O Cinema na Ribeira

Ana Tersuliano
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27/06/2024 às
21:28

    

    Corria o ano de 1898. Natal era uma cidadezinha calma, com alguns rompantes de progresso. Se havia o costume boêmio das serenatas à luz da lua, no entanto, às 5 horas da tarde apitava encerrando o dia de atividades a Fábrica de Tecidos de Juvino Barreto, industrial que trouxera pela primeira vez luz elétrica à cidade, em 1892. A Fábrica de Tecidos era na Ribeira, centro comercial e social da capital norte-rio-grandense de então.

    Neste ano de 1898, pela primeira vez se viu cinema em Natal. E o local desta primeira projeção de fitas cinematográficas foi a Ribeira, é claro, mais precisamente, à Rua do Comércio (depois, Rua Chile), num depósito de açúcar, onde também eram apresentados os espetáculos do Teatrinho da Fênix Dramática Natalense. Quem trouxe os primeiros filmes a Natal foi Nicolau Maria Parente, inaugurando as exibições à noite do sábado, 16 de abril de 1898.

    Os primeiros filmes vistos em Natal foram documentários ou de fatos do noticiário histórico (“Jubileu da Rainha Vitória” e “O Casamento do Príncipe de Nápoles”), ou de pequenas cenas do cotidiano das pessoas (“Banhos da Alvorada”, “A Chegada em Gôndola”, “A Comida aos Pombos na Praça de São Marcos”), ou, enfim, dos aspectos urbanos (“A Catedral de Milão”, “O Panorama de Veneza”, “A Chegada do Trem”).

    Foi também na Ribeira que existiram as nossas primeiras salas de exibição cinematográfica específica. A pioneira foi o “Cinema Natal”, inaugurado em 21 de agosto de 1909, por iniciativa de uma empresa conhecida como Juvenal & Cia. Mas não tinha prédio próprio. O “Cinema Natal” funcionava no recinto do então Theatro Carlos Gomes (hoje, Teatro Alberto Maranhão).

    Em 1911 – quando foi criada a Companhia Força e Luz e surgiram os primeiros bondes elétricos de Natal – foi inaugurado, na Praça Augusto Severo, o primeiro cinema com características para a projeção de filmes. Foi o “Cinema Politeama”, inaugurado na sexta-feira, 08 de dezembro de 1911, por iniciativa da firma Gurgel & Paiva. O Politeama – que fora inaugurado em um prédio no local onde hoje está a firma Limarujo Comércio Limitada – foi palco de muita história e de muitas estórias.

    Dos primeiros filmes trazidos de Paris, da Pathé, até a apresentação do kinetofone – sincronização de som e imagem, pioneirismo sonoro do cinema da Ribeira – em abril de 1916. Por causa dele, se deu o nome “poli” ao picolé que era vendido em sua sala de espera.

    Um fato o marcou em 1933: houve, naquele ano, em seu recinto, uma cena de sangue, quando o capitão Everardo Vasconcelos agrediu João Café Filho (que seria, futuramente, Presidente da República do Brasil) e, entre troca de tiros, Café findou com um ferimento.

    Outros cinemas existiram na Ribeira, sem característica de prédio “oficialmente” cinematográfico. Na Tavares de Lira, também na segunda década do século, existiu um, de propriedade de um francês, onde, toda vez que ia começar a sessão, se colocava para o público ouvir o disco com o hino nacional da França, a Marselhesa.

    Em 1937, foi inaugurado outro prédio “oficialmente” cinematográfico na Ribeira. Foi o “Cine Rival”, inaugurado em 4 de dezembro de 1937, na Rua Frei Miguelinho. Interessante que este cinema causou uma polêmica no início. A empresa Rex, sua proprietária, querendo dar ares democráticos à escolha do nome do novo cinema, abriu concurso pelas páginas do jornal “A República”. O povo deu maioria ao nome “Ritz”. A comissão julgadora, sob a alegação de que “Ritz” não era um nome nacional (como estava especificado nas regras do concurso), escolheu o nome “Regina” (que aliás não é também tão nacional). Devido a um abaixo-assinado de protesto (mais de 40 assinaturas) enviado ao jornal “A República”, a empresa Rex se decidiu pelo nome “Rival”, que ganhara bastante votos no concurso.

    O “Rival” e o “Politeama” duraram até os primeiros anos da década de 1940. Breve, os novos cinemas passaram a ser inaugurados na Cidade Alta (para competirem com o pioneiro “Royal Cinema”, na Rua Ulisses Caldas, existindo desde 1913). As vozes e as imagens da salinha escura calaram e se apagaram para sempre na Ribeira, para ressurgirem hoje bem distantes, na Zona Sul, no Natal Shopping.

(Texto de Anchieta Fernandes, publicado em “O Canguleiro”, ano I, n⁰ 01, julho de 1997.)

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