Foto: Canindé Soares
COM AS BÊNÇÃOS DOS REIS MAGOS
A Fortaleza dos Santos Reis – também conhecida como Forte dos Reis Magos -, situada na barra do rio Potengi, tem a forma de um polígono estrelado. Vista do alto, faz lembrar a estrela de Belém…
Dizer que esse monumento histórico e arquitetônico é uma relíquia seria abusar do lugar-comum. Mas, é o que é: relíquia. Todo natalense deveria visita-lo, pelo menos uma vez, buscando conhecer sua história, sua legenda. Natal nasceu ali, quase aos pés das muralhas gigantescas, sob o signo da estrela.
Concedida a João de Barros (célebre historiador, autor das “Décadas”), a Capitania do Rio Grande, todas as tentativas de colonização falharam devido a reação hostil dos índios, habitantes da região, em aliança com piratas franceses. Foi preciso que El Rey Filipe II, da Espanha, então acumulando a coroa portuguesa, mandasse integrar efetivamente aquelas terras aos seus domínios. Organizou-se, portanto, grande expedição, vindo parte em 7 navios e 6 caravelões, e parte por terra, esta, aliás, sem atingir o destino, dizimada pela varíola.
No dia 25 de dezembro de 1597, a armada adentrou a barra do Potengi (então denominado Rio Grande), sob o comando de Manuel Mascarenhas Homem, Capitão-Mor de Pernambuco.
Para defesa da terra reconquistada, tratou-se de construir sobre uns arrecifes, a 750 metros da barra do rio, um forte, que se chamou “dos Reis Magos”, em honra dos santos do dia em que se iniciou a construção – 6 de janeiro de 1598. Foi autor da planta o padre e arquiteto Gaspar de Samperes, da Companhia de Jesus.
Mascarenhas Homem, regressando à sua Capitania, deixou o forte e a Capitania do Rio Grande entregues a João Rodrigues Colaço, Capitão-Mor nomeado pelo Governador Geral do Brasil, Dom Francisco de Souza. Algum tempo depois, Jerônimo de Albuquerque, figura saliente na expedição, mameluco, que muito contribuiu para as pazes com os índios, sucedeu a Rodrigues Colaço.
Começava a História da fortaleza, na qual podemos distinguir quatro fases distintas:
1a) da construção, que vai de 1598 a 1630, “quando está concluída e nada falta” (Adriano Verdonck);
2a) domínio holandês dezembro de 1633 a fevereiro de 1654 (chamava-se, então, Kasteel Keulen, em homenagem a Matias van Keulen, um dos diretores da Companhia e participante da expedição conquistadora);
3a) da reocupação portuguesa até a desmilitarização, em maio de 1907;
4a) de 1907 ao presente, quando se tornou monumento histórico e atração turística.
Em começos de dezembro de 1633, o Forte resistiu bravamente ao grande ataque dos holandeses. Oitenta homens cercados por oitocentos.
O Capitão-Mor Pero Mendes de Gouveia portou-se heroicamente. Às exortações do inimigo para que se rendesse, respondeu com estas palavras, dignas do bronze:
Este Forte foi confiado à minha guarda por S. M. Católica, e só a ela ou a alguém de sua ordem o posso entregar e a mais ninguém, preferindo perder mil vidas a fazê-lo, e do mesmo espírito se acham animados todos os meus companheiros, achando-nos bem providos de todo o necessário.
Ferido, desacordado, tomaram-lhe as chaves da fortaleza e trataram da rendição. Câmara Cascudo conta, em forma romanceada, os sugestivos episódios, em um dos capítulos do seu livro “Histórias que o Tempo Leva…” (1924).
Tantos outros grandes momentos viveu o Forte! Em abril de 1817, André de Albuquerque, o rico senhor de Cunhaú, chefe de malograda Revolução, era preso, e jogado no quarto escuro, pelo crime de haver desejado a emancipação do seu povo. Ferido estupidamente, por um dos que e foram prender, agonizou na masmorra infecta, por muito tempo, sem cuidados médicos ou sequer um curativo. Quando pediu um travesseiro, deram-lhe uma pedra.
-“Devia ser o travesseiro do pedreiro-livre”.
Vida, paixão e morte de André de Albuquerque valem romance histórico da maior força dramática. Não devemos encarar a importância do Forte apenas do ponto de vista da História norte-rio-grandense. Sem o “Reis Magos” não teria sido possível a conquista do Norte – Ceará, Maranhão e Pará. Serviu de trampolim, tal como, séculos depois, a Base Aérea de Parnamirim na Segunda Guerra Mundial.
Sobre o seu papel, por este prisma. Diz Câmara Cascudo. (História do Rio Grande do Norte, 1955):
“Era também abrigo e alentadora inicial (…). De sua guarnição partiu Martim Soares Moreno, em 1611, para a conquista do Ceará, o fundador da Fortaleza. Derredor de suas muralhas passam, reunidos, os homens que vão dissipar, reunidos, os homens que vão dissipar a França Equinocial, na jornada milagrosa. O criador da Cidade do Presépio de Belém do Pará, Francisco Caldeira Castelo Branco, é um seu Capitão-Mor. Como de uma colméia partem as abelhas-rainhas, fundadoras de raças”.
Com Informações: Livro O Diabo na Guerra Holandesa – Manoel Onofre Jr.

Uma resposta
Tava faltando o blogue com essa riqueza de conhecimento e de história do nosso RN, e da nossa Capital Natal parabéns cobrar!!!