Rio da Ponte – Goianinha RN
As lavanderias públicas guardam mais do que tanques, pedras e varais: guardam histórias, saberes e a força silenciosa de gerações de mulheres que, com as próprias mãos, ajudaram a construir o cotidiano de suas famílias e comunidades.
Antes da chegada das máquinas de lavar e da praticidade dos tempos modernos, a lavagem de roupas era um verdadeiro ritual. Às margens dos rios ou nas lavanderias comunitárias, o trabalho começava cedo. As mulheres levavam suas trouxas de roupa na cabeça ou nos braços, muitas vezes caminhando longas distâncias. Ali, encontravam não apenas um espaço de trabalho, mas também de convivência, troca de histórias, conselhos e até de alívio para as durezas da vida.
O processo de lavar roupa era cuidadoso e exigia técnica. Primeiro, molhava-se bem o tecido. Em seguida, vinha o sabão, muitas vezes feito de forma artesanal, com gordura e cinza. A roupa era então esfregada e batida contra pedras ou superfícies de madeira, um gesto firme que ajudava a retirar a sujeira mais pesada. Depois, enxaguava-se na água corrente, repetindo o processo quantas vezes fosse necessário. Na foto abaixo, vemos um tanque com um pequeno banco onde a lavadeira se sentava, além de uma rampa utilizada para esfregar e bater as roupas:

Um dos momentos mais marcantes era o “quarar” a roupa, prática que consistia em estender as peças ao sol, geralmente sobre a relva ou em varais, para que a luz solar ajudasse a clarear os tecidos brancos. O sol era, naquele contexto, um aliado precioso, funcionando como um agente natural de limpeza e branqueamento.
Após secas, algumas peças passavam por outro processo importante: o de engomar. Utilizando goma feita, por exemplo, do amido da mandioca ou do milho, as roupas, especialmente camisas, vestidos e peças sociais, ganhavam firmeza e aparência impecável. Passar a roupa era quase uma arte, exigindo cuidado e precisão, muitas vezes com ferros aquecidos a brasa.
Esse conjunto de práticas, transmitido de geração em geração, representa muito mais do que uma tarefa doméstica: é um verdadeiro patrimônio imaterial, um modo de fazer que revela criatividade, resistência e adaptação às condições de cada época. Valorizar essas práticas é reconhecer a importância cultural e histórica de um saber popular que moldou a vida de tantas famílias brasileiras.
Nesse sentido, iniciativas que resgatam e preservam esses espaços são dignas de reconhecimento. É com grande respeito que se destaca o trabalho da prefeita da cidade de Goianinha, no Rio Grande do Norte, que restaurou uma lavanderia pública no município. Essa ação não apenas recupera um espaço físico, mas devolve à comunidade um símbolo de identidade, memória e pertencimento.

Ao restaurar essa lavanderia, a gestão municipal contribui para que as novas gerações possam conhecer, compreender e valorizar esse modo de fazer tão significativo. Mais do que isso, reafirma o compromisso com a preservação da história local e com o reconhecimento do papel fundamental das mulheres que, com esforço e dignidade, transformaram o ato de lavar roupas em um legado cultural.
Assim, olhar para as lavanderias públicas é também olhar para o passado com respeito e para o futuro com responsabilidade, garantindo que essas histórias não se percam, mas continuem a inspirar e ensinar.
Por fim, registro meus parabéns à prefeita Hosanira Galvão pela sensibilidade e pelo cuidado dedicados às questões patrimoniais do município de Goianinha/RN.
Pesquisa realizada in loco no dia 24/03/2026 pelo historiador Ricardo Tersuliano, fundador e vice-presidente do Instituto IAPHACC (Instituto dos Amigos do Patrimônio Histórico, Artístico, Cultural e da Cidadania do Estado do Rio Grande do Norte).
Texto: Ricardo Tersuliano
Fotos: Acervo Instituto IAPHACC
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Uma resposta
Matéria bem elaborada, com rememoração de um passado não muito distante, em pequenas cidades, antes da chegada da máquina de lavar roupa. É muito importante a juventude tomar conhecimento dessa história vivida nos interiores desse nosso Brasil.
Parabéns, Ricardo Tersuliano!
Você é show em publicações maravilhosas da história do RN.
Muito obrigada!