Outeiros em Natal

Equipe de Redação do Blog do Cobra
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25/06/2025 às
16:49

Outeiros eram tertúlias literárias, festas poéticas de exibição cultural, feitas em Portugal nos parlatórios dos conventos aristocráticos no correr do século XVIII. Aí se juntavam poetas e fidalgos, com as freiras saídas das grandes famílias ilustres do Reino, e diziam versos, improvisando décimas em glosa aos motes atirados no momento.

Depois eram servidos doces, pastéis de nata, filhoses, toucinho do céu, rebuçados, roscas de polvilho, com vinhos delicados e de doce aroma. Eram filhos reuniões freiráticas, as saudosas grades de doces, de renome social, com poemas, pão de ló, covilhetes de marmelada, morcelas de Arouca, frequentadas pelos peralvilhos blasonados que diziam rimas mastigando, nos átrios dos mais suntuosos conventos de Portugal, o manjar branco de Chelas ou o sequinho de Estremoz. Laus tibi, Domine. Viera do luxo sacro de D. João V e passara, mais ou menos dissimulado, sob a férula do marquês de Pombal. Sob o reinado de D. Maria Primeira surgiram os serenis em Queluz. O outeiro ainda se arrastou até meados do século XIX em Portugal. Camilo Castelo Branco ainda o assistiu e louvou.

Em Natal não havia convento de Santa Clara nem confeitos de requintada feitura. Nem vinhos pagos nem presentes. Nem reixa para ver freiras letradas nem grupos vestindo seda, acompanhando a viola os ondulantes lundus do Padre Caldas. Era tudo pobre, simples, rústico, sugestivo.

Depois das festas religiosas, especialmente da Padroeira em novembro, armava-se um palanque, bem enfeitado de manjericão, espirradeira e malva, ao lado direito da Matriz. Não havia muita atração. Raros fogos no ar. Não sabíamos o segredo da pirotécnica.

Terminadas as novenas, cada noite, todo o povo, os ricos, os pobres, os sisudos comerciantes, os rapazes azougados, especialmente as moças, de cachimbo enrolado, cintura leve anquinha estufando o vestido, fina memória no dedo, alegria de coral no peito, flor para baixo (amor ausente) e os olhos ternos, reuniam-se derredor do taboado. Era o Outeiro. Era a prova das armas poéticas, a luta de improvisação, a batalha dos vates, os jogos florais nesta melancólica província. Os homens e as mulheres assistiam essa demonstração positiva de espírito, de verve, de espontaneidade. Trepava-se o poeta naquelas alturas e lá dizia: vinha o mote! Alguém indicava um mote, sempre de assunto religioso, como Tota publicara os Maria, Louvores e São José, as Dores do Bom Jesus. Mas não pensem que os poetas recitavam os seus improvisando-os dentro da unção ascética e mística dos mosteiros. Aproveitavam para surrar os desafetos, para ajustar contas com os boateiros, para fazer rir. Era cômico, natural e curioso.

Aqui estão os exemplos. Um fiscal denunciara Lourival Açucena ao juiz de Paz, pelo crime de frequentar Lapinhas e fazer assuadas. O poeta, no Outeiro, glosa um mote sacro dessa forma:

Gente? Que-de o fiscal?
Por ventura se escondeu?
Ninguém há que dê notícia
Desse velhote sandeu?
Deste cara de cuscuz
Que foi denunciar
Ao chefe, para aumentar
As dores do Bom Jesus!

Ou este, de João Elísio Emerenciano:

Das ventas duma polia
Espirraram três xexéus
Quarenta e oito tetéus
E cinquenta e nove gias.
A quarenta e oito cotias
Comandava um caboré.
E também um Canindé

Repimpando no seu pau
Tocava num berimbau:
Louvores a São José!…

E Francisco Gomes, defendendo seu pai a quem acusavam de viver sempre a meio-lastro:

Estou-vos muito obrigado
Em falar-vos do meu pai.
Pois, Jajana quando cai
Ficareis bem agastado…
Isso de gato amarrado
Não deve ser zombaria
Muita gente já bebia
Como ele já bebeu.
E gloso por prazer meu:
Tota pulchra és Maria!…

Esse o ambiente do Outeiro que os natalenses ouviram e palmejaram até 1885. É uma forma de inteligência e da simplicidade de outrora. Pois não fazer saudades mas não há mal em relembrar-lhe a existência romântica, satírica e sentimental…

A República, 25 de janeiro de 1940.

Com informações e imagens extraídas do livro Actas Diurnas – Crônicas de Luís da Câmara Cascudo.

Foto da capa: Acervo Luduvicus – Instituto Câmara Cascudo.

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Aladim Potiguar, colaborador do Blog do Cobra.

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