Junqueira Aires

Equipe de Redação do Blog do Cobra
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15/04/2025 às
08:36

A principal via de acesso entre a Cidade Alta e a Ribeira, da Praça Sete de Setembro à praça Augusto Severo, é a Avenida Junqueira Aires. Permitam que recorde Luiz Francisco Junqueira Aires de Almeida, baiano, engenheiro pela Politécnica do Rio de Janeiro, várias vezes deputado provincial em sua terra e deputado-geral na vigésima legislatura, aos vinte e seis anos.

Quando Floriano Peixoto começou a governar, retirou-o de Minas Gerais, onde trabalhava e mandou-o fiscalizar a Estrada de Ferro Natal a Nova Cruz. O Governador do Rio Grande do Norte era Pedro Velho, colega de Junqueira Aires no Colégio Abílio. Amicíssimos.

Era o Dr. Junqueirinha uma criatura pequenina, agitada, olhos brilhantes, testa ampla e uma barba a andó. Ninguém o conhecia. Morava longe da cidade, retraído, lendo muito.

Num banquete oferecido a Pedro Velho, depois dos oradores da terra, Junqueira Aires discursou. Falou duas horas. Os assistentes ficaram delirantes.

Daí em diante Junqueirinha falava em todas as festas cinco, dez vezes. Era prodigioso, inesgotável, original. Bradava quatro horas sem beber uma gota d’água, sem pigarrear mudar o timbre da voz. Seu vocabulário, a rapidez fulminante da dicção, o gesto, a rutilância das imagens, sagraram no tribuno incontestado.

Constituía o orgulho do Partido. Aquele pássaro estava; prisioneiro para cantar. Pedro Velho prendeu-o na gaiola de ouro de uma legislatura.

Eleito deputado federal para 1894-96, manteve na Câmara todos os créditos empolgantes, irresistíveis e superiores de uma eloquência poderosa. Dizia duzentas e doze palavras por minuto, informa-me o Dr. Eloy de Souza. Memória milagrosa. Possuía todos a recursos, todas as graças, sabendo as empregar com incrível oportunidade.

Lauro Müller, na Comissão de Finanças, deu parecer contra um projeto de Junqueirinha que pedia verba para a pequena açudagem. Junqueirinha foi à tribuna. Lauro Müller, ao terminar, declarava: esse discurso vale dez vezes a quantia pedida. Não a podemos recusar.

E a quantia foi votada.

Defendeu o almirante Elisiário Barbosa de tal forma que “O PAIS” se felicitava de haver, atacando o almirante, provocado tão convincente e perfeita defesa.

Falou, muitos dias, contra o adiamento do Congresso, que Floriano pleiteava. Venceu os mais famosos adversários. Belisário de Souza, orador aclamado, dizia, depois: Junqueirinha foi a palavra mais brilhante que já ouvi. Tenho a honra de tê-lo combatido, mas, sinceramente, não lhe respondi..

Hermenegildo de Morais, deputado por Goiás, era inimigo de discurso comprido. Tribuno passando de uma hora não o apanhava presente. Numa sessão vendo Junqueira assomar na tribuna, permitiu-se ao luxo de escutá-lo por quinze minutos. Era justamente num dia de compromisso eminentemente inadiável e personalíssimo. Junqueirinha falou: Hermenegildo ouviu-o três horas inteiras, levantando-se e sentando-se sem coragem de abandonar o recinto.

Junqueira era encantador de simplicidade, de comunicação afetuosa. Sonhava com uma estrada de ferro de Macau às margens de S. Francisco. Aliciara senadores e deputados em número avultado.

Adoecendo, veio para Natal. Com febre alta, sem poder alimentar-se, ainda saudou Pedro Velho num improviso magnífico. Quatro dias depois, melhorando, repetiu-o; integralmente.

Sentindo-se piorar viajou para Recife. Perto da agonia, mandou chamar o seu velho amigo Dom Manuel dos Santos Pereira, Bispo de Olinda, confessando-se.

Pedro Velho não o abandonou um minuto.

Num quarto do “Hotel Americano”, no Recife, a 10 de maio de 1896, Junqueira Aires fechou, para sempre, os olhos. Tinha trinta e seis anos de idade.

A República, 05 de abril de 1942.

Com informações e imagens do livro: Actas Diurnas – Crônicas de Luís da Câmara Cascudo.

Foto da capa: Acervo Luduvicus – Instituto Câmara Cascudo.

Colaboração: Aladim Potiguar – Blog do Cobra.

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