Revista mundana ilustrada. Diretor: Aderbal França. O primeiro número desta revista circulou em novembro de 1928. E o quinto e último número circulou em março de 1929. Documenta uma das fases mais movimentadas da vida social e intelectual da cidade. Colaboram na Cigarra: Aderbal França, Edgar Barbosa, Stela Câmara, Clóvis Andrade, Henrique Roldão, Grace Câmara, Virgílio Trindade, Adriel Lopes, Rodolfo Machado, Roque Fernandes, Damasceno Bezerra, Carolina Wanderley, Jorge Fernandes, Lauro Pinto, Otacílio Alecrim, Cristóvão Dantas, Oscar Wanderley, João Maria Furtado, Valdemar Coutinho, Palmira Wanderley, Nunes Pereira, Otoniel Menezes, Cesar de Castro, João Rabelo Torres, Jaime Wanderley, Pedro Lopes Júnior, Garibaldi Dantas, Antônio Bento, Lourdes Cid, Ferreira dos Santos, Alberto Carrilho, Joaquim Moura, Xavier de Araújo, Joffely Filho, Esmeraldo Homem de Siqueira, Alberto Gomes, Eliseu Viana, Paulo Sarmento, Venâncio São Tiago, Gustavo Barroso, Joaquim Galvão, Pedro Leiros, Bezerra Júnior, Rosalina Coelho Lisboa, Erasmo Xavier, Abelardo de Matos, Luís da Câmara Cascudo, Ewerton Cortez, Josué Silva, Afonso Bezerra, Castelo Branco de Almeida, Rodrigues de Carvalho, Francisco Amorim, além de outros. Ilustrações de Adriel Lopes e Erasmo Xavier. Impressa nas oficinas da Imprensa Oficial, apresentava um pouco de tudo: mundanismo, praias, sociedade, literatura, economia, aviação, esporte. Era uma espécie de ante-sala do romantismo com receio de penetrar os pórticos do modernismo vitorioso. Mas era uma afirmação do quanto valíamos no panorama da cultura daquela hora.
LANÇAMENTO
Cigarra, a “revista mundana ilustrada”, denominação registrada por Manoel Rodrigues de Melo, surge, no final da década de 20, como “uma grande novidade”. A denominação mundana diz respeito ao comprometimento da revista com os acontecimentos da vida social, destituído, pois, de uma significação pejorativa.
Em torno de sua publicação foi criada uma expectativa de se ter, no cenário potiguar, a presença de uma revista capaz de cantar “bem alto as belezas e as doçuras” da terra norte-rio-grandense, uma vez que essa aparece numa das “fases mais movimentadas da vida social e intelectual da cidade” (MELO, 1987, p. 113). Os sinais das repercussões da revista, no meio natalense, são visíveis no jornal A República, que publica diversos artigos como “Natal vai ter uma revista mundana”(jun. 1928), “Qual o nome que deverá ter a nova revista?”(ago. 1928), “A Nova Revista”(ago. 1928), “CIGARRA – Circulará hoje à tarde o primeiro número” (nov. 1928), “CIGARRA – O grande sucesso da revista” (nov. 1928).
Cigarra teve, para escolha de seu nome, um concurso realizado com repercussão fora das fronteiras do estado, vindo indicações de São Paulo, Pernambuco e Paraíba.
Concorreram nomes de referência regional – Potyguarania[1][1] (479 votos), Romã (127 votos), Porangaba (124 votos) Nordestina (48 votos),
Potyguara (39 votos), Primavera (31 votos), Revista Nordestina (12 votos) Potyra (5 votos) – e outros voltados para o moderno – Kodak (382 votos), Garota (105 votos) Atlantida (24 votos), e Leader (11 votos).
No texto editorial da revista n° 1, o diretor de Cigarra, Adherbal França, dirigindo-se ao leitor, tem o cuidado de mostrar as dificuldades a serem enfrentadas por um periódico de sua natureza e o objetivo desta revista que surgiu, naquele momento, como uma grande novidade:
Aqui está nas mãos do leitor, uma revista mundana (…). Trata de tudo quanto queiram e possa ser lido. (…) não pretende grandes coisas, mas seguirá o traço para a conquista (…) da simpatia de todos (…) Cigarra teve origem numa idéia melhor do que se está vendo. Mas, infelizmente, apesar dos aviões, os clichês ainda gastam muitos meses para a travessia Rio-Natal. Cigarra pode ser o que quiserem, menos a imitação da fábula do francês ilustre e engenhoso, feio como os mais feios (…). Cigarra está aqui. Que seja julgada.
Opinando sobre diversos temas, o cronista colaborador da revista “mundana ilustrada” compactua com os ideais desta no desejo de seguir “o traçado para a conquista de um tesouro, que não é difícil nem fácil de ser conquistado – a simpatia de todos que nesta terra não tinham até agora uma revista para distrair os olhos” (Editorial de Cigarra, ano I, n° 1). A crônica, emoldurada por comentários mundanos, políticos, econômicos e sociais, aparece aqui como uma função expressiva do ecletismo a que se propõe cantar a “revista mundana”.
PUBLICAÇÕES
Editada em apenas cinco números, o primeiro datando de novembro de 1928 e o último número de março de 1930. Sobre o ano de circulação de Cigarra (1929-1930), há uma incompatibilidade no registro de data que aparece na página editorial do n° 05 da revista – na qual , de forma rasurada, consta março de 929 (?) – e a data de publicação do n° 04 que data de agosto de 1929; fato que nos leva a crer que o quinto número é de março de 1930, ao invés de março de 1929, como registram as referências feitas por outros estudos sobre o período de circulação de tal revista, a exemplo de MELO (1987) e ARAÚJO (1995), dentre outros.
A Cigarra (RN) aparece como espelho de seu tempo – precisou voar muito para ter parte de seus clichês confeccionados no Rio de Janeiro e em Recife, onde o progresso tecnológico já se fazia promissor. Contudo, voltou e cantou, aos poucos, em suas páginas, a modernização que chegava e contracenava com a vida provinciana local. Ela própria é a expressão do que veicula: a revista enquanto uma mercadoria que tem preço, para um público consumidor bem mais vasto e misto, diferente de Letras Novas e Nossa Terra… Outras Terras… confeccionadas para um grupo mais restrito e seletivo.
Externando um traço singular, Cigarra – que teve sua redação instalada na Av. Tavares de Lyra, n° 57, Natal, com corpo redacional formado por Adherbal França (diretor), Edgar Barbosa (secretário), e Ademar Medeiros (gerente) – traz o colorido como um traço inovador, dando à capa a feição de um “cartão-de-visita” para um cenário de matérias mistas. Enquanto elemento de capa, toma destaque o nome da revista que aparece em posição e formato diferente em cada número: no n° 1, o nome aparece em letras grandes de cor azul num fundo branco, de forma linear e horizontal, centralizado no alto da página; no n° 2, sai em letras grandes e cheias de cor preta num fundo verde, no lado direito do alto da página; no n° 3, a letra c de Cigarra aparece maior que as outras letras do nome, todas em formato cheio, cor preta e num fundo vermelho, no alto e centro da página; no n° 4, o nome aparece em forma circular, em letras menores e delimitadas por uma estrutura circular de fundo branco, no alto e lado esquerdo da página; e no n° 5, o nome vem em letras cheias de cor preta, num fundo branco, posicionada no alto e lado direito da página. Toda essa movimentação expressa pelo nome da revista já pressupõe uma atitude de dinamismo que se estenderá pela forma e conteúdo do material nela impresso, funcionando enquanto traço inovador de uma visão moderna, em que diferentes modos de expressão tendem a captar as mudanças do meio social e cultural de então.
Cigarra traz como ilustração de capa, na qualidade de pano de fundo para seu título (onde contracenam ainda a indicação do ano e do número de publicação) as ilustrações do desenhista Erasmo Xavier: na capa n° 1, têm-se aviões e caravelas, num fundo vermelho; na n° 2, o índio e a vegetação nativa de cor verde, num fundo preto; o n° 3, a imagem da mulher “Miss” (rainha da beleza), tomando destaque o vermelho e o preto, num fundo de tom vermelho claro; no n° 4, traços geométricos de uma cidade moderna contracenando com a figura de um zepelim/aeronave, nas cores contrastantes do preto, branco e verde; e no n° 5, por meio do preto, vermelho e branco, projeta-se a temática do amor na figura de um cupido e de um tipo/humano, num jogo de traços geométricos. Observa-se que “estilo e tema” destas ilustrações de capa se projetam dentro de uma expressividade muito mais significativa do que um simples pano de fundo. O colorido e o discurso, que tais ilustrações propõem, colocam em evidência o desejo de estar em sintonia com os ideais de uma estética modernista. Vê-se, na linguagem gráfico-visual projetada, um domínio consciente do efeito potencializador da modernização.
Abaixo podemos ver a imagem da capa do exemplar nº 1 da Revista Cigarra.
Com Informações:
– Dicionário da Imprensa no Rio Grande do Norte 1909-1987 – Manoel Rodrigues de Melo;
– Revista Cigarra;
– Imagem capa Erasmo Xavier;
– Fatos e Fotos de Natal antiga (link abaixo);
https://fatosefotosdenatalantiga.com/cigarra-a-revista-mundana-ilustrada/
