Escrevemos no discurso de posse na Academia Norte-rio-grandense de Letras:
Se os lazeres podem oferecer oportunidade de cultura, se os intelectuais devem banir toda a presunção, todo o sentimento de superioridade, precisamos crer profundamente na igualdade das pessoas dentro da diversidade de temperamentos e das condições sociais. Por isso, temos de compreender os que, na sua incipiente instrução, têm realmente sensibilidade artística. Entre outros, sobressaem Milton Homem de Siqueira Cavalcanti, Zé Praxedes (zepraxédi), Zé Areia e Moisés Sesiom.
“Saber apreciar ora uma paisagem, ora um quadro, um afresco de mestre e uma imagem de Epinat, uma sinfonia e uma melodia popular, uma poesia e um raciocínio sem falha, um forte pensamento e um belo gesto, aí está o comportamento do homem verdadeiramente culto, a quem nada de humano é indiferente. Cultura é um refinamento de sensibilidade, capaz de captar cada vez melhor e de apreciar com deleite cada vez mais acentuado, todas as coisas e todas as formas de beleza natural ou artificial, sensível ou moral. Enfim, um impulso de vontade no sentido do verdadeiro, do bom e do belo.”
Por essas razões, tentamos apresentar os que fazem letras no seu conforto, no silêncio das bibliotecas, como também os que têm por engajamento apenas a vivência social.
Milton Siqueira, nos Botões de Rosa, Gorgeios do Sertão e Flores e Urzes, bem como nos versos que espalha, em manuscrito, pela cidade, pelas calçadas, faz arte poética bem definida.
Temos lido alguns versos de sua lavra que são verdadeiras obras-primas. E isso sem consulta, sem livros, simplesmente com sua sensibilidade artística.
Zé Praxedes, nos seus cantares avulsos e no Meu Siridó, filia-se às humanidades do povo.
Zé Areia e Moisés Sesiom, no estro fescenino, deliciam o paladar moleque numa poesia mais próxima do picaresco, como diz Oswaldo Lamartine.
Registre-se esta glosa menos escabrosa de Sesiom:
MOTE
“BEBO, FUMO, JOGO E DANÇO
SOU PERDIDO POR MULHER
Vida longa não alcanço
Na orgia ou no prazer,
Mas enquanto não morrer,
BEBO, FUMO, JOGO E DANÇO.
Me censure quem quiser…
Enquanto eu vida tiver,
Cumprindo esta sina venho,
E além dos vícios que tenho,
SOU PERDIDO POR MULHER”.
Foi-nos oferecida, antes de levar esta “Contribuição” ao prelo, uma cópia da antologia de Deífilo Gurgel intitulada – Vinte e dois poetas do Rio Grande do Norte, ainda em preparo. O autor divide a matéria em três partes: poetas tradicionais, poetas de transição e poetas modernos.
Não dispomos de tempo para emitir opinião a respeito dessa classificação. Agradecemos apenas a gentileza da oferta, assinalando que o gesto do poeta Deífilo Gurgel veio enriquecer nosso trabalho com apontamentos biográficos. Além disso, fez-nos lembrar a inclusão, entre os poetas norte-rio-grandenses, de Antônio Pinto de Medeiros, João Bosco de Almeida e Miguel Cirilo.
Com informações livro: Contribuição à História Intelectual do Rio Grande do Norte – João Medeiros Filho.
Pesquisa, edição e notas pedagógicas: Ricardo Tersuliano – Historiador Independente, e-mail: ricardotersuliano.iaphacc@gmail.com – Colaborador do Blog do Cobra.
Fotos: Reprodução/Internet
Notas Pedagógicas:
Estro: em português, refere-se ao período de cio em mamíferos fêmeas, caracterizado pela receptividade sexual e ovulação, possibilitando a reprodução. Além deste sentido biológico, a palavra também é usada em um contexto poético e artístico, significando inspiração, entusiasmo ou engenho artístico.
Fescenino:
1-Literaturadiz-se de ou gênero de versos populares e licenciosos, muito cultivados entre os antigos romanos.
2. que ou o que tem caráter obsceno, licencioso; difamador, libelista, devasso.
Picaresco:
1-próprio de pícaro; burlesco.
2-Diz-se do gênero literário no qual se descreve o comportamento dos pícaros.
Apoie a preservação da nossa história. Anuncie conosco: (84) 99658-8154.
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