
Crédito da foto, link abaixo: Engenho de Cunhaú, Rio Grande do Norte, detalhe, Frans Post, 1645.
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O chamado Massacre do Engenho Cunhaú, ocorrido à época do domínio flamengo na Capitania do Rio Grande, representa uma das mais trágicas páginas da nossa história. Para fins deste estudo, apelaremos para os relatos deixados por seis fontes históricas coevas. Foram elas: André Vidal de Negreiros’, frei Manuel Calado, Diogo Lopes Santiago, frei Raphael de Jesus, o alemão Joan Nieuhof, Pierre Moreau e o trio Hamel, Bullestrate e Bas.
Com o início da Insurreição Pernambucana contra o domínio flamengo, che- garam ao Engenho Cunhaú, situado no distrito do mesmo nome, Jacob Rabbi e uma tropa por ele comandada, composta de tapuias, potiguares e holandeses. Frei Raphael de Jesus, Joan Nieuhof, Pierre Moreau, Hamel, Bullestrate e Bas, não mencionam a presença de flamengos naquela tropa chegada a Cunhaú.
O que teria levado aquela força a dirigir-se a Cunhaú? Segundo Diogo Lopes Santiago e frei Raphael de Jesus, teriam chegado ordens do Recife, para que fossem mortos os moradores do engenho. De acordo com Nieuhof, informados os tapuias de que os portugueses de Pernambuco estavam revoltados, tomaram a iniciativa de atacar Cunhaú. O relatório de Hamel, Bullestrate e Bas informa que os tapuias informados, segundo parece, por seus feiticeiros ou adivinhos da revolta dos portugueses e do fato de que estes tentaram expulsar-nos do Brasil, com Jacob Rabbi invadiram o Cunhaú.
Os comandados de Rabbi chegaram ao engenho, então pertencente a Gonçalo de Oliveira, em uma tarde de sábado, 15 de julho de 1645. Frei Manuel Calado indica uma outra data: o dia de São Pedro e São Paulo (29 de junho), enquanto Fr. Raphael de Jesus aponta a data de 16 de junho. Jacob Rabbi, reunindo os moradores do distrito, comunicou-lhes ter vindo em missão pacífica, convocando a todos para no dia seguinte comparecerem ao local, a fim de tratarem de um importante assunto. Rabbi pregou na porta da capela um bando, ou edital assinado pelos membros do Conselho Supremo Holandês do Recife.
Segundo frei Manuel Calado, “permitiu Deus que chovesse naquela noite tanta água, que não se podia andar por os caminhos e esta foi a causa de se não ajuntar muita gente. Frei Rafael de Jesus esclarece que a maior parte dos moradores entrou para a capela do engenho; “outra menos confiada se deixou ficar nas casas do engenho. Ainda, segundo Manuel Calado, compareceram ao encontro com Jacob Rabbi trinta e nove homens, moradores naquele distrito de Cunhaú.
Pelo relato de Diogo Lopes Santiago, Rabbi então lhes disse que ouvissem missa, que ao final da mesma lhes comunicaria o negócio a que tinha vindo. Não faltou da companhia quem dissesse aos moradores que fugissem enquanto tinham tempo, porque os vinham matar, e eles por verem que em nenhuma causa estavam culpados, não fizeram caso do aviso por seu mal.
Os episódios sangrentos são diferentemente narrados pelos antigos cronistas. Segundo frei Manuel Calado, chegados os trinta e nove católicos junto à porta da capela, os holandeses dispuseram os seus soldados e indígenas formando uma ala, tendo então determinado aos portugueses que se metessem no meio da mesma para lhes fazerem uma prática. Arrancando de suas espadas, os soldados e índios mataram todos os portugueses, inclusive o capelão, “executando em seus corpos nunca vistas crueldades”.
Frei Raphael nos dá uma outra versão: segundo ele, os que entraram no tem- plo encostaram às paredes do pórtico os bordões que lhes serviam de armas (as únicas que lhes eram permitidas pelos holandeses). Logo em seguida vestiu-se o sacerdote, pôs-se no altar, principiou a celebração da missa e chegada a hora da elevação da hóstia, «se fizeram os índios senhores da porta do templo». Reconhecendo os portugueses que haviam caído em uma cilada, trataram de pedir perdão de seus pecados ao céu, tendo sido todos eles mortos. Alguns portugueses que se achavam nas casas do engenho, saíram à luta com os assassinos, valendo-se de punhadas e dentadas, vendendo caro suas vidas!
Diogo Lopes Santiago descreve que estando os portugueses reunidos, uns dentro da capela e outros na casa do senhor do engenho, mandou Rabbi cercar aqueles imóveis. Compreenderam então os portugueses a cilada que lhes fora armada, contra a qual não teriam meios de se defender, pois o inimigo lhes havia tomado os bastões. «Entre mortais ânsias se confessaram ao sumo sacerdote Jesus Cristo Nosso Senhor, pedindo-lhes cada qual, com grande contrição perdão de suas culpas”. Ainda, segundo Santiago, na ocasião Rabbi deu o sinal convencionado aos seus comandados, passando estes a matar cruel e atrozmente os que se encontravam na capela.
Ainda, segundo a narrativa de Diogo Lopes Santiago, os assassinos subiram pela escada da casa-grande de Gonçalo de Oliveira,» e fizeram pedaços os que na casa acharam, escapando somente três por cima dos telhados, ficando mortos alguns sessenta e nove».
Informa Nieuhof, terem sido mortas em Cunhaú 36 pessoas. Esse autor também faz menção a uma carta do Sr. de Linge, datada de 19 de julho de 1645, dando notícia de que os tapuias do Rio Grande haviam massacrado em 16 do mesmo mês, trinta e cinco portugueses, nos engenhos de Cunhaú. Na carta, Linge solicitava reforços para controlar os tapuias, tentando assim afastá-los da população portuguesa. Mais adiante, no dito relato, Nieuhof aponta como vitimados pelos tapuias, trinta e sete portugueses desarmados, “sem que os holandeses das redondezas conseguissem impedi-lo”.
Mbreau, ao descrever a chacina do Engenho Cunhaú, esclarece que os tapuias vindos com Rabbi atingiam o número de quinhentos indivíduos. Na ocasião teriam sido mortas entre sessenta a oitenta pessoas, cujos cadáveres foram devorados pelos tapuias! “Assim que os senhores do Conselho tiveram conhecimento desta incursão fizeram embarcar prontamente oitenta soldados para pôr termo a essa situação; aqueles, porém, obrigaram-nos a retirar para a Paraíba”.
André Vidal de Negreiros enviou ao Supremo Conselho Holandês do Recife, uma carta escrita no dia 19 de agosto de 1645 no Engenho São João Batista de Varge, protestando contra o massacre ocorrido no Engenho Cunhaú: «já na lamentação dos moradores do rio Grande, cujos quarenta do mais nobres um simulado chamamento a uma igreja despedaçou a sangue frio, com um clérigo sacerdote de missa.
Trataremos agora de alguns episódios relacionados com o trucidamento do capelão de Cunhaú, padre André de Soveral, baseando-nos nos relatos de Fr. Raphael de Jesus e de Diogo Lopes Santiago. Ambos afirmam que o padre Soveral contava 90 anos de idade, por ocasião de sua morte. Informações prestadas pelo padre Serafim Leite, ao historiador Hélio Galvão, indicam que aquele mártir de Cunhaú, ex-integrante da Companhia de Jesus, nascera por volta de 1572, tendo setenta e três anos à época do seu martírio.
Segundo Lopes Santiago, um principal dos tapuias chamado Jererera, filho do “rei” Janduí, foi o primeiro a iniciar o massacre, e também a ferir o padre André de Soveral com um golpe de adaga. Por ocasião da chacina, o padre exortava os fiéis a bem morrer, “rezando apressadamente o ofício da agonia”.
Na ânsia da morte, o padre ameaçou os tapuias, asseverando-lhes que aquele que o matasse, haveria de secar e morrer. Frei Raphael dá uma versão semelhante: o padre ameaçou os indígenas, afirmando-lhes que aquele que o tocasse, ou às imagens e paramentos do altar, «lhe ficaria tolhida a parte com que o fizesse».
Ante a ameaça, os tapuias se afastaram reverentes; porém os potiguares acabaram de tirar a vida ao sacerdote. Segundo os referidos relatos, os indígenas participantes da chacina do padre Soveral tiveram os seus braços pasmados e insensíveis, tendo-lhes secado os membros. Os indígenas terminaram suas vidas vitimados pela raiva, despedaçando os membros atrofiados com os próprios dentes!
Lopes Santiago também dá conta de que o Pe. Soveral ao cambalear, depois de ferido, encostou-se à porta da capela, onde colocou uma das mãos. Dois ou três meses depois do episódio, via-se «na porta da igreja uma estampa de mão, que afirmaram ser do padre Soveral, que indo para cair, encostando-se, pôs na porta da igreja, que naquele tempo estava o sangue fresco, e vivo».
Frei Raphael de Jesus dá a sua versão: segundo ele, “permitiu Deus, que na dureza das portas da igreja, como em branda cera, ficassem impressas as mãos do sacerdote, buscando com elas arrimo nos últimos alentos da vida».
Os dois cronistas fazem também menção ao fato de que, dois ou três meses depois da chacina, o sangue derramado pelas vítimas, na capela e seu adro, estava” tão vivo e fresco como se naquela hora fora derramado›…
Além do padre Soveral, um único nome ficou registrado dentre as vítimas de Cunhaú: o de Domingos Carvalho, sobre cujo cadáver os bárbaros repartiram entre si uma cadeia e algumas moedas de ouro retiradas do defunto.
Em represália ao massacre ocorrido em Cunhaú, o governador João Fernandes Vieira determinou uma exemplar vingança, tendo enviado tropas a Cunhaú e ao Rio Grande, a fazer dano aos flamengos e índios pela campanha.
A chacina do Engenho Cunhaú promoveu uma tomada de consciência, por parte da população portuguesa, fazendo-a empenhar-se, com redobrado vigor, à tarefa de combater e expulsar os dominadores flamengos.
Texto: Olavo de Medeiros Filho
Olavo de Medeiros Filho (1934 – 2005) foi historiador, sócio efetivo e diretor da Biblioteca, Museu e Arquivo do Instituto Histórico e Geográfico do Rio Grande do Norte. Autor de diversos livros, escreveu Os Holandeses na Capitania do Rio Grande (1998), do qual se extrai este capítulo.
Com informações: Revista nº XCV – ANO 2017 – Instituto Histórico e Geográfico do Rio Grande do Norte – IHGRN.
Uma resposta
Bela história de conhecimento gerais que muitos não sabia 👊