Os sinos da Matriz

Equipe de Redação do Blog do Cobra
|
01/04/2025 às
08:58

Os rádios têm popularizado os sons longínquos dos sinos históricos de Belém e os do Vaticano. A memória haloos de esplendor, mas não falam tanto ao coração como vós, sinos pobres de primeira Igreja de Natal. Sei vossa vida e os episódios desse passado que segue o desabrochar da Cidade. Chateaubriand cantou os sinos, mas a eloquência mais sonora dar-lhe-ia o pequeno campanário de sua aldeia evocadora. Ela lhe lembraria a hora branca e virginal do batismo, com repique álacre e miúdo e as badaladas, profundas e lentas, anunciando a morte.

Tínhamos nós, naturalmente, na capelinha inicial, um sino pequenino. Na reconstrução da Matriz, abertas duas janelas na fase norte da Igreja, aí ficou, com seu companheiro, um par humilde de cálices de bronze, voltados para baixo, espalhando avisos de Fé nos momentos de alegria e de angústia. Depois de meados do século XIX, as duas janelas foram convertidas num só janelão. Cantou anos e anos, o ruidoso casal dos dois sinos, semeando sinais de vida que nascia e de morte avizinhada.

Quando se ergueu a torre em fins de 1862, para onde viajaram os sinos velhos, reunidores da população serena nos domingos claros de missa?

Ainda em fevereiro de 1863, o engenheiro Ernesto Augusto Amorim do Vale pedia o pagamento de 25 réis para Manuel Elias de Melo, proveniente de algumas obras feitas nos sinos da Matriz. Deviam ser nos sinos veteranos, desalojados do alto nicho, agora substituídos por um irmão, forte e sólido, vibrando musicalidade do alto da torre, quadrada e nobre. Para esse primeiro sino, deu a província 600 réis mas o preço era superior. Chegara a 801, 649 réis, pagos pelo comerciante Domingos Henrique de Oliveira, em maio de 1863. Em setembro do mesmo ano, o Presidente Olinto José Meira informa que a torre, há poucos dias, recebeu o novo sino que lhe estava destinado.

O sino menor foi pago pela lei nº 716, de 4 de setembro de 1874, a Joaquim Inácio Pereira, a quantia de 301 à 453 réis, despendida na compra de um sino para a Matriz da capital.

É essa sua crônica. Simples e doce.

Podiam nossos sinos receber, na cercadura da bocarra escancarada para a solidariedade dos anúncios humanos, a glória da velha glosa latina, enfeitando seus distantes irmãos em Portugal.

“Laudo Deum, populum voco, congrego clerum.”

“Defunctum ploro, pestem fugo, festa decor….”

Louvo a Deus, chamo o povo, congrego o clero, choro os mortos, afugento as pestes, alegro as festas…

Nas tempestades, fiéis ao Concílio de Milão, tocavam os sinos.

Batizados com água e óleo bento, óleo para enfermos, exceção única, os sinos agiam contra os Demônios que dançavam nas tormentas e se diluíam pelo mundo. Ventorum flabra fiant salubriter acmoderate” suspensa. E a mão do Bispo devia ungir o sino com sete unções interiores e quatro exteriores, queimando perfumes no seu bojo, pedindo fazer descer o Espirito Santo todas as vezes que o sino soasse como baixara sobre Saul aos sons deleitáveis da harpa de David.

Quando os nossos sinos vibravam era uma mensagem a todos os espíritos esparsos nos limites da Cidade melancólica. Reunia-os mentalmente, fundindo-os ao acento vibrante daquele idioma universal, falando pela boca metálica e entendido pelos corações. Há uma linguagem, um código, um estranho abecedário que atravessava os ares, indo, pelo som, como palavra dos Profetas, do ouvido às almas. Congregava a voz difusa da multidão. Repiques de missas chamadas de Irmandades, dobres de finados, claridades musicais de batismos, compassado, era à saída do nosso Pai, a extrema unção aos moribundos, espaçados, insistentes, alguém entrara na agonia e pedia que o ajudassem a morrer, orando: dez badaladas seguidas, nascia mais um cristão, nove batidas, era menino, sete era menina, tinir contínuo de repique, quase sem intervalo, incêndio, três golpes cadenciados, tardos, derramando-se nas tardes como um óleo santo de tabernáculo, era o ngelus, as Trindades. O sino avisava, congregava, defendia, chorava. Era uma entidade viva, humana e perpétua vigiando a Cidade, como uma sentinela, do alto do eirado da torre senhorial. Ainda no orçamento municipal de 1886 e 1887, a Câmara do Natal consignava a verba anual de 605 para pagar quem batia no sino o toque de recolher, como nos sinos da Idade Média corria, pelo tocsim, o apaga-lume, a hora tranquila da cría, da oração e do sono.

Sinos da Matriz… testemunhas das vidas, pranto das mortes, saúdo vossa história, sino, signum, sinal, arauto da solidariedade, guarda da fé, soldado perpétuo em posto inarredável, gritando com voz de bronze, no meio das ventanias de todos os orgulhos, no turbilhão a poeira doirada efêmera dos homens, a hora de Deus, no dia de César…

A República, 31 de dezembro de 1939.

Com informações e imagens do livro: Actas Diurnas – Crônicas de Luís da Câmara Cascudo.

Foto da capa: Acervo Luduvicus – Instituto Câmara Cascudo.

Colaboração: Aladim Potiguar – Blog do Cobra.

Gostou desse conteúdo? Siga-nos no Instagram@blogdocobra_

Comentários

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *