Sinfrônio Paes Barreto deu nome a um Dispensário. Não havia outro título para traduzir, com justiça, tarefa enquanto viveu. Recordo-me bem de seu Sinfrônio, baixo, gordo, calvo, moreno, o rosto picado de cicatrizes de bexigas, os olhos pretos e falando depressa, engasgando-se quando queria expressar-se com maior rapidez. Lembro-me de sua figura popular atravessando o pátio do Colégio Santo Antônio nas horas tumultuosas do recreio. Na cabeça trazia um bonezinho escuro, ou uma espécie de solidéu. Nós passávamos gritando, num alarido de doidos, seu Sinfrônio ia resmungando: cambada, cambada…
Morava num cubículo, debaixo da torre da Igreja de Santo Antônio. Os alunos novatos costumavam berrar-lhe à porta uns bons-dias tremendos. Seu Sinfrônio, quando estava em casa, respondia: Deus te dê juízo e vergonha…
Foi o tipo espontâneo do Vicentino. Dedicado, humilde, fervoroso. Quase vinte anos presidiu o Grupo Vicentino da Ribeira. Depois de missa diária, com os bolsos cheios de remédios, vários pacotes de alimentos nas mãos, cara franzida, seu Sinfrônio percorria a via-crucis, semeando esmolas e consolações. Natal esparsa em sua população paupérrima. Rocas, Quintas, Alecrim, ficavam em paragens longínquas. Seu Sinfrônio ia a pé, atolando as pernas nas areias feitas de brasas, suando fogo, resfolegando. Mas nenhum pobre deixou de receber sua visita e aceitar seus trabalhos. Tratava as feridas, fazia os remédios, banhava sujeiras, acendia o lume, preparava comida, ensinava orações, distribuía santinhos e roncava conselhos, como quem dava ordens num combate. Ele, efetivamente, era um soldado, um soldado de Cristo em luta perpétua contra a miséria.
Mentalmente não me parecia equilibrado. Sofrera de espasmo quando menino. Era irrequieto, arrebatado, tomando-se de furor patriótico, declamando versos guerreiros sem jamais passar as primeiras quadras, babando-se de júbilo belicoso e metralhando perdigotos. A barba, curta e habitualmente em atraso para com a navalha, dava-lhe uns ares de ascetismo e fome. O lema de sua existência foi servir o próximo, para ele, na plenitude evangélica, a interpretação fiel do Bom Samaritano.
Nascera em Floresta, Pernambuco. O pai, Leandro Paes Barreto, revolucionário praieiro, morreu em princípios de 1857, depois de dedicar-se em tratar dos coléricos. Sinfrônio tinha quatro anos. Rapaz, quis ser padre, e ficou no Seminário de Olinda. Rebentando a Guerra do Paraguai, os seminaristas faziam discursos, animando o voluntariado. Sinfrônio discursava no meio da multidão, alguém perguntou: e você por que não vai também? O seminarista, gago de entusiasmo, gritou, de palanque: vou hoje mesmo. E correu a alistar-se. O irmão Júlio, conseguiu fazê-lo alferes, porque Sinfrônio era filho de soldado. Fez toda a campanha terrível. Voltando, tentou ser padre em Recife e Paraíba. Era doente, de gênio irregular, embora de vida puríssima. Veio para Natal onde outro irmão, Juvino, estava fixado. Aqui ficou, muito pelo Exército e pelas crianças, espalhando socorros. Quando pode receber o soldo atrasado, mandou pintar a Igreja de Santo Antônio e dividiu auxílios. Sempre meio-aulado, com surtos de alegria e mau-humor. Ricardo Barreto, meu velho amigo, hoje médico ilustre, era campeão olímpico de corrida em cima dos muros da Vila Barreto. Sinfrônio concorria com o sobrinho como challenger a título. Dava carreiras que só se vendo…
Faleceu na Travessa Juvino Barreto, às 8 e meia da noite de 2 de outubro de 1919, mês do Rosário e dia dos Anjos da Guarda. Sua testamentária, Dona Raquel Barreto, recebeu o encanto do milagre bíblico dos pães multiplicados. Menos de um conto de réis para quarenta e muitos herdeiros, além de esmola e ajudas. Era toda a herança material de um veterano do Paraguai.
Quando se desejou sistematizar a caridade, fazendo-a regular e contínua, incapaz de interrupção e acima de desfalecimento, criou-se o Dispensário e Sinfrônio Barreto deu seu nome, como o mais legítimo, natural e lógico dos Padroeiros. Outrora, durante anos ele sozinho fora o dispensário…
A República, 15 de novembro de 1939.
Com informações e imagens extraídas do livro Actas Diurnas – Crônicas de Luís da Câmara Cascudo.
Foto da capa: Acervo Luduvicus – Instituto Câmara Cascudo.
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Aladim Potiguar, colaborador do Blog do Cobra.

Uma resposta
Boa noite meu querido Dr cobra um dos maiores historiadores do Rio grande do Norte.