Ainda bem não clareara o dia, uma pequena embarcação cortava as águas do Potengi, em direção ao forte dos Reis Magos.
O bater cadenciado dos remos chamara a atenção da sentinela que vigiava a fortaleza.
Olhando através da luz que a aurora vinha trazendo às águas do rio, o guarda procurou reconhecer o barco.
Ao avizinhar-se das muralhas, a embarcação rumou para a entrada do forte.
A sentinela deu sinal à guarnição, reconhecendo quem se aproximava. Era o capitão-mor.
Havia poucos dias, Francisco Gomes de Melo assumira o governo da capitania. Por várias vezes, já estivera no forte. Mas aquela visita matinal tinha algo de extraordinário. A presteza com que saltara, o nervosismo com que galgara o parapeito, às feições de quem passara a noite em vigília, tudo denunciava a preocupação do capitão-mor.
Dentro de alguns instantes, a guarnição estava a par dos acontecimentos.
A esquadra de D. Fradique de Toledo havia reconquista-
do a Bahia.
O almirante Hendrichszoon chegara tarde demais para auxiliar os batavos. Não era com 28 navios que iria enfrentar a esquadra de Toledo e os fortes de S. Salvador, já guarnecidos de mais bocas de fogo.
Ante a inutilidade de sua viagem, o almirante holandês resolvera voltar. E velejara para o norte. Avistando Olinda, continuara a rota. Mas era preciso refazer o rancho e a aguada. Convinha, antes de tornar à Europa, fundear em algum porto. Parecera-lhe propícia a baía da Traição. Transpusera a barra e arreara os ferros. Desembarcara com alguns oficiais e marinheiros e procurara logo conquistar a amizade dos naturais.
Marciliano, um dos chefes indígenas da região, oferecera hospedagem aos flamengos e fizera-lhes muitos oferecimentos, não sem primeiro receber presentes e bugigangas.
Hendrichszoon levantara na praia algumas fortificações de emergência e instalara um pequeno hospital para os marujos que haviam adoecido em viagem.
O chefe indígena falara, ao almirante, das vantagens de uma entrada no Rio Grande. Organizara-se uma pequena expedição. Marciliano levara os holandeses ao engenho Cunhaú. De lá, os batavos conduziram para bordo muito gado e 200 caixas de açúcar — auxílio providencial para quem ia atravessar o Atlântico.
Ao anoitecer da véspera daquele dia, chegara a Natal um mensageiro de Matias de Albuquerque, com um aviso para o capitão-mor. Os holandeses estavam nas costas da Paraíba e do Rio Grande e Francisco Gomes devia seguir com as forças de Francisco Coelho, capitão-mor da Paraíba, para repelir os invasores.
Essa a razão por que naquela madrugada o capitão-mor se dirigira ao forte dos Reis Magos. Era preciso que a guarnição da fortaleza estivesse de sobreaviso, olhos fixos no horizonte, na suposição de que a esquadra inimiga poderia surgir de momento diante de Natal.
Sem demora, aprestaram-se os canhões e as colibrinas.
O capitão-mor voltou à cidade. Os habitantes de Natal estavam alarmados com a notícia da invasão.
A cidade fundada por Jerônimo de Albuquerque contava apenas umas trinta casas de barro e palha. Os homens de prol viviam em suas fazendas indo à cidade somente aos domingos para a Missa.
Na tarde daquele dia, os fazendeiros, ao saberem da chegada de um mensageiro de Pernambuco, foram à casa de Francisco Gomes e ofereceram-lhe homens e haveres. Era com eles que o capitão-mor teria de contar, para repelir qualquer invasão. O auxílio dos índios era muito problemático. Em número de mais de setecentos, morando em aldeiamentos dos quais o principal era o de Mipibu, os selvagens eram pouco amigos dos portugueses.
Na madrugada do dia seguinte, Francisco Gomes deixou a cidade.
Quando se aproximaram da costa as forças dos capitães-mores, Hendrichszoon recolheu os marinheiros aos navios e se fez ao mar, velejando para as Antilhas, levando a bordo alguns selvícolas que manifestaram desejos de acompanhar os flamengos.
Chegando à baía da Traição, as tropas nacionais viram ainda, sumindo-se no horizonte, as velas flamengas.
Os portugueses vingaram-se dos índios que hospedaram os batavos. E vingaram-se com crueldade, infligindo aos bugres terríveis castigos pondo a ferros, passando outros a fio de espada. Os que quiseram fugir aos castigos, internaram-se nas matas. Marciliano conseguiu fugir com Janduí e Oqueaçú, principais da tribo.
Semanas depois, chegava a Natal a notícia da retirada dos holandeses. Uma onda de alegria perpassou por todas as almas. Houve tiros de mosquete e salvas de canhão. As casas se iluminaram. Na Matriz, celebrou-se Missa festiva de ação de graças.
A Capitania, livre dos invasores, retornava a sua vida normal. Os homens voltavam aos trabalhos da criação de gado e do cultivo da terra. Nos engenhos de Ferreiro Torto e Cunhaú, recomeçava a moagem da cana de açúcar.
Pesquisa e Edição: Ricardo Tersuliano – Historiador Independente –e-mail: ricardotersuliano@yahoo.com.br – Colaborador do Blog do Cobra
Livro: Os Holandeses no Rio Grande – Paulo Heroncio
Foto: Internet/Reprodução
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