Estou olhando para o diploma de aluno mestre, concedido a Pedro Alexandrino dos Anjos, natural deste Estado, filho de Manuel José dos Anjos, nascido a 26 de novembro de 1870, pela congregação do Atheneu, 20 de janeiro de 1899, com autógrafos dos professores, e de Manuel Dantas, diretor.
Antes de receber o diploma já era professor de português no Atheneu. Foi sendo demitido desses cargos. Em 1904 era-o da escola noturna municipal. Nascera oposicionista.
Nos jornais de oposição, esteve sempre.
Não foi aproveitado nos estabelecimentos oficiais. Ensinava sempre, nos colégios e mantinha um grande curso particular.
Foi meu professor.
Professor de quê? Oficialmente, de Português. Mas, realmente, ensinou-me a ler, a escolher livros, a conversar, a verificar as famas literárias, a examinar valores, a respeitar o talento onde quer que estivesse, a independer da popularidade, da consagração e do aplauso.
Homem de combate, pobre, simples, soldado de vanguarda, era um espontâneo, um temperamento limpo de todas as escórias da convenção e de todos os lixos da hipocrisia.
Íntimo de meu pai e seu adversário político, passava, invariavelmente, os domingos em nossa casa no Tirol, lendo, declamando, improvisando tertúlias que eram aulas de califasia e aprimoramento intelectual.
Ensinava sem gramáticas e sem ameaças. Ensinava rindo, ironizando, derribando ídolos e processões estéticas que julgávamos acima das críticas e da compreensão.
Punha nos alunos o amor pelo idioma, a extensão do vocabulário, a riqueza sinonímica, o colorido oportuno da frase, a música nos períodos.
Os gramáticos sabem a língua e escrevem mal, dizia ele. Renan afirmava o mesmo: “Pour bien écrire une Lange il ne faut pas l’avoir trop analysée; atom remarque que les grammairiens em general écrivent mal.”
Pregava a higiene idiomática, a polícia verbal, a boa educação prosódica.
A nomenclatura gramatical divertia-o: comparava-a às peças metálicas de uma armadura do século XV aplicadas às necessidades da indumentária moderna.
Evitem o erro e esqueçam o nome, aconselhava.
Menino paupérrimo, professor de província, sem biblioteca, sem viagens, sem repercussão, possuía o instinto aristocrático da seleção, do ambiente, das minorias sábias, dos trabalhos minuciosos, desinteressados, ininterruptos, com o prêmio único da alegria cultural.
Era um apaixonado pelas palestras literárias, pelo encanto da convivência, o prazer de uma boa mesa, a paisagem educada, sensata, polida pela mão intencional do homem letrado.
Namorava as árvores, as águas quietas das lagoas ou o mar que visitava, indo a pé à Areia Preta, lento, como num cerimonial.
Tudo quanto escrevia está disperso e quase perdido.
Mesmo que se reúna e publique, não caracterizará Pedro Alexandrino. Estava perpetuamente descontente do que escrevia. Julgava inferior, descolorido, morno, incapaz de resistir, de viver, de refletir um pensamento.
Nos últimos anos, cardíaco, acompanhava apenas o meu estudo regular. Era preciso coordenar a confusão luminosa de tudo quanto eu lera. Indicou Francisco Ivo Cavalcanti, Ivo Filho, meu segundo e último professor na arte de respeitar a gramática. Ivo Filho, outro autodidata, trouxe as regras e com elas uma percepção diversa e equilibrada do idioma. Aos dois, exclusivamente, devo minha pobre festa de iniciação em livros, imagens, sonhos e pesadelos intelectuais.
Lembro seus derradeiros anos angustiados pela dispnéia. Não parava de ler e de conversar, interrompido pelas sufocações.
Uma tarde saiu para despedir-se do mar e dos morros. Devagar, alheado, andou pela Avenida Beira-mar, Petrópolis, foi ao Tirol, lá no alto, olhar as dunas verdes, arquejando, muito pálido.
Foi à nossa casa despedir-se, com a naturalidade de quem planeja uma viagem. Depois não mais saiu.
Faleceu a 5 de outubro de 1917.
A República, 28 de janeiro de 1943.
Com informações e imagens extraídas do livro Actas Diurnas – Crônicas de Luís da Câmara Cascudo.
Foto da capa: Acervo Luduvicus – Instituto Câmara Cascudo.
Pesquisa e Edição: Ricardo Tersuliano – Historiador Independente –e-mail: ricardotersuliano@yahoo.com.br – Colaborador do Blog do Cobra
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