Parabéns, Natal, pelos seus 425 anos!

Ana Tersuliano
|
26/12/2024 às
00:22

 Parabéns, Natal, pelos seus 425 anos!

Metade roubada ao mar,

Metade à imaginação,

Pois é do sonho dos homens

Que uma cidade se inventa.

 (Carlos Pena Filho)

A cidade nasce em terras que o rei Dom João III doara ao escritor João
de Barros (1495-1570). O território brasileiro fora dividido, a 28 de setembro
de 1532, em 15 capitanias hereditárias, 12 donatários com direitos e privilégios.
As capitanias eram criadas pela dupla autoridade do rei e grão-mestre da Ordem
de Cristo. A Capitania do Rio Grande (de todas a mais extensa) começava na Baía
da Traição, Acejutibiró em tupi, e terminava no Rio Jaguaribe.

O Rio Grande (do Norte) teve um donatário diferente, um intelectual,
romancista, historiador, o autor de Década da Ásia. Foi João de Barros, que
mereceu o cognome de Tito Lívio.

Português. O seu Tratado Moral, apesar de gozar do prestígio real, foi
proibido pela Inquisição. Nunca esteve em sua capitania, nem quis escrever
sobre o fracasso das duas expedições.

Em 1535, uma poderosa armada com dez navios sob o comando de Ayres da
Cunha, que se fazia acompanhar por dois filhos de João de Barros, tocou em
Pernambuco e de lá se dirigiu ao Maranhão, onde naufragou, levando o comandante
à morte. Na viagem, os expedicionários receberam a oposição dos potiguares, mas
tentaram fundar uma colônia no Ceará Mirim, nas imediações do Rio Baquipe
(designação tupi).

Nos primeiros anos que se seguiram ao descobrimento, os franceses, normandos
e bretões fizeram casas de pedras à margem do Potengi e estabeleceram comércio
frequente e regular com os potiguares, De navios portugueses tomavam bens e
pessoas. Várias razões estimulavam a cobiça europeia do local. O porto seguro
do Rio Potengi, o pau brasil, daqui, que era “o melhor pau de toda a costa”
(Jerônimo de Barros), o rio, dito “o mais piscoso do Brasil”, o clima
ameno, com temperatura média de 26°C – nunca baixando de 22 dificilmente ultrapassando
33°C, a carícia dos alísios, as cunhãs fascinadas com o savoir faire amoroso
dos franceses.

Unificados os reinos de Portugal e Espanha, não mais os franceses
poderiam continuar aqui.

O rei mandou. Felipe II, neto de Dom Manuel I, mandou criar uma fortificação,
fundar uma cidade, expulsar os franceses. Foi através das Cartas Régias de 15
de março de 1596 e 1597, instruções e recursos foram dados pelo governador
geral José Francisco de Souza ao capitão-general de Pernambuco, Manuel Mascarenhas
Homem, com apoio dos capitães da Paraíba e Itamaracá. Do Recife partiram seis
barcos e cinco caravelões. A pé seguiram as tropas comandadas por Jerônimo de
Albuquerque e Jorge, seu irmão, por Antônio Leitão Mirim e Manuel Leitão. Três
companhias constituídas por 900 frecheiros, 300 homens de espingarda, 50
cavalos, escravos negros sem conta, levando munições. Essa armada invencível
encontrou o mais feroz inimigo, o mal de bexigas. Foram dizimados pela doença,
inclusive os potiguares que comeram cadáveres e contraíram a doença.

Mascarenhas Homem, conduzindo 400 homens em seus navios, entrou na barra
do Potengi a 25 de dezembro de 1597. Um rei, fanaticamente católico (Felipe
II), mandara criar uma cidade e, por feliz coincidência, a frota chega no dia
de Natal.

O arquiteto e engenheiro padre Gaspar de Samperes traça as linhas da
fortaleza que do mar protegerá o Rio Potengi. Com pedras de Portugal é feita uma
bela estrela sobre os arrecifes de arenito, um polígono estrelado, clássico. A
construção inicia-se a 6 de janeiro, dia dos Reis Magos, no ano da graça 1598.
A primeira construção da fortaleza, que já segue o desenho original, é
concluída no Dia de São João, 24 de junho do mesmo ano, dia de tão grande
popularidade entre portugueses e brasileiros que em sua festa se celebra o
compadrio. Nesse mesmo dia, Mascarenhas Homem passa o comando, com guarnição
artilharia e munições, a Jerônimo de Albuquerque, mameluco descendente de tupi,
filho de um capitão português e da índia Maria do Espírito Santo Arco Verde.

Na chegada, os luso-espanhóis perdem as batalhas para os potiguares
açulados pelos franceses. Fez-se necessário estabelecer a paz, urgentemente.
Não tivesse Feliciano Coelho acudido com tropas paraibanas, haveria derrota.
Mas os sacerdotes atraem os potiguares. Os padres Francisco Pinto e Gaspar de
Samperes conquistam os chefes potiguares chamados de Mar Grande e Pau Seco.
Jerônimo de Albuquerque fala tupi, é corajoso e sem prepotência. Tudo favorece
as pazes com os índios.

No dia 25 de dezembro de 1599, é celebrada missa, inaugurada a igreja
matriz e o pelourinho. É escolhido e demarcado o chão urbano. Com poucas e
rústicas casas, nasce a Cidade do Natal. Ordem de rei não se discute.

O primeiro vigário é o padre Gaspar Gonçalves da Rocha. Frei Agostinho
de Santa Maria, estabelece:

Foi levantada uma paróquia que se dedicou à Rainha dos Anjos, Maria
Santíssima, com o título de Apresentação, quando seus santíssimos pais, Joaquim
e Ana, a foram oferecer no Templo, sendo de idade de três anos. Na capela-mor
se colocou, depois, um grande e famoso quadro de pintura, em que se vê o mesmo
mistério da Senhora histórica.

A recém-nascida cidade olha o rio, vislumbra o mar. Os moradores
assentam suas casas em torno da igreja em um platô, local onde está situada,
hoje, a Praça André de Albuquerque.

Depois da fé, surge a esperança dos habitantes que sentem ser, durante
doze meses do ano, Natal.

Com informações:
Livro Natal Uma Nova Biografia – Diógenes da Cunha Lima.

Foto: Canindé
Soares.

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