Os Maias e a Fazenda Espalha

Equipe de Redação do Blog do Cobra
|
09/10/2024 às
11:38

 

Fotos: Olavo Fernandes Maia
Filho

Decorria
o ano de 1986 e, nesta época, eu trabalhava como motorista do saudoso
desembargador de Justiça Olavo Fernandes Maia. Lembro-me das primeiras viagens
que fiz para a região oeste do estado, especificamente para a Fazenda Espalha,
localizada no município de Janduís. Nesta época da BR 304 (Assú), até Janduís
era estrada de piçarro. 

Me lembro que era um período de inverno, a vegetação estava verde, os rios e açudes cheios, e a fauna e a flora eram contempladas com o favor divino. Os fazendeiros e seus agricultores estavam felizes; era um momento de fartura.

A
fazenda era oriunda do espólio do fazendeiro Ottoni Maia e foi herdada por sua
filha Olga Maia, irmã do desembargador. Dona Olga, durante muitos anos, residiu
e administrou a fazenda com muito afinco. Lembro-me bem do amor e da satisfação
com que ela falava da fazenda e da história de sua família. Por várias vezes,
pude acompanhá-la na lida da fazenda. Na alvorada do dia, ao ir ao curral, Dona
Olga encontrava-se com vários funcionários, momento em que já passava
instruções para as tarefas diárias que acabavam de ser iniciadas.

Em
diferentes pontos da fazenda, a lida diária ocorria a todo vapor: a colheita do
capim para a alimentação dos animais, o plantio no entorno do gigantesco açude,
o cultivo de milho, cana, macaxeira e jerimum, o chamado roçado. Havia também a
pescaria no açude, o abate de animais para a alimentação, a manutenção de
tratores e máquinas, e a lida com os animais. Enfim, uma rotina repleta de
trabalho e dedicação.

Recordo
com saudade de muitos membros da equipe da fazenda que assessoravam Dona Olga
em seu trabalho diário. Na cozinha, lembro de Dona Severina, muito gentil,
educada e agradabilíssima. Certa vez, conversei com ela no terraço nos fundos
da cozinha, enquanto ela moía milho na máquina manual para fazer cuscuz para o
jantar. D. Severina era responsável pela mesa farta da fazenda. Lembro também
de Crispim raspando rapadura para adoçar a coalhada.

É
impossível não recordar do saudoso Dodô Velho e seus carrapetas, além da canção
“Jardineira”, que ele adorava cantar. Quando estava aperreado, Dodô
gritava: “Chegue, Severina, tá cheinho de carrapeta por aqui!”

No
curral, o vaqueiro Franklin, lembro também de Solon do carro-pipa, eram apenas
alguns entre inúmeros outros que aqui não foram citados.

Lembro
das maravilhosas noites enluaradas na frente da casa sede da fazenda. Algumas
vezes, presenciei a casa cheia, com todos os irmãos reunidos: Otoniel Maia,
Olavo Maia, Onésimo Maia, Onevaldo Maia, Ozires Maia, Oton Maia, Onésio Maia,
Olga Maia, Ozita Maia e Ozelita Maia, filhos, sobrinhos, além dos funcionários
da fazenda. Era um bate-papo maravilhoso, cheio de histórias de todos os tipos:
da infância, da fazenda, dos funcionários, de assombrações, das festas, entre
outras. A conversa se estendia madrugada adentro. Várias vezes, eu saía para
caminhar no pátio da fazenda com Dr. Onevaldo, que apontava para o céu e falava
das constelações de estrelas que estavam a anos-luz da Terra.

Lembro
também das inesquecíveis viagens que fiz com Dr. Onevaldo em seu fusca verde
1981, de Recife para o Espalha e vice-versa. Era muito divertido! Existia todo
um procedimento exigido por Dr. Onevaldo para dirigir o carro. A chave tinha um
buraquinho que precisava ser colocado para cima para poder ligá-lo, e ele ia ao
lado, como copiloto, passando as orientações. No alto de uma ladeira, ele
mandava acelerar (o que ele chamava de “dar um sopro”) e colocar em
ponto morto para dar uma banguela na descida. O vidro dianteiro ele mandava
subir, deixando apenas dois dedos aberto, porque dizia que o motor levava o
carro para frente; mas, se o vidro estivesse totalmente aberto, o vento entrava
e empurrava o carro para trás.

Na
primeira viagem que fiz, lembro que paramos em um restaurante. Eu fui encostar
o carro, tranquei as portas e fui atrás dele. Lembro que ele olhou para trás e
disse: “Abra o rabo desse diabo para tomar vento”, referindo-se a
abrir a tampa do motor para que ficasse aberta enquanto nós tomávamos café.

Lembro
que, quando terminou o café — nesta época eu fumava — perguntei a Dr. Onevaldo
se ele poderia me arrumar um cigarro dele. Ele pegou a carteira de cigarros
cheia que estava no bolso e me deu, dizendo: “Pegue logo esta carteira,
porque, se eu lhe der um, daqui a pouco você vai me pedir outro.”

Ele
admirava a paisagem, contava várias histórias, mas, de vez em quando, olhava
para o velocímetro do carro e dizia: “Conserve esse diabo em cima dos 80
quilômetros, seu Ricardson”, que era como ele me chamava. Era muito divertido
viajar com Dr. Onevaldo.

A
Fazenda Espalha foi palco de grandes momentos. Lembro de um dia festivo,
durante uma campanha política. O espaço estava cheio, aguardando a visita de
José Agripino Maia e de vários deputados. A casa-sede estava lotada, e o pátio
da fazenda recebia visitantes de todas as partes. O dia seguiu como uma grande
festa e adentrou a noite, que foi animada por uma banda de forró pé de serra
local.

Hoje, a
Fazenda Espalha pertence e é administrada por Gerane Maia, que herdou de sua
tia o amor pela fazenda.

Saudade
de todos: do Dr. Olavo Maia e sua esposa, Véscia Maia; de D. Olga; de todos os
Maias; das festas das padroeiras da região; da Banda de Birico; de Severino, de
tia Rosa; de Macedônio do Caminhão; das farras com Olavinho, Mussuruca,
Rivaldo, Manoel e com os saudosos Adolfo Maia e Maranto Filgueira, entre
outros. Enfim, daqueles tempos bons que não voltam mais.

Fica
aqui este registro para as novas e futuras gerações.

Ricardo
Tersuliano (Cobra), colaborador do blog.

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