Espreitando as nuvens, sobre os telhados vermelhos, sobe a grande chaminé inútil. Nenhum rolo de fumo anuncia vida fabril. Derredor não há o matraquear dos fusos e o vozerio das operárias. São escritórios e depósitos de algodão. A chaminé não tem justificativa lógica nem razão material. É apenas o pilone de um templo desaparecido, monólito marcando a sepultura de um grande sonho industrial. Tudo se modificou em sua volta. Desapareceram homens, edifícios, programas, ordens, comboios lentos, cantos de recreio, vozes de taboada, sonoridades de órgão. Do seu tempo restam as palmeiras imperiais, desdenhosas e lindas, movendo os altos flabelos ao vento morno da tarde.
Essa chaminé emergindo do casario indiferente, é um monumento a Juvino Barreto.
Juvino Barreto, seu Juvino, Cavaleiro da Imperial Ordem da Rosa, pelos seus serviços à causa abolicionista, sócio do Clube do Cupim, oficial da Guarda Nacional, foi o nosso industrial, o planejador vitorioso que sentou em Natal a primeira Lowel. Nascera em Aliança, Pernambuco a 2 de fevereiro de 1847, filho de Leonardo César Paes Barreto, insurgente da Rebelião Praieira, republicano de 1848. Em 1859, seu Juvino batia o interior do Rio Grande do Norte, comprando em Guarapes e vendendo no sertão. Casou em Macaíba com Dona Inês Augusta, filha do velho Amaro Barreto. Voltou à Recife, com o irmão Júlio, dirigindo a firma Júlio & Irmão. No Rio Grande do Norte duas leis, 732, de 9/8/1875, e 773, de 9/12/1876, protegiam a criação duma Fábrica de Fiação e Tecidos. Juvino sonhou fundar o aproveitamento mecânico das safras que desciam em costa-de-animal. Dispôs de 8.000 metros quadrados no começo da Rua a Cruz. Foi para a Inglaterra tentar. Comprou hipotecando para pagar com os rendimentos, trazendo técnicos, as máquinas mais modernas da época. Eram de Platt Brothers & co, de Oldham, com 48 teares, 1.600 fusos, nove cardas, com um motor de 60 H. P. fabricando quatro tipos de tecidos grossos. A 24 de maio de 1886 lançou a primeira pedra, presidida a cerimônia pelo Presidente da Província José Moreira Alves da Silva. Inaugurou a Fábrica Natal a 21 de julho de 1888, com a presença de Antônio Francisco Pereira de Carvalho, Presidente do Rio Grande do Norte. Respondendo aos discursos, seu Juvino disse: meus Senhores – o meu maior prazer não é ter conseguido montar esta pequena fábrica: o que me alegra e o que com toda a certeza vos merecerá maior atenção, é ver o grande, o sublime quadro que está à vossa vista: são os oitenta operários, filhos desta Província, abrigados no trabalho. Contemplai-os. Eles podem dizer – temos certo ganhar dignamente para toda nossa vida o pão para nós e para os nossos filhos.
Nunca se ouvira essa opinião. Juvino juntou à fábrica a escola, a capela, a banda de música, a assistência médica total, aos operários. Daria a vila aos seus companheiros. Era um admirador da obra social e cristă de Carlos Alberto de Menezes, o apóstolo industrial de Camaragibe. A Fábrica de Tecidos com Mascarenhas, Pedro Barbosa, chamado Pedro-faz-Tudo com o apito- -sem-fim, faz parte da tradição e do orgulho da terra.
Pequeno, forte, moreno, barba cerrada, sempre casimira, com um revólver metido entre a calça e o colete, revólver que jamais disparou, seu Juvino dirigiu meio mundo e deixou mais saudades que amigos. Dava, naquele tempo 200$ de esmolas por semana. Quando o batalhão seguiu para Canudos, seu Juvino fez falação. Em vez de citar Esparta e Atenas, disse que podia marchar tranquilos porque ele garantia, enquanto existisse um níquel no seu cofre, as famílias dos soldados não teriam fome. E cumpriu. De sua força de vontade há exemplo vivo. Deixou de fumar para dar à Conferência de São Vicente de Paulo quando gastava com cigarros. Sua barba cerrada tem uma história. Amigo fervoroso de Dom Frei Vital, ele e o mano Júlio usavam barba suíça, o queixo raspado. Um jornal Maçon, pilheriando, avisou que parecendo um irmão com o outro, apanharia Juvino a sova destinada ao Júlio. Seu Juvino publicou uma nota dizendo que, para diferenciar os dois Paes Barretos, teria ele barba cerrada. E ficou usando. Aquele rude e arrebatado homem, rilhando os dentes como se quisesse limar, possuía um dos maiores corações da terra, tendo a caridade recatada, o auxílio misterioso, os milagres da mão direita ignorar as dádivas da mão esquerda. Quando morreu, por sua ordem, foram dados 10.000$ para cada fundação que ele desejava ver em Natal. Um colégio de meninos. Saiu o Colégio Santo Antônio. Um colégio de meninas. Nasceu o Colégio da Conceição. Um hospital. Surgiu o que possui, por algum tempo, seu nome.
Ao lado de Pedro Velho, mobilizando recursos financeiros, foi expressão salientíssima de reação e de confiança. Morreu a 9 de abril de 1901. Com um carcioma no mesenterio, sofreu impassível todas as agonias, olhando, pela janela do palacete, hoje Colégio Salesiano, a Ribeira que ele ajudara a transformar.
Seu Juvino, Pai dos Pobres… malcriado e bom, resta de sua obra a grande chaminé inútil, torre de pedra, assinalando túmulo do gigante.
A República, 30 de janeiro de 1940
Com informações e imagens do livro: Actas Diurnas – Crônicas de Luís da Câmara Cascudo.
Foto da capa: Acervo Luduvicus – Instituto Câmara Cascudo.
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Colaboração: Aladim Potiguar – Blog do Cobra.
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Uma resposta
Como O Mestre Cascudo escrevia bem!!!