Em meados do século XIX, Natal era uma cidadezinha acanhada, quase uma aldeia. Dizia-se – “Natal? Não há tal”.
A área urbana, propriamente dita, restringia-se ao quadrilátero formado pelas atuais ruas Apodi, Ulisses Caldas, D. Pedro I, a avenida Rio Branco e o rio Potengi. Mas, ao contrário do que se possa pensar, Natal não era uma “cidade morta”. Tinha tradição festeira, até.
As festas populares, de cunho religioso e profano – São João, São Pedro, Natal, Festa da Padroeira – realizavam-se com muito brilhantismo, atraindo, inclusive, grande número de pessoas residentes nos sítios da circunvizinhança. Lapinhas, pastoris, fandangos, bois-calembas e outros autos e folguedos faziam o encanto daqueles tempos. Havia intensa vida boêmia. Quando era noite de luar, faziam-se serenatas, que se prolongavam madrugada a dentro, movidas a bate-bate e vinho quinado. Não faltavam modinheiros e versejadores de circunstância. Nesse meio, deliciosamente provinciano, marcou época uma figura que hoje diríamos fora de série. Chamava-se Lourival Açucena, mas o seu nome de batismo era Joaquim Edvirges de Melo Açucena.
Lourival foi muita coisa na vida – funcionário público, juiz de paz, delegado de polícia, oficial de gabinete do presidente da Província, comandante do destacamento da Guarda Nacional – tudo isto, mas foi sobretudo seresteiro e poeta, e como tal entrou para a História do nosso Estado.
Câmara Cascudo, que reuniu os seus versos em livro póstumo (1927), traçou este perfil:
“Lourival Açucena foi, cerebralmente, do século XVIII. Possuía a ingenuidade inspirativa, a malícia ligeira, a mania mitológica, a superstição do talento improvisador. Seus versos se destinavam ao violão ou ao pedido oficial de alguma coisa. Poetava sob tema, batia a lira no outeiro, aceitava sugestões banalíssimas. Durante sessenta anos, governou as serenatas, as ceias e as festas íntimas de Natal”.
Sua poesia — às vezes lírica, às vezes satírica — filiava-se ao Romantismo, embora revelando tardias influências arcádicas.
De sua veia irônica e gozativa serve de exemplo “A Política”, que “tem música do próprio autor e é uma das mais populares produções de sua lavra”, segundo Ezequiel Wanderley, que a escolheu para a antologia “Poetas do Rio Grande do Norte” (Natal, 1922, 2ª. ed. 1993). Vejamos as estrofes iniciais:
I
Você pergunta, Yayá,
Por que deixei a política?
Você quer saber de tudo,
Você é muito amalítica.
Pois bem, eu lhe digo:
Ouça o que eu refiro
Porque nesse jogo
Já fechei o firo…
Mas, olhe, menina,
Que dos meus arcanos
Não quero que saibam
Gregos nem Troianos
Já ouviu Yayá?
II
Esses arautos políticos,
Quer de uma, quer doutra grei,
Quando estão de baixo gritam:
“Viva o Povo” – “Abaixo o Rei”!
Mas, o sábio Rei,
Que conhece tudo,
Faz que não entende,
Fica surdo e mudo;
E o povo que idea
Não tem dos negócios
Vai crendo nas loas
Dos tais capacócios
Já ouviu Yayá?
III
Prometem ao pobre povo
Um governo angelical,
A terra da promissão,
Um paraíso ideal…
Porém, quando grimpam,
Cessam as cantigas
E tratam somente
De suas barrigas.
E nem mais conhecem
Aquele bom moço
Com quem já viveram
De braço ao pescoço…
Já ouviu Yayá?
Seguem-se cinco estrofes nada apologéticas…
E, por fim:
Hoje, Sancho é muito bom…
Amanhã, Sancho é ruim…
Já fica sendo um demônio
Quem foi ontem serafim.
Eu não os entendo,
Eu não os percebo,
E, nesta enredada,
Se os percebo, cebo!…
Por isto, safei-me,
Sem bulha e arenga,
E livre-me Deus
Da tal estrovenga…
Já ouviu Yayá?
Estes versos – diz Henrique Castriciano – “tornaram-se populares em todo o Brasil e foram transcritos em diversos jornais portugueses do tempo”. (“Lourival e seu Tempo” in “Nosso Amigo Castriciano”, de Câmara Cascudo, Recife, 1965).
Da vertente lírica do irrequieto bardo, destacam-se “Pirraças do Amor”, “Delíquios”, “Marília”, “Eu não sei Pintar Amor”, “Uma Prece”, “Asas de Cão”, “Sabiá”, “Canto do Potiguara” e esta que é também a letra de uma de suas mais famosas modinhas:
A Porangaba
Minha gentil Porangaba
Imagem, visão querida,
Só teu amor me conforta,
Nos agros transes da vida.
Quando ouço a juriti
Soltar saudosa um gemido,
Saudoso, pensando em ti,
Respondo com um ai dorido…
Se, na campina deserta
Temo sabiá gorjeia,
Deste amor, que me inspiraste,
Voraz a chama se ateia.
Quer procure o povoado,
Quer divague na espessura,
Mostra-me a mente abrasada
Tua elegante figura.
Estando de ti ausente,
Da saudade eu sinto a dor,
Serão teus os meus suspiros,
Minha afeição, meu amor.
Da vida o doce prazer
Em mim fenece e se acaba,
Só este amor não falece,
Minha gentil Porangaba!
Além de poeta, Lourival era compositor, músico e cantor, presença infalível não só nas rodas boêmias, nos folguedos folclóricos, mas também nas cerimônias religiosas mais solenes. Ganhou fama de cantor sacro.
Foi também artista dramático. Da sua atuação no teatro de amadores – informa Cascudo – ficou-lhe o sobrenome Lourival. Em 1853, representando o papel do Capitão Lourival, na peça “O Desertor Francês”, saiu-se tão bem que os seus amigos o apelidaram com o nome do personagem.
Outra faceta da sua personalidade invulgar: de 1861 a 1900 colaborou em quase todos os jornais de Natal.
Em 1886, esteve preso por dois meses, na Fortaleza dos Reis Magos, sob acusação de peculato. Amigo íntimo do comandante da fortaleza, cumpria a pena com o maior fair play, sempre rodeado de “ruidosas visitas de íntimos, com cestas de iguarias e bebidas”; tão satisfeito, aliás, que se deixou ficar no “cárcere” por mais quinze dias.
Lourival era um exemplo de vitalidade. Casou-se em 1852 com D. Antônia Cândida de Albuquerque. Em 1865, com D. Flora Carlinda de Vasconcelos. Em 1905, viúvo pela segunda vez, já setuagenário, casou-se com a sua musa, Silvânia, a “gentil Porangaba”, velha companheira. Teve 32 filhos, dos quais dezenove legítimos e treze bastardos. Nasceu em Natal a 17 de outubro de 1827 e faleceu na mesma cidade a 23 de março 1907.
Com informações e imagem livro: Salvados – Livros e Autores Norte-Rio-Grandenses – Manoel Onofre Jr.
Foto: fonte Wikipédia:
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Ana Carolina Tersuliano – Diretora e colaboradora do Blog do Cobra.
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