O Senado da Câmara em Natal concedia, a 6 de setembro de 1710, uns chãos no alferes Antônio da Silva de Carvalho, entre a cerca do Coronel Alberto Pimentel e as casas do Capitão Manoel Gonçalves Branco, onde estão umas cruzes.
Onde ficaria este chão? A 17 de fevereiro de 1741. Manoel Rodrigues Pimentel obtinha uma data de terra entre as casas de seu pai Alberto Pimentel e Soterio da Silva, na rua que ia por detrás da Matriz de Nossa Senhora da Apresentação para a Ribeira. As residências das pessoas mais conhecidas serviam de referências. A rua indicada é a atual da Conceição e seu prolongamento, para a Ribeira, ou seja, a Avenida Junqueira Aires.
Em 4 de outubro de 1764. Cosme Pinto da Rosa requeria e obtinha terras nessa região. Dizia ele que no caminho que vai para a Ribeira, detrás dos fundos das casas do Alferes Miguel Ferreira de Souza, da outra parte do caminho indo desta Cidade a mão direita tem lugar suficiente. Pede a Vossas mercês lhe concedam a terra que declara não muito defronte de uma cruz que reparte dois caminhos.
A 2 de maio de 1782, as irmãs Ana Maria, Engrácia Maria. Ursula e Patrícia, recebiam cinco braças de terra para construir casa de taipa no caminho que vai para Ribeira, antes de chegar à casa do Capitão-Mor Manuel Gonçalves Branco e na mesma parte do caminho que é a do norte, defronte da Cruz que divide as duas estradas.
Ainda a 30 de janeiro de 1790, Ricardo Wiltshire tinha chãos para casa, no apartamento dos caminhos que vão desta Cidade para a Ribeira, onde o requerimento informava: – se acha chão devoluto entre a Cruz e as casas de D. Engrácia.
No caminho da Ribeira havia uma Cruz marcando a bifurcação das estradas, ambas para a cidade, que ainda chamamos Cidade Alta.
Essas duas estradas, eram a rua Padre João Manuel e a avenida Junqueira Aires. O caminho que ia da Ribeira, durante quase um século se disse rua da Cruz, ou Ladeira da Cruz. Situado à Ladeira da Cruz entre os dois Bairros desta Capital, escrevia, descrevendo o prédio da Companhia de Aprendizes de Marinheiros, o vice-presidente em exercício na Província, dr. Manuel Januário Bezerra Montenegro, no seu relatório, de 4 de dezembro de 1878.
Ainda em fevereiro de 1888, a Câmara Municipal, num quadro geral da toponímia urbana, conserva-lhe o apelido Rua da Cruz.
Onde ficava essa Cruz? O velho Francisco Gomes de Albuquerque e Silva, o Chico Bilro, sabedor das tradições locais, dizia-me que o cruzeiro estava atrás da Assembléia Estadual (atual Tribunal de Apelação), diante da casa da velha Aninha Cambada, que vendia rapé. A Cruz demorava entre esta e a casinha de Antônio Quebra-Canela, aí em volta de 1872. Correspondia à rua Padre João Manuel. Assim falou Chico Bilro.
O núcleo denso de população era a Cidade. A Ribeira possuía moradores rareados e dispersos. Ligava os dois centros uma ladeira que se dividia ao pé de uma colina, hoje ocupada pelos edifícios do Tribunal de Apelação, Departamento de Saúde, Centro de Saúde e casas da Junqueira Aires, do lado direito da subida. O início da colina é o square Pedro Velho. Aí estaria, como se deduz dos documentos do séc. XVIII, a Cruz que denominou a futura rua. Onde Chico Bilro a encontrou, é local de mudança. A colina separava os dois caminhos e, no vértice, erguia-se a Cruz.
E por que, essa Cruz?…
A cruz assinalava o começo do sítio da Cidade, demarcado em dezembro de 1590. Era o chão elevado e firme, indicado para a Cidade do Natal do Rio Grande.
Duas Cruzes foram chantadas, uma ao sul que é a Santa Cruz da Bica outra ao Norte, que era justamente essa, desaparecida mas viva na documentária de outrora.
Em maio de 1896 faleceu no Recife o deputado federal pelo Rio Grande do Norte, engenheiro Luiz Francisco Junqueira Aires de Almeida. A Intendência Municipal, em homenagem ao tribuno, deu seu nome à Rua da Cruz
E essa é a sua História.
Com informações: O Livro das Velhas figuras, volume VII – Luís da Câmara Cascudo.
Pesquisa e Edição: Ricardo Tersuliano – Historiador Independente – e-mail: ricardotersuliano@yahoo.com.br – Colaborador do Blog do Cobra
Notas Pedagógicas:
Data de terra: É um termo histórico relacionado a Lei de Terras no Brasil, promulgada em 1850, foi a primeira legislação brasileira a regular a propriedade privada de terras.
Rapé: É um tipo de produto derivado do tabaco e que não gera fumaça, em forma de pó e destinado a ser aspirado. Também conhecido como rapé. Apesar de não produzir fumaça, por se tratar de produto derivado do tabaco, apresenta riscos à saúde.
Rua da Cruz, e Junqueira Aires, é uma sequência de denominações dada ao que hoje chamamos de Avenida Câmara Cascudo.
Ricardo Tersuliano: Historiador e poeta.
Apoie a preservação da nossa história. Anuncie conosco: (84) 99658-8154.
Gostou deste conteúdo? Siga-nos no Instagram: @blogdocobra_
