José Cortez Pereira de Araújo

Ana Tersuliano
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05/08/2025 às
07:49

(15/03/1971 – 15/03/1975)

Para uns, era um visionário. Para outros, um sonhador. Para os pragmáticos, um utopista. O certo é que o governador Cortez Pereira* procurou governar o Rio Grande do Norte fugindo do tradicional feijão-com-arroz, buscando novas alternativas, pensando alto mas com os pés no chão. Ele queria passar ao seu sucessor um Estado viável e não pobre e sem esperanças. Um Estado cujo governador nunca fosse aconselhado simplesmente a criar bode.

Foram concebidos e implantados projetos como Vilas-rurais, Boqueirão, Bicho-da-seda e Camarão, além da frota mecanizada de centenas de tratores, todos com finalidade de jogar o Rio Grande do Norte para cima, sem contar a fábrica de barrilha, que lhe custou trabalho, suor e lágrimas. Fez um governo moderno, sofreu uma oposição sistemática, plantou os alicerces do desenvolvimento do Rio Grande do Norte, mas, após concluir o mandato, foi cassado pela mesma “revolução” que o tinha feito governador.

Desafio

Esplanada dos Ministérios, gabinete do ministro da Indústria e Comércio. Três homens conversam sobre assuntos econômicos e, de repente, surge o diálogo curto, grosseiro e inesperado:
– Governador, a vocação do Rio Grande do Norte é para criar bode e não produzir barrilha. A fábrica será implantada em Sergipe.
– Ministro, eu pensava que a revolução tinha sido feita para que os problemas nacionais fossem tratados com seriedade, mas estou vendo que não. Trago uma proposta concreta do meu Estado, e o senhor vem me sugerir criar bode?

O ministro Pratini de Morais reconhece que tinha dado um fora e, procurando amenizar a situação, disse: “Governador, me dê o projeto e lhe garanto que será analisado com toda isenção”. Poucos meses depois a fábrica de barrilha era destinada a Macau e, se estivesse funcionando, o Rio Grande do Norte seria hoje, sem favor nenhum, um dos mais promissores Estados do Nordeste. Os personagens do diálogo eram o ministro Pratini de Morais, o governador Cortez Pereira** e o deputado federal Antônio Florêncio de Queiroz.

Vazio

Enfrentou, com a família, tempos de escassez. De poucos amigos, a solidariedade. A casa, antes cheia de gente por todas as salas, ficou quase vazia. Poucos amigos. E, no silêncio do casarão vazio, Cortez Pereira perdoava as injustiças, alimentado pela esperança de que tinha plantado uma semente que um dia germinaria. Se não deu os frutos desejados, foi por questões políticas e econômicas, mas seus projetos ainda hoje são lembrados e estão presentes na consciência do povo do Rio Grande do Norte

O poder foi cruel com Cortez. Tingiu seus cabelos de branco, enrugou seu rosto, abriu chagas em sua alma, onde ainda restam sequelas visíveis. Foi o único governador do Estado que debateu com a oposição no plenário da Assembleia Legislativa e colocou todos os acusadores contra a parede. Voz firme, dicção perfeita, raciocínio ágil, sua palavra tinha a rapidez do vento e doía nos adversários como uma chicotada.

Parlamentar

Foi líder do governo Dinarte Mariz na Assembleia Legislativa e um dos principais oposicionistas ao governo Aluízio Alves, portando-se sempre como um deputado combativo e orador de recursos extraordinários. Foi suplente do senador Dinarte Mariz, tendo assumido o Senado com passagem brilhante. Antes de chegar ao governo, foi diretor do Banco do Nordeste, onde se destacou por sua capacidade. Numa conferência em Recife, impressionou a jovem oficialidade do IV Exército, o que representou um passo decisivo para sua escolha, quando o ex-senador Dix-huit Rosado estava quase sacramentado como governador.

Recrutou o que de melhor tinha o Rio Grande do Norte em qualificação profissional, com quase todos os secretários e técnicos oriundos da UFRN. A vantagem do governador eleito indiretamente é que tem poucos compromissos com a classe política. Pode recrutar os melhores sem a obrigatoriedade de perguntar em quem votaram. Assim fez Cortez. Cometeu erros em seu governo, é claro, mas os acertos foram bem maiores. Sonhou com um novo Rio Grande do Norte.

Seus cabelos brancos sofreram o desgaste do tempo. Foi condenado pelo crime de condescendência, mas obteve “sursis”. Apelou ao Tribunal de Justiça e foi absolvido das acusações que lhe foram imputadas. O processo conhecido como “caso BDRN” envolvia auxiliares do governo em irregularidades administrativas. Cortez alegou, em sua defesa, que tomou todas as providências contra as denúncias que lhe chegaram ao conhecimento. Continua um defensor intransigente das potencialidades do RN e entra em campo com entusiasmo toda vez que o futuro do Estado está em jogo.

  • Vice-governador: almirante Tertius César Pires de Lima Rebelo.

** Anos depois o empresário Pratini de Morais, atual ministro da Agricultura do governo Fernando Henrique Cardoso, contestou a afirmativa de que teria aconselhado o governador Cortez Pereira a criar bode, a real vocação do RN, como foi divulgado e comentado na época. Porém, segundo um provérbio político mineiro, “o importante não é o fato, mas a versão”.

Com informações: imagens e trechos do livro: Perfil da República no Rio Grande do Norte: 1889-2003, de João Batista Machado.

Pesquisa e Edição: Ricardo Tersuliano – Historiador Independente –e-mail: ricardotersuliano@yahoo.com.br – Colaborador do Blog do Cobra

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