O historiador Luís da Câmara Cascudo escreveu, em seu livro Das Velhas Figuras, o texto abaixo sobre o primeiro vigário de Natal:
O Des. Luiz Fernandes, anotando o “Auto da Repartição das Terras do Rio Grande” (1614) ensinou que a fundação da Cidade envolveu a da Freguesia, sendo nomeado seu primeiro Vigário o referido padre Gaspar Gonçalves da Rocha. Nada sabemos do início e fim desse ministério sacerdotal. O padre vigário não apareceu na História como pastoreando almas mas possuindo terras. Não tivesse ele oito sesmarias, registradas nos papéis oficiais daquele ano de 1614, e nada teria deixado de sua existência terrena. Boas ou más obras sabe-as Deus eu ignoro. Assim, na qualificação do nosso primeiro vigário, é óbvia a inclusão da nota: – aos costumes disse nada.
A revelação desse “Auto da Repartição”, devida ao Barão de Studart é de inesgotável riqueza documental. Inúmeros aspectos serão fixados, em seus princípios, graças aos registros de cento e oitenta e cinco trechos da terra norte-rio-grandense, doados aos homens que começaram a vida social da pequena Capitania.
Que sabemos nós de Padre Gaspar Gonçalves da Rocha?
A 24 de abril de 1601, recebia duas mil braças por costa, começando da boca do rio Curimataú, para o norte, e duas mil para o sertão. Houve aí casario, criação de gado e rede de pescaria. Em 1606 ficara despovoada. Não tinha águas. O padre teve hus chãos de çítio da cidade em que fez cazas em que vine. Esse vine é vive. A terceira data é de mil braças em quadra, do rio Guacoripera, um afluente do rio Potengi, desaparecido ou de nome irreconhecível atualmente. Havia roça e canavial plantado. Era terra capaz para um trapiche. Trapiche é o engenho de açúcar que moe com tração animal, moem com bois, e chamam-se trapiches, ensinava o padre Fernão Cardim em 1585. Outra data é de 1500 braças, pelo rio Guoarahú, pelo rio Potengi acima. Era dádiva de 23 de junho de 1603. Em 1614 pertencia ao Escrivão Pero Vaz Pinto. Constituía porto de pescaria que fora de todos os Capitães-Mores. Esse rio Guoarahú é apenas o Guagirú, rio Doce. A terra é a praia da Redinha.
He ho melhor porto de pescaria que aquy há e está de fronte da fortaleza, explicava o auto. Em 7 de agosto de 1604 há uma data, 300 braças em quadra na campina junto a esta cidade. Estava devoluta. A campina junto a esta cidade é a praça Augusto Severo em diante, para leste e norte. Outra data ficava nos arredores de Pirangí. Não é de préstimo nenhum, afirma o Auto e não sei para que o reverendo Vigário a queria. A de 26 de julho de 1607 constava de uma légua de terra na várzea do Tarayre, que é o Trairí. Servia para pastos e não he ynda cultivada, anotavam em 1614. Diga-se que o pároco era senhor da primeira sesmaria doada no Rio Grande do Norte. Dera Manuel Mascarenhas Homem, ao capitão João Rodrigues Colaço, nosso segundo Capitão-Mor, uma data de 2.500 braças ao longo do Rio Potengi, a 9 de janeiro de 1600. O Auto dá poucos detalhes mas existe ainda o registro que a minucia inteiramente. O Padre comprou-a a Rodrigues Colaço. Pagava os dízimos pontualmente e a tinha cultivado de roçarias de mantimentos, e ia roçando outra parte dela para plantar canas e ver-se hera capaz delas e de hu trapiche. Essa idéia de fundar um engenho de açúcar estava popularizada e, noutro registro, duma data vizinha, anuncia-se que servirá para canas, fazendo-se o engenho do Padre Vigário como fica dito.
Ter-se-ia construído esse trapiche? Creio que sim. A História, recordando a morte de Francisco Coelho, família e amigo à mãos holandesas, dí-lo proprietário de um engenho, posteriormente conhecido por Ferreiro Torto, no município de Macaíba. Desde 1608 que Francisco Coelho tinha terra nos arredores e a data-93 informa que ele a tem povoado com casas e roças e gado vacum, e servirá para canas, fazendo-se o engenho do Padre Vigário. Não há outro engenho na região. Teria o Reverendo construído o engenho ou vendera a terra a Francisco Coelho e este erguera o trapiche? Não sei.
E como findou o Padre Gaspar Gonçalves da Rocha? Só sabemos o nome do Padre Ambrósio Francisco Ferro, sacrificado na matança de Uruassú, a 3 de outubro de 1645. Aceitando que o padre Ferro fosse Vigário em dezembro de 1633, quando os Holandeses se apossaram de Natal, há um lapso de dezenove anos, de 1614 a 1633, que o Padre Gaspar, ou Gaspar Gonçalves da Rocha, teria ou não paroquiado.
Os Holandeses incendiaram todos os arquivos. Pode ser que, nalguma parte ignorada, durma um documento elucidador. E, um dia apareça, como apareceu, pela mão ilustríssima do Barão de Studart, o Auto da Repartição das terras. Texto publicado no Jornal a República de 25/07/1940.
Com informações: O Livro das Velhas Figuras – volume VII – Luís da Câmara Cascudo.
Foto: Livro Actas Diurnas – Luís da Câmara Cascudo.
Pesquisa e Edição: Ricardo Tersuliano – Historiador Independente –e-mail: ricardotersuliano@yahoo.com.br – Colaborador do Blog do Cobra
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