De todos os poetas e prosadores da geração dos 60, Berilo Wanderley foi, talvez, o mais exigente consigo mesmo. Daí porque ele pouco deixou em livros, apenas alguns poemas, e estes mesmos renegados (Causavam-lhe pudores, suponho). No entanto, Berilo foi um dos mais brilhantes talentos de sua época. E a prova está em sua produção jornalística ao longo de várias décadas.
Era um cronista do cotidiano, criava ou recriava, em curtas linhas, flagrantes muito humanos, plenos de ironia e humor.
Ninguém, como ele, cultivou no Rio Grande do Norte, com tanta maestria, esse gênero, injustamente esnobado: a crônica. Especialidade de Rubem Braga, Fernando Sabino, Paulo Mendes Campos e outros grandes nomes, aos quais Berilo nada ficava a dever em qualidade literária, somente não tinha a fama, o renome deles.
BW, como às vezes se assinava, colaborou em diversos jornais natalenses e, por último, estava na “Tribuna do Norte”, com a “Revista Cidade” Na coluna diária, apresentava como piéce de resistence a crônica de estilo ágil e leve, seguida de pequenas notas sobre livros novos, cinema (uma de suas paixões) e acontecimentos da cidade. Era daqui que exercia influência salutar sobre a vida cultural. Irreverente, cáustico, não poupava os medíocres, os escritores de fachada e outros tipos acacianos da fauna local. Mandava-lhes farpas certeiras. Fosse quem fosse. Até um Wanderley. Não tinha contemplações.
Sua coragem e honestidade intelectual, agora que ele morreu, vão virar legenda.
Antevejo-o como uma dessas figuras que crescem cada vez mais com o passar do tempo. Quando se reunir e publicar toda a obra do prosador, perceber-se-á o seu destacado lugar nas letras norte-rio-grandenses.
Três livros foram editados, postumamente, contendo seleções de crônicas suas: “O Menino e seu Pai Caçador” (Natal: Editora Clima/Fundação José Augusto, 1980), “Revista da Cidade” (incluindo contos, poemas e fragmentos – Organização de Maria Emília Wanderley, viúva de Berilo) (Natal: Editora Universitária -UFRN, 1994), e “Cine Lembrança” (Org. Maria Emília Wanderley -Natal: Sebo Vermelho Edições, 2004).
Em 1980 publicou-se coletânea em memória do escritor.
Nela, além de depoimentos de intelectuais potiguares, seis poemas e seis crônicas do homenageado. (Natal: Editora Universitária- UFRN).
Todavia, resta muita coisa a ser compilada em coleções de jornais natalenses.
Pertencente a tradicional família potiguar, com presença na literatura e nas artes, Francisco Berilo Pinheiro Wanderley nasceu em Natal, a 21 de abril de 1934.
Estudos primários e secundários em sua cidade natal.
Formado em Direito, pela velha Faculdade da Ribeira (primeira turma), não deu muita importância ao canudo de bacharel, mas, com ele, exerceu o cargo de Promotor Público, “do qual se afastou por incompatibilidade de gênios”, segundo o seu amigo Diógenes da Cunha Lima. Sua verdadeira vocação era a literatura, e a esta permaneceu fiel, por toda a vida – leitor voraz e escritor que parecia não querer se assumir como tal.
Para ganhar o pão de cada dia, ensinou em algumas escolas de Natal, dentre estas a Faculdade de Jornalismo Eloy de Souza. Além de tudo, foi boêmio. Tranquilo, discreto. Um perfeito boêmio.
A morte o levou ainda moço, no dia 20 de julho de 1979.
Bibliografia sobre Berilo Wanderley
DUARTE, Constância Lima – MACEDO, Diva Cunha Pereira de. Literatura do Rio Grande do Norte. Natal: EDUFRN – Editora da UFRN, 1999 – pág. 435 a 440. 2ª ed. Natal: Governo do Estado do RGN, 2001 – pág. 461 a 466.
LIMA, Diógenes da Cunha. Berilo Wanderley in “Natal-Biografia de uma Cidade”. Rio de Janeiro: Editora Lidador, 1999 – pág. 150 a 152.
MATHIAS, Aluízio (Organizador). Poesia Circular. Natal: CENARTE/Viação Cidade do Sol, sem data – pag. 47.
MEDEIROS FILHO, João. Por que? In “A República”, Natal, 5 de agosto de 1979.
Contribuição à História Intelectual do Rio Grande do Norte. Natal, 1983 – pág. 211 e 212.
ONOFRE JR., Manoel. Presença de Berilo in “A República”, Natal, 5 de agosto de 1979.
PETROVICH, Enélio Lima. Berilo – Nosso Colega de Turma in “A República”, Natal, 5 de agosto de 1979.
SEVERO NETO, Augusto. Berilo Wanderley in “De Líricos e de Loucos”. Natal: Editora Clima, 1980 – págs. 81 e 82.
WANDERLEY, Rômulo. Panorama da Poesia Norte-rio-grandense. Rio de Janeiro: Edições do Val, 1965 – págs. 21 e 22.
OBRA COLETIVA – BERILO WANDERLEY: MEMÓRIA, Depoimentos, Poemas Crônicas. Natal: Editora Universitária – UFRN, 1980.
Com informações livro: SALVADOS, Livros e Autores Norte-Rio-Grandenses – Manoel Onofre JR.
Fonte da foto: https://brechando.com/2022/07/14/berilo-wanderley-pioneiro-no-jornalismo-potiguar/
Colaboração: Aladim Potiguar – Blog do Cobra.
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