(01/01/1924 – 01/01/1928)
Ele caminha a passos lentos, mas firmes, rumo à tribuna da Câmara Federal, onde faria seu último discurso, despedindo-se da casa em que convivera, durante várias legislaturas, com as mais expressivas figuras da vida nacional e na qual era respeitado e acatado por todos.
Num emocionado discurso, aparteado por vários oradores, José Augusto encerra suas palavras com a frase lapidar que atesta a lisura de um homem público honrado e decente: “Olhem minhas mãos. Vejam-nas. São limpas. Não têm manchas de sangue, nem o cheiro de azinhavre dos dinheiros públicos”.
José Augusto Bezerra de Medeiros administrou com equilíbrio o Estado, tendo sido um dos poucos homens públicos do Rio Grande do Norte com dimensão nacional. Foi Juiz de Direito em Caicó, cargo do qual pediu demissão para ingressar na vida pública. Secretário geral do Estado, no segundo governo de Ferreira Chaves, deputado federal em várias legislaturas, senador da República duas vezes, governador do Rio Grande do Norte e, candidato novamente a deputado federal, não conseguiu a sua pretendida última eleição. Foi vítima de uma “brejeira” (violação de urnas) nos idos de 50 e encerrou sua vida pública, tendo renunciado até à primeira suplência. Deixou a política desiludido e decepcionado.
Conservador
José Augusto, como era mais conhecido, fazia o gênero do político conversador e vivia sempre de bom humor. Costumava frequentar o Café “Cova da Onça”, na Ribeira, para um bate-papo com os amigos e correligionários. Era afável com todos. Um excelente “papo”.
Quando a ditadura de 37 fechou o Congresso Nacional, o velho político caicoense, sem recursos, foi vender seguros de uma corretora para poder sustentar sua família. E o fez com a mesma competência de quem exercia um mandato popular.
Foi fundador do Partido Popular no Rio Grande do Norte em 1933 e da UDN em 1945, na fase de redemocratização do País. Pelo novo partido, foram eleitos deputado federal apenas ele e Aluízio Alves. Foi uma das mais respeitáveis figuras da vida pública do Estado. Sucedeu a Antônio de Souza e foi sucedido por Juvenal Lamartine.
Nome
Hoje, empresta seu nome à sede do Poder Legislativo, que tem a denominação palácio “José Augusto,” numa homenagem ao homem que sempre soube honrar os mandatos que lhe foram outorgados pelo povo.
O ex-governador Aluízio Alves homenageou o velho político, dando-lhe o nome à fundação estadual que cuida da cultura do Rio Grande do Norte. As duas homenagens são fruto do reconhecimento do Estado a um dos seus filhos mais ilustres.
Na campanha sucessória de 1960, já doente e quase cego, José Augusto lançou um manifesto ao povo do Rio Grande do Norte apoiando o nome de Aluízio Alves para governador. Foi o último gesto político, de quem antes deixara a política decepcionado com a “brejeira” de São Paulo do Potengi.
Recompensado
Sentiu-se recompensado com a vitória de Aluízio, a par da melhor receptividade obtida por seu manifesto dentro da UDN. Morreu na certeza de, no último gesto, ter feito a melhor opção para o Rio Grande do Norte. O amor à terra comum levou José Augusto a quebrar o silêncio e fazer do “canto do cisne” sua grande vitória política.
Segundo o jornalista e escritor Nilo Pereira, José Augusto foi, antes de tudo, um grande democrata. Seu governo deu ênfase à educação, construindo escolas, e à cultura algodoeira, reconhecendo sua importância para a economia do Rio Grande do Norte. Chegou a criar o Serviço do Algodão no Estado para incentivar o seu beneficiamento e comercialização.
O fato negativo da sua gestão foi atrasar o pagamento do servidor público por mais de oito meses, deixando essa herança indesejável para o seu sucessor.
José Augusto nasceu em Caicó, em 22/09/1884, e faleceu no Rio de Janeiro, em 28/05/1971.
Vice-Governador: Augusto Leopoldo Raposo da Câmara, pai do futuro interventor do Rio Grande do Norte, Mário Leopoldo Pereira da Câmara (1933 a 1935). Durante seu governo, em 1927, foi instituído o voto feminino, uma iniciativa do senador Juvenal Lamartine.
Com informações, imagens e trechos do livro: Perfil da República no Rio Grande do Norte: 1889-2003, de João Batista Machado.
Aladim Potiguar, colaborador do Blog do Cobra.
Gostou deste conteúdo? Siga-nos no Instagram: @blogdocobra_

Uma resposta
Boa noite doutor cobra grande historiador