Tiago Corropio

Equipe de Redação do Blog do Cobra
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21/08/2025 às
16:52

Tiago Mousinho de Alcoforado Sepúlveda! … Nome tintinabulante e sonoro, recordando golpes d’espada, mantas de veludo, chapéus de plumas, luvas atiradas em desafio, lutas, duelos, amores, distinção. Pertencia este apelido reboante a um porteiro da Assembleia Legislativa Provincial, ferreiro de profissão, conversador efetivo e uma das mais populares figuras do velho Natal de outrora. Nestor Lima, que o evocou (“A Capital”, 17-12-1909) informa que o nome real era simplesmente Tiago José Romeiro. Havia outro, comum e fácil, o mais conhecido e amado: Tiago Corropio.

Esse Tiago viera do Maranhão e morava na Rua da Salgadeira, no fim da atual Gonçalves Dias. Tinha uma pequenina forja na Rua da Conceição. Vez por outra era nomeado porteiro da Assembleia. O lugar não era vitalício. O partido que subia guardava candidatos. Tiago ficava à margem, esperando maré. Era claro, meio vermelhão, magro, agitado, gesticulando muito com os dois braços finos, quase sempre de fraque. Falava rodando, revirando-se, numa rotação instintiva. Chamaram-no por isso, Tiago Corropio. E a alcunha pegou. Nos papéis públicos aparece, sisudamente: Tiago Mousinho Alcoforado Sepúlveda…

Casou quatro vezes. Comia pimenta malagueta como um baiano e só andava num passo de quem vai “tirar o pai da forca”. Ia sempre ao cantão das Gameleiras, hoje praça João Maria, palestrar. Afirmava saber gramática como poucos e latim como nenhum. Passava o dia batendo o malho na pobre bigorna, numa tenda humilde debaixo duma puxada de taipa. Tardinha, lavado o rosto e mãos, envergava o fraque e ia prosear, superior, desdenhoso, importante. Tiago Corropio possuía relações inigualáveis. Nos versos anônimos nos jornalzinhos chistosos, nas mofinas da época, era fatal surgir Tiago Corropio. No esfuziante CORISCO, que aqui se publicou de agosto de 1888 a julho de 1889, Tiago tem citação frequente.

Assim não há outro povo
Como seja o meu vizinho!
Entre os palhaços distingue-se
O impagável Mousinho!…

Nas guerrilhas políticas locais houve um episódio que celebrizou o grande Tiago: as frações liberal e conservadora mantinham sua imprensa para a permuta semanalária de desaforos. A Liberdade, órgão liberal, debatia com os saquaremas, Correio do Natal e Gazeta do Natal. O Correio era mais amigo do conselheiro Tarquínio Bráulio de Souza Amaranto. A Gazeta, do Padre João Manuel de Carvalho. Nessa época havia um grupo de cearenses, da família Amorim Garcia, prestigiosos e unidos, todos metidos na política conservadora. Eram apelidados os cearenses. Eram os principais cearenses, José Gervásio, Odilon Garcia, Antônio de Amorim Garcia, cunhados do juiz de direito da capital, Dr. Francisco Amintas da Costa Barros, também cearense, criador de passagens e éguida conservadora.

Num dia sereno, sem assunto, circulou A Liberdade com um artigo cheio de galhofas e ironias, risando a pele dos Amorins Garcia. Assinava: Tiago Corropio, que estava tão inocente como estamos das manchas solares. João Avelino Pereira de Vasconcelos, muito amigo de divertir-se, procurou Tiago, mostrou-lhe o artigo, ameaçando com a represália imediata dos Amorins Garcia. Defenda-se, homem. Você não é o pai da criança. Escreva uma resposta, explicando tudo…

Tiago, com um molinete de vento em cada braço, engasgando-se de furor, nem sequer pediu a um dos jornais um cantinho para desagravar-se. Escreveu a resposta e fê-la espalhar em boletins. Ainda li um desses boletins. Muita gente sabe o de cor. É assim: “não quero indicação, nem luxo, nem poesia comigo. Repilo este propínquo; simplesmente vou indo nesta terra sem meios alguns de subsistência, por não ser dela senão gentílico e também não serii brasileiro, porém só falo laconicamente a língua nacional e esta péssima, visto que tenho a bondade que não envolvo no meu plênio de hoje e de tanta faculdade e se não chamo à ordem da Lei.

TIAGO MOUSINHO ALCOFORADO SEPÚLVERA, QUE NÃO FALA DE CEARENSE.”

Com essa página, isolada e magnífica, passou à posteridade. Faleceu em Natal, a 4 de janeiro de 1892 com mais de sessenta anos. Morreu convicto de que seu nome não seria esquecido. E tinha toda razão…

A República, 20 de fevereiro de 1940.

Com informações e imagens extraídas do livro Actas Diurnas – Crônicas de Luís da Câmara Cascudo.

Foto da capa: Acervo Luduvicus – Instituto Câmara Cascudo.

Pesquisa e Edição: Ricardo Tersuliano – Historiador Independente –e-mail: ricardotersuliano@yahoo.com.br – Colaborador do Blog do Cobra

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