João Carlos Wanderley, tão injustamente esquecido, voltou em 1878 para Natal. No Açu mantivera o Correio do Assu, e na capital da Província mudou-lhe o nome para Correio do Natal, fazendo-o circular desde 1878 a 1889. Naquele tempo antigo sabia-se guardar tradição de bom gosto. Os jornais de João Carlos Wanderley foram Correio do Assu, e não de Assu, e Correio do Natal e não de Natal, como seriam, nos nossos dias, chamados.
O jornalista veterano trouxera o prelo e as caixas de tipos, suas armas de combate aos Saquaremas, apelido dos conservadores. João Carlos instalou-se num casarão onde foi a Intendência Municipal e se ergue, presentemente, a Prefeitura Municipal.
Em princípios de 1888 ou fins de 1887, entrou um aprendiz tipógrafo que, em breves meses, aprendera todos os segredos da profissão. Era o menino José Alcino Carneiro dos Anjos, magro, fino, calado, gostando de escrever versos e fazer castelos no ar.
Em janeiro de 1889, o médico Pedro Velho de Albuquerque Maranhão fundou o Partido Republicano do Rio Grande do Norte, na casa de João Avelino Pereira de Vasconcelos, na Campina da Ribeira, imensa residência que pertenceu ao meu pai e onde me criei. O Grande Hotel ocupa-lhe o local.
Pedro Velho começou a lutar para fazer nascer o órgão republicano e não havia quem quisesse imprimir o futuro jornal. João Carlos Wanderley topou a parada. “A Republica” circulou no dia 10 de julho de 1889. Há setenta anos passados…
José Alcino foi o tipógrafo da quase totalidade do primeiro número de “A Republica”. Levava as “provas” para a revisão de Pedro Velho que quase sozinho, escrevera todo o texto. Diga-se de passagem, que Pedro Velho nunca tinha corrigido uma prova tipográfica na sua vida. Ignorava todos os sinais e foi José Alcino o professor, riscando com o lápis as anotações.
Até 22 de abril de 1908 José Alcino trabalhou como tipógrafo de “A Republica”.
Pedro Velho comprara a João Carlos o prelo e as velhas caixas de tipo e foi José Alcino, o grande Augusto Leite, o distribuidor e lavador de tipos, arranjando a tipografia e dispondo a precária e difícil aparelhagem necessária.
Desde 1918, quando comecei a farejar jornalismo, conheci José Alcino e nunca deixei de perguntar pela sua história humilde e bonita de operário que se tornara histórico. José Alcino era homem de leitura, poeta, sabendo dizer, aos raros íntimos, versos e evocando o tempo passado que o encantava. Colaborara em inúmeros jornalzinhos e pertenceu ao grupo de Le Monde Marche, com sua revista “Oásis”, de existência sugestiva e mesmo batizando uma geração, a geração do “Oásis”, 1894-1904.
Augusto Severo foi gerente de “A Republica”, fazendo as contas das despesas, comprando papel e tinta e pagando os operários aos sábados. Possuía um recibo com sua gloriosa assinatura.
A melhor caligrafia para compor era a de Pedro Velho. A meio lá e meio cá, era de Nascimento Castro. A ultra-péssima, de Braz de Melo. Quando este escrevia “afobado”, só José Alcino entendia a garatuja.
Pedro Velho, mesmo deputado, governador, senador da República, gostava de ir dar uma prosa nas oficinas. Dos próceres republicanos um, apenas, sabia compor: Augusto Severo, que aprendera com Augusto Leite. Não sabia “distribuir”. O melhor distribuidor era José Alcino. Campeão de velocidade.
Em 1908 passou para o Tesouro do Estado e aposentou-se velho. Faleceu a 8 de fevereiro de 1957. Nascera em Natal a 22 de janeiro de 1873. Tinha 84 anos feitos.
Foi, historicamente, o primeiro tipógrafo de “A Republica”.
A Republica, 01 de julho de 1959.
Com informações e imagens extraídas do livro Actas Diurnas – Crônicas de Luís da Câmara Cascudo.
Foto da capa: Acervo Luduvicus – Instituto Câmara Cascudo.
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Aladim Potiguar, colaborador do Blog do Cobra.
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