O Brasil nasceu do esforço calculado e prudente de
um pequeno, mas intrépido povo. Apertado em angustioso trato de território,
entre as serranias ásperas de Espanha e as rumorosas praias do Atlântico,
Portugal tinha traçado no mar o seu destino, nos grandes “mares nunca
d’antes navegados”. Longos e amargos séculos porfiaram os lusos por se
constituir em Estado soberano, e, somente ao cabo de muitas e tenazes pugnas,
quando raiavam as primeiras luzes do Renascimento, no fim do século XIV, é que
a nação se organizou politicamente, sob o domínio de D. João I, príncipe da
casa de Aviz. De D. João I até o misterioso D. Sebastião, desaparecido às mãos
da moirama, em Alcácer-Quibir, isto é, de 1385 a 1587, a história dos
portugueses é uma contínua batalha, nas costas inóspitas da África
“viciosa”, nas feitorias da Ásia, e, sobretudo, nas ondas do oceano
desconhecido. Na destemerosa “cavalaria do mar”, com que a Ibéria
deslumbrou a cristandade, as esquadras de Lisboa emparelham em glória com as de
Cadiz.
A necessidade de novos mercados, e não simplesmente
a pura ambição de dilatar a fé, como querem os historiadores românticos, levou
os lusitanos aos caminhos marítimos. Habitando um país de paisagens amáveis,
onde, até hoje, ecoam as flautas e as sanfoninas bucólicas, essa raça de
pastores e agricultores, que os romanos não puderam subjugar de todo, vivia
frugalmente, ao meio dos vinhedos, das oliveiras, dos trigais e dos rebanhos.
Com tão escassos cabedais, porém, seria impossível formar um grande império. E,
por sábias e engenhosas diretrizes de um escol de políticos e mercadores
avisados, êsses bandos de pegureiros se transformaram em legiões de marujos.
placidez das colinas vestidas de pinhais e dos vales estrelados de papoulas foi
substituída, quase de improviso; pelo rumor das tempestades ou pela nostalgia
dos céus estranhos do equador.
O descobrimento do Brasil, como o do continente
americano, não foi, portanto, obra do acaso. Desde a célebre profecia de
Sêneca, e antes até, desde os diálogos de Platão, no Timeo, onde se reproduzem
velhas tradições egípcias, não era novidade para os homens cultos a existência
de terras situadas a oeste da Europa. As raças vermelhas da famosa Atlântida
têm o seu lugar nas festas de Atenas, porque, ali, nas pequenas Panatenéias,
celebradas em louvor de Palas, era obrigatório o uso de um peplo, que recordasse
a proteção daquela divindade, na guerra vitoriosa dos atenienses contra os
atlantas.
Não resta mais dúvida hoje, para os pesquisadores
do assunto, e diante de documentos como o Esmeraldu de Situ Orbis, de Duarte
Pacheco, onde se fala que o rei de Portugal mandara descobrir “a quarta
parte ocidental”, que os almirantes portuguêses tinham ciência no novo
mundo.
Velejando longe das costas africanas, as caravelas
de Pedro Álvares Cabral, que iam com derrota para as Indias (?), depois de
atravessarem águas coalhadas de botelhos, golfões e rabos de asno, e céus, onde
revoavam gaivotas e alcatrazes, chegaram a um litoral inexplorado. Procurando
ancoradouro, a fim de conhecer melhor a terra, aportou a frota de Cabral a uma
enseada espaçosa, boa para refrescar os navios, onde, a 26 de abril de 1500,
foi rezada a primeira missa em um ilhéu deserto. Desembarcaram, depois, os
descobridores em terra firme, tomando posse dela em nome de D. Manuel, o
Venturoso, e ali chantando a Cruz de Cristo, com as armas e divisas reais.
Ao parecer dos mais atilados, afigurava-se a região
uma ilha gentil, e, como tal, foi batizada com os nomes de “Vera
Cruz” e depois “Santa Cruz”. Lê- se, na formosa carta do
escrivão da armada Pero Vaz de Caminha, que é a nossa certidão de nascimento,
entre muitas e ingênuas observações, que “a terra em si é de muitos bons
ares assim frios e temperados como os dentre Douro e Minho, porque, neste tempo
de agora, assim os achávamos como os de lá; águas são muito infindas; em tal maneira
é graciosa que querendo-a aproveitar, dar-se-á nela tudo.
Ficou-lhe, finalmente, o apelido de Brasil, mercê
da abundância de certa madeira conhecida por “pau-brasil”, ou,
talvez, como reminiscência da lendária ilha de Braçir, Braxil, Brazylle ou
O’Brasile, célebre nas cartas medievais.
Logo que as notícias do descobrimento chegaram à
Côrte, houve júbilo geral, pois embora se afirmasse a inexistência de ouro e
metais no seu solo, era, no mínimo, excelente abrigo que se oferecia aos que
demandavam a Ásia. Aprestaram-se, conseguintemente, para a explorar, várias
expedições, que estiveram no litoral brasileiro mais ou menos demoradamente,
desde a de Américo Vespúcio, em 1501, até a da nau Bretoa, em 1519. O sonho das
Índias, entretanto, cedo tornou desamparadas as florestas americanas. Os olhos
estavam todos voltados para o Oriente, de on- de vinham as sêdas, o marfim, o
âmbar, as jóias e as especiarias, e que rasgava aos portuguêses mercados
opulentos e inesgotáveis. Não entrava o Brasil nas cogitações da Coroa, senão
como o paraíso dos selvagens bravios, que era mister civilizar com água benta,
dos papagaios e das araras, de colorida plumagem. A notícia de que a terra não
tinha ouro nem prata contribuiu muito para esse natural descaso.
Dêsse abandono se aproveitavam, porém, os piratas
franceses, que da Bretanha e da Normandia, se faziam ao mar freqüentemente, em
cruzeiros de longo curso, das Antilhas à costa do Brasil, pilhando os
aldeamentos dos íncolas, ou comerciando com êstes em madeiras, penas, aves e
produtos naturais. Até 1521, quando ascendeu ao trono D. João III, sucessor do
rei venturoso, as solidões brasileiras se conservaram intatas e brutas. A
feitoria fundada em Pernambuco, por Cristóvão Jacques, em 1516, assaltada depois
pelos franceses, retomada pelos lusos, e, finalmente, destruída por aquêles,
fôra, até então, o único e re- moto vestígio da ação portuguêsa.
Com a expedição de Martim Afonso de Sousa, em 1530,
começa pròpriamente a história do Brasil, que deve muito às minas de prata do
México e do Peru, o povoamento sistemático, o desbravamento paulatino mas firme
do seu território virgem e olvidado. Os tesouros astecas e incas despertaram,
nos dirigentes da metrópole, a ambição de assegurar o domínio da colônia,
possivelmente riquíssima também, e entregue às ameaças de inimigos de tôda a
procedência.
A divisão do país em quinze capitanias
hereditárias, e a doação delas a capitães-mores, dignos pela excelência da
linhagem ou pelo prestígio individual, foi um ato de evidente sabedoria.
Somente assim, confiando essa porção de terras incultas à energia de homens de
boa vontade, poderia guardar a Coroa, sem maiores gastos, a prêsa já cobiçada
por muitos salteadores. Essas capitanias, mais tarde, ficaram sob a dependência
de um govêrno central, com sede na Bahia, até que, no correr do tempo, foram
passando uma após outras, por aquisição do erário público, ao jugo da
metrópole.
Com Informações: Livro Poesia e Prosa – Ronald de Carvalho –
Livraria Agir Editora 1960 – Rio de Janeiro.
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