Thomas E. Woods Jr., em “Como a Igreja Católica
construiu a civilização Ocidental” (Quadrante, 2019), nos relembra que a
“Universidade foi um fenômeno completamente novo na história da Europa. Nada de
parecido existia na Grécia ou na Roma antigas. A instituição que conhecemos
atualmente, com as suas Faculdades, cursos, exames e títulos, assim como a
distinção entre estudos secundários e superiores, chegam-nos diretamente do
mundo medieval. A Igreja desenvolveu o sistema universitário porque, com
palavras do historiador Lowrie Daly, era ‘a única instituição na Europa que
manifestava um interesse consistente pela preservação e cultivo do saber”. E,
da trilha Bolonha, Paris, Oxford e Cambridge, chegamos às Harvards de hoje.
Essa relação Igreja e ensino superior, nas suas
origens, não se mostrou muito diferente no Brasil. Peguemos os casos dos
primeiros cursos jurídicos do país, criados em São Paulo e Pernambuco. Como
anota Nelson Werneck Sodré, em “Síntese de história da cultura brasileira”
(DIFEL, 1985), “por circunstância que não importa em coincidência, os dois
cursos instalam-se em antigos conventos, em São Paulo e em Olinda, ‘como
símbolo da superposição das duas culturas, a religiosa e a profissional que lhe
sucede, substituindo o espírito eclesiástico pelo espírito jurídico’. Esses
cursos, como fora previsto, tornaram-se provedores de quadros às assembleias e
ao governo das províncias e do país”.
De toda sorte, por força de condições impossíveis
de aqui analisar, foi tardio, no Brasil, o aparecimento da chamada
Universidade. E essa ideia de agrupar faculdades e cursos em universidades
deveu-se tanto a uma necessidade premente como a uma mera tendência imitativa
do estrangeiro. Datam as primeiras universidades no país de meados da década de
1930, com destaque para a Universidade de São Paulo (USP), de 1934. Já o
crescimento industrial pós 2ª Guerra Mundial e, sobretudo, nos anos 1960,
firmou a ideia de que o país necessitava de profissionais com formação
universitária para enfrentar o exponencial desenvolvimento econômico. A década
de 1960 viu a criação de uma gama de universidades federais, públicas e
gratuitas, praticamente em todos os estados da nossa Federação.
Não resta dúvida de que a transmissão da “cultura”
se dá através de meios sistemáticos e não sistemáticos. O meio sistemático mais
usado e efetivo é aquilo que chamamos de ensino. Em todos os tempos e lugares
onde enxergamos um desenvolvimento da sociedade sempre existiu um aparelho, uma
estrutura, vocacionada à transmissão de cultura/conhecimento. A começar pela
alfabetização, sua etapa inicial, e culminando no ensino superior, consagrado
nas universidades, como etapa final. A importância das universidades, em
especial das universidades públicas, no ensino, extensão e pesquisa no Brasil é
intuitiva e evidente. Ela é um compromisso com a razão, a argumentação racional
e o espírito de pesquisa que devem caracterizar o mundo contemporâneo.
Todavia – e já adianto que nunca aceitei bem o
porquê –, as nossas universidades sempre foram vistas com desconfiança por
parcelas da sociedade. Como anota Nelson Werneck Sodré, as contradições da
sociedade brasileira, inseridas na questão universidade, operam como explosivos
para a destruição desta. Os intelectuais em geral, os professores e estudantes
em particular, são tidos sob suspeição. As universidades são ameaçadas ou
policialescamente mutiladas, como no Regime Militar, culminando com o expurgo –
que tem como antecedente a Alemanha hitlerista, quando esta perdeu, para os EUA
principalmente, os seus maiores cientistas –, dos “mestres de mais profundo
saber e alto renome”. E “isso corresponde, no fim das contas, a colocar sob
suspeita a própria cultura, a supô-la ‘subversiva’ em si”.
É verdade que às vezes a coisa ganha um ar
caricato, cômico até. Tenho um primo, que jamais sequer passou pelas beiradas
da UFRN, cuja filha está agora ali estudando. Ele está muito preocupado com os
comunistas e, sobretudo, com umas tais “surubas” (vão me desculpando o termo),
que de há muito, segundo ele, acontecem no curso de direito.
Anoto que fiz direito na UFRN. Depois fui ser ali
professor. Mas nunca soube desses bacanais. Talvez seja a confraria mais
hermética da civilização universitária ocidental cristã em séculos. Sem
qualquer alma caridosa para então me sussurrar, quando hoje oiço dessas míticas
orgias, a única coisa que me dá é inveja – de não haver, quando jovem e
solteiro, participado delas.
Texto: Dr. Marcelo Alves Dias de Souza
Procurador Regional da República
Doutor em Direito (PhD in Law) pelo King’s College
London – KCL
Membro da Academia Norte-rio-grandense de Letras –
ANRL;
Colaborador do Blog do Cobra.
Leia Bíblia!!!