus e tatus.

Os moradores eram trabalhadores robustos, espirituosos e generosos, dotados de talento, próprio dos natalenses.

A água de que se utilizava a população era extraída de várias cacimbas: a Cacimba de Sumé, na Ribeira (no terreno do atual Colégio Salesiano), e a Fonte do Baldo, muito abundante, conhecida como a grande piscina pública, da qual a população fazia múltiplo uso.

Pesquisa e Edição: Ricardo Tersuliano – Historiador Independente – E-mail: ricardotersuliano@yahoo.com.br

Créditos:

Livro: Antiqualha – Elísio Augusto de Medeiros e Silva

Foto: Joab Isidio Santos

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