Onde está sepultado Ferreira Itajubá?

Equipe de Redação do Blog do Cobra
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29/05/2026 às
09:57

Manuel Virgílio Ferreira Itajubá morreu na Santa Casa de Misericórdia, no Rio de Janeiro, a 30 de julho de 1912. Se vivesse até 21 de agosto, o claro mês dos meus anos, teria trinta e seis anos. Foi sepultado sem notícia e ficou dormindo no chão carioca, nome vago entre vagos nomes que ninguém recordará.

No Rio Grande do Norte sua popularidade era fator pejorativo para os “intelectuais”. Jamais o consideraram poeta. Itajubá, doido para figurar em todas as associações, era recusado por todas. Faziam pilhérias. Puseram-lhe o apelido de Poeta Cajueiro.

Magro, desengonçado, com andar de marinheiro, voz teatral, calvo na fronte e cabeleira rala no ocipute, Itajubá rosnava, certo do valor pessoal: deixe eles conversarem…

Só Henrique Castriciano o compreendeu e distinguiu, escrevendo crônicas muito discutidas, sobre o mérito discutidíssimo do Poeta Cajueiro. Itajubá, com seu “frack” esverdeado, seu colete entre lilás e vermelho, sua mania pelos pastoris, seus discursos nos circos de cavalinhos, seus poemas nas Rocas, na Rua da Lua, na Travessa Paraense, no Beco do Caju, seu violão de folhas de flandres (para a chuva não escolar), seu vozeirão rouco de pai-nobre encatarroado, estavam distantes do bom tom, das exigências sociais, de protocolo, da arte mundana dos poetas que pertenciam aos sodalícios ilustres. Itajubá era apenas instinto, força de imaginação insubmissa, prodigiosa de colorido, de graça, de originalidade e de beleza. Mas, gramaticalmente, era um cataclismo. Levou um soneto à H. Castriciano, onde se lia: a tua carne alvar. Que o diabo é carne alvar, Itajubá? É carne branca, alva, respondeu, impassível o bardo maravilhoso. Sem gramática, e a mais completa organização poética, natural e viva, que possuímos.

Quando todos os vates cantavam Grécia e palmas de acantos, Frinéa e Laís, montes clássicos e gente de longe, o poeta Cajueiro fixou a natureza radiosa que o cercava. Ninguém antes dele elegera uma moça praieira pra tema de poema. Ninguém trouxera a paisagem das praias ensombradas de coqueiros, a lua de março refrescando as areias, as jangadas no mar azul, os rolos, as flores rústicas, as serenatas, os mangues, a rede armada nos alpendres na hora do mormaço, as dunas alvas, coroadas de verde, todo encanto, disperso e lindo, que os olhos não tinham querido ver.

Esse poeta começou a ser aclamado quando não podia podia agradecer homenagem justíssima. Representamos a justiça com a face vendada quando o outro atributo seria fazê-la cavalgar uma tartaruga.Quando um poeta encontra o seu momento de glória, jáse despediu da vida. É regra com exceção sabida, aqui e além

Morto Itajubá. Henrique Castriciano deixou passar três anos e encontrou os ossos, em 1915, dentro de uma prateleira. O criado de H. Castriciano, Ambrósio a quem chamamos Incelência, por dar esse tratamento a todos, começou a ficar assombrado. Diga-me que Ambrósio ignorava o conteúdo do caixãozinho. Pela manhã, incelência se ia queixar a H. Castriciano que não podia dormir com as cantarolas e versalhadas daquele freguês que estava dentro do caixão. Ambrósio afirmava que ouvia alguém cantarolar e dizer versos, horas seguidas, no quarto de Henrique. Para sossegar Incelência, Castriciano levou os ossos de Itajubá e deixou-os, em depósito, na Igreja do Bom Jesus, a frei André, um franciscano, português, que aqui morou, muito inteligente e boa pessoa. Tempos depois, lembrando-se de promover o jazido para itajubá, foram amigos ao Bom Jesus, entre eles o prof Luís Soares. Opadre explicou que, numa reforma, não sabendo que fazer de tanto osso sem dono e sem sepulcro, mandara abrir uma fossa na igreja e a todos enterrara, com orações rituais. Não sabia indicar onde. E com os ossos de Itajubá tinha ido dezenas de outros anônimos.

Assim Ferreira Itajubá está sepultado no sagrado, na Igreja do Bom Jesus. Mas não se sabe o lugar. Ninguém saberá jamais.

Natal quando eu morrer, apaga-me da lembrança,

Mas guardam-me na cova que meu pai descanva,

Pobre Itajubá!… Esse desejo, a cidade cumpriu, justamente em contrário …

Com informações livro: A República, 27 de março de 1940. Actas Diurnas – Luís da Câmara Cascudo.

Pesquisa e edição: Ricardo Tersuliano – Historiador Independente.

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