O Primeiro Sobrado em Natal e seu dono

Equipe de Redação do Blog do Cobra
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22/05/2025 às
08:57

O primeiro sobrado em Natal ainda existe. É o de n° 601, na Rua da Conceição. Está modificado ligeiramente no telhado. Amputaram-lhe os finais do beiral em cauda de andorinha, de sabor notadamente colonial. A exigência da platibanda alterou-lhe a fisionomia, marcadamente aristocrática, denunciando solar, ao gosto ainda fidalgo mas já semi-burguês do século XIX. Vive a varandinha, projetando a porta de honra do andar, lembrando a época em que as colchas vistosas, eram estendidas à passagem processional da Padroeira, levada em lenta e oscilante marcha, pelos fiéis de outrora.

O primeiro sobrado foi mandado construir pelo Capitão-Mor José Alexandre Gomes de Melo, senhor de Pitimbu, o mais lindo, o mais desejado, o mais famoso sítio na freguesia de Nossa Senhora d’Apresentação.

Esse Gomes de Melo era filho de Antônio Teixeira da Costa e D. Teresa Antônio de Melo. Casou com D. Joana Evangelista de Vasconcelos. Carlos José de Vasconcelos e D. Josefa Maria Rio Grande do Norte, mariadara com uma outra filha do casal, da Conceição eram sogros do capitão-mor. Gente de bom sangue. Antonio José de Souza Caldas, o fundador dos Souza Caldas no D. Josefa Maria Nazaré.

José Alexandre Gomes de Melo era da primeira linha social. Pertenceu ao Conselho do Governo, sendo um dos seis primeiros Conselheiros, o segundo na ordem da votação, no pleito de 25 de março de 1824. Fez parte igualmente do Conselho Geral da Província, eleito a 18 de novembro de

1828. A apuração, a 2 de fevereiro do ano seguinte, na Igreja de Santo Antônio, forneceu-lhe o diploma e sua posse se deu a 30 de novembro de 1830, dia da sessão preparatória. Fez parte e encontrou seu nome presente à última reunião, de 31 de janeiro de 1834, ano em que foi extinto o Conselho Geral da Província pelo art. 1° da Lei de 12 de agosto de 1834 (chamado Ato Adicional), substituído pela Assembleia Legislativa Provincial. O Conselho era um legislativo em ponto mirim.

Gomes de Melo frequentou assiduamente todas as quatro sessões do Conselho, opinando com dignidade e clareza. Era homem inteligente, original e prático, tendo idéias e sabendo-as discutir. Numa sessão, a 3 de fevereiro de 1832, propôs reduzir as férias escolares, que eram de 8 de dezembro a 2 fevereiro, ao curto prazo de dezessete dias, isso é, de 21 de dezembro a 6 de janeiro, por lhe parecer não só desnecessárias, como opostas ao progresso da instrução da mocidade. Discutida a 3, 6 e 9 de fevereiro, foi a proposta adiada a 10. Um seu parecer sobre a Fonte da Bica, onde a população retirava a água para beber, é dos nossos dias, pela lógica e veemência argumentadora.

Votado deputado à legislatura inicial da Assembleia Provincial, 1835-37 (obteve 28 votos), sendo o presidente da mesa eleitoral, instalada na Matriz de Natal, a 10 de novembro de 1834, data do seguinte e sempre 1838-39, positivamente o prestígio.

Grande proprietário em Natal, era senhor do Conselho Geral que lhe alugara uma casa. Pitimbu, invejado pelos Anjos do Céu, dizia do conforto em que vivia o capitão-mor, conhecido depois da primeira década do século XIX por “coronel”.

O sobrado na Rua da Conceição começou a ser feito em 1818 e terminou em 1819 ou 1820. Não há notícia de um outro em tempo anterior. Os da Rua do Comércio são de 1847 e 1850. O casarão de Joaquim Inácio Pereira Senior, também na Rua da Conceição, é muito posterior, assim como o Vaca Amarela, de onde saiu o atual Palácio do Governo.

O velho coronel Manuel Leopoldo Raposo da Câmara, que nasceu em setembro de 1810 e faleceu, com 95 anos feitos, em novembro de 1905, recordava-se, que se levantava de 1818 ou 1819, nos alicerces e paredes emergentes do edifício que se levantava na Rua da Conceição. Até pouco tempo lia-se a data, sobre a moldura da porta. Era sobrado residencial, um luxo para aquele tempo e único em sua espécie, depois da Casa da Câmara que se reunia num piso superior da Cadeia. O sobrado do coronel José Alexandre Gomes de Melo, de onde provêm os Seabra de Melo, era uma das maravilhas na rua nobre e leal Cidade do Natal do Rio Grande do Norte.

A República, 03 de dezembro de 1939.

Com informações e imagens extraídas do livro Actas Diurnas – Crônicas de Luís da Câmara Cascudo.

Foto da capa: Acervo Luduvicus – Instituto Câmara Cascudo.

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Aladim Potiguar, colaborador do Blog do Cobra.

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