O vapor “Pirapama” a primeiro de março de 1889, deixou em Natal o décimo terceiro norte-rio-grandense formado em Medicina pela Faculdade da Bahia, Manoel Segundo Vanderlei.
Doutorado em 1886, com a tese “Febres Perniciosas”, Segundo seguia a profissão do pai, Luis Carlos Lins Vanderlei, o primeiro filho do Rio Grande do Norte que usou a esmeralda no fura-bolo.
Voltava casado e conhecido como poeta, livros publicados e aplausos públicos na cidade do Salvador. Tinha vinte e nove anos.
Em sua terra natal Segundo foi Inspetor de Saúde, professor no Atheneu Norte-rio-grandense, deputado estadual.
Publicou, outros livros e dramas. Foi o maior poeta do seu tempo. Ninguém escapou a sua influência insensível e poderosa. Modesto, recatado, escondido, emocionável, despertou entusiasmos tempestuosos.
Nas festas cívicas, Segundo Vanderlei declamava arrebatando a multidão. Depois, fugia depressa, para furtar-se aos abraços e aos parabéns.
Quando encenaram “Natal em Camisa”, a primeira revista de costumes, todo teatro Carlos Gomes vibrava numa salva de palmas que durara minutos, exigindo, aos berros, a presença do autor, no palco. Governador, almirante comandante da Divisão Branca, oficiais, gente rica e pobre, gritava, consagrando o poeta.
Atores e atrizes agarraram Segundo Vanderlei na porta traseira do edifício, por onde ia desaparecendo, e arrastaram-no para o palco, onde foi longamente vitoriado. Cercado pelo elenco da Companhia que representava sua revista, Segundo agradecia, agradecia, dizendo, baixinho: isto não é coisa que se faça!
Seus versos, da escola condoreira, sob as égides de Vítor Hugo em geral e de Castro Alves em particular, voaram por todo Brasil. Qual foi o cantor que não entoou, ao violão “O Poeta e a Fidalga”?
À fidalguia o que pesa?
O teu orgulho, o qu’importa?
Si o ouro me fecha a porta,
A glória me estende a mão;
Eu antes quero ser filho
Das musas, da natureza,
Que ter por mãe – a riqueza,
Que ter por pai – um brasão!
E “Um Sonho”, número indispensável em todas as serenatas de outrora?
Na hora em que as vagas nos mares desmaiam.
E aves dormitam no verde pomar,
E as selvas se cobrem de gotas de luzes
De mil vagalumes que brincam no ar;
E o verso que fazia o povo delirar?
Republicanos, é tempo
De confirmar nossa fé,
Quem for covarde que fuja,
Os bravos ficam de pé!
Façamos dos nossos peitos
Arquivos p’ra nossos feitos,
Das consciências, altar;
Do bem na luta serena
Seja o canhão nossa pena,
Seja o quartel nosso lar!
Não é possível esquecê-lo. Esta é a hora em que a voz de Segundo Vanderlei voltará, sonora e viva, aos nossos ouvidos…
A República, 21 de março de 1943.
Com informações e imagens extraídas do livro Actas Diurnas – Crônicas de Luís da Câmara Cascudo.
Foto da capa: Acervo Luduvicus – Instituto Câmara Cascudo.
Pesquisa e Edição: Ricardo Tersuliano – Historiador Independente –e-mail: ricardotersuliano@yahoo.com.br – Colaborador do Blog do Cobra
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