Parte da história de alguns bairros de Natal

Ana Tersuliano
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27/05/2025 às
15:19

Omar O’Grady, prefeito de Natal, contrata por 100 contos de réis o arquiteto italiano Giacomo Palumbo para elaborar o Plano Geral de Sistematização da Cidade de Natal, o Plano Palumbo. O projeto, sempre louvado, leva em consideração até a dimensão espiritual dos habitantes, traçando avenidas largas, facilitando o trânsito e a vida.

O nome de bairros natalenses são identificação e homenagem: aroma (Alecrim); virtude teologal (Cidade da Esperança); religião católica (Santos Reis e Padre João Maria); grandes líderes (Felipe Camarão, Potilândia – terra de Poti, Dix-Sept Rosado, que já foi um bairro chamado Carrasco); hidrografia (Lagoa Seca, Lagoa Nova, Ribeira); a geografia das Rocas, Cidade Alta, Cidade Nova, Barro Vermelho; as novidades urbanísticas são Cidade Satélite, Capim Macio (o gramado, que serviu de pouso à aviação).

Na Zona Norte, confrontam com os municípios de São Gonçalo do Amarante e Extremoz, os bairros: Igapó, Nossa Senhora da Apresentação, Lagoa Azul, Pajuçara e Redinha. No centro está Potengi e à margem do Rio Potengi, Salinas.

À beira-mar, estão Praia do Meio, Areia Preta, e, após o Parque das Dunas (Via Costeira – Avenida Senador Dinarte Mariz) a multinacional Ponta Negra. No mais alto, com seu farol, Mãe Luíza. A população abastada mora em Petrópolis,Tirol, Barro Vermelho, Lagoa Seca, Morro Branco, Lagoa Nova, Capim Macio, Neópolis, Candelária. O maior conjunto habitacional de classe média é Pitimbu. Depois do Alecrim, as Quintas, a Zona Oeste, mais proletária, Nordeste, Dix-Sept Rosado, Nazaré, Cidade da Esperança, Cidade Nova, Bom Pastor, Felipe Camarão, Guarapes e Planalto. No limite da cidade, estão os municípios de Macaíba e Parnamirim.

Singularidades:

Alecrim

O Alecrim tem feição própria.

Tradicionalmente é o bairro mais parecido com o interior do Estado. Tem até apelido: Cais do Sertão.

O seu nascimento teve reconhecimento oficial, foi criado por decreto do prefeito (intendente) Joaquim Manoel Teixeira de Moura em 24 de outubro de 1911.

É centro de comércio varejista, de camelôs, vezes lembrando a famosa Rua 25 de Março de São Paulo. Lá está a Base Naval Almirante Ary Parreiras. O Colégio Padre Miguelinho é um outro Atheneu.

O Alecrinense tem jeito de escoteiro. Aliás, o escotismo de Natal foi criado no bairro sob a liderança do professor Luís Soares.

O doce nome Alecrim pode derivar do alecrim-de-tabuleiro, planta que, afirmam estudiosos, só existe em nosso Estado. O bairro do Alecrim tem cheiro, cores, elevados sons, autonomia econômica e social. O nome veio de costume antigo: moradores colocavam a planta aromática e medicinal na frente das casas, em latas nas janelas e jarras no jardim.

O bairro tem uma Base Naval poderosa (Natal é sede do III Distrito Naval do Nordeste), concorrido comércio, pequena indústria, residências com casas conjugadas, uma população com jeito diferente. Tem escola de samba e o valoroso Alecrim Futebol Clube.

Redinha

Na Praia da Redinha, o natalense é tradicional inventor da mais original veste alegórica do carnaval brasileiro: a fantasia feita de lama.
Os foliões do bloco “Os Cão” cobrem-se com a terra molhada e pegajosa do mangue de Natal para formar uma insólita aproximação com os diabos de chifres de barro.

O jornal “O Galo”, em edição de fevereiro de 1997, conceitua:

Amálgama de arte e técnica, sob o domínio inspirador do insólito: o próprio objeto em foco, móvel arredio, até o amorfo. Quem são eles, os cão? Meros cidadãos de uma comunidade praieira? Com uma definição assim não há como evitar o risco de incorrermos no simplismo. Porque os cão são muito mais: irreverência, originalidade, comunhão com a mãe-terra, alerta em favor do ecossistema e, por extensão, também um momento de pura beleza sob a forma descuidada da efêmera (e preciosa) alegoria do carnaval! A mais pobre das fantasias, feita da lama negra dos mangues supera qualquer fantasia, inclusive as religiosas.

Firme, a igrejinha do bairro é construída com pedras do mar, recife de arenito.

Barro Vermelho

Entre o Alecrim, Cidade Alta e o Tirol, situa-se o Barro Vermelho, o local já era conhecido e teve triste notoriedade no século XVIII com a morte em tocaia do Governador do Estado, conhecido como Presidente Parrudo, em 1838.

Entretanto, lá é lugar de festa dos violões de Heronildes França e da poesia de Lourival Açucena, Ferreira Itajubá, Gotado Neto e Auta de Souza. Saudoso Elói de Souza, relembra “os alegres e famosos pagodes do Barro Vermelho” onde Alberto Maranhão fazia piquenique. Câmara Cascudo anota que, no Barro Vermelho, Henrique Castriciano fez o único discurso hilariante de sua vida intelectual.

Ribeira

Nenhum bairro tem caráter mais forte do que a Ribeira, habitada pelos comedores do peixe cangulo, os canguleiros. Limita-se com as Docas, Canto do Mangue, onde aportaram barcações e se vendem grandes peixes nobres. O porto, agora, abriga navios de maior calado com a retirada da Pedra da Bicuda. O bairro transforma-se e onde era o Alto da Castanha está a Capela da Sagrada Família. Cantiga de outro tempo dá notícia:

Velha Ribeira
De pastoris!
O Alto da Castanha
Onde todo valentão apanha
Quando vivia Joca do Pará!

Bairro boêmio, bonito, com ar colonial, onde viveu quase a vida inteira o mestre Câmara Cascudo, no casarão ao pé da ladeira da Junqueira Aires. Ribeira, dos grandes armazéns, onde havia o mais forte comércio e a maior concentração de alegres e tristes encontros sexuais. Vejo-a em construções elevadas sobre as águas, em poema que se perde no tempo e invade a lembrança:

A Ribeira, palafita, / Feita de carne e de água, / Barcos antigos aportam / O vento inventou as velas / Zunindo, o Canto / Do Mangue. / O Porto carrega destinos / De água / O rio e o mar, riomar, / Os navios de metal / Atracam, orgulho de bandeiras, / Porque a barra é barra e ponte / De água. / Não me convencem / Os edifícios fixos / Com fácies de eternos. / Porque na Ribeira / Só o que passa / Permanece. / As mulheres da Ribeira / Moram nas casas antigas / (Porque é antigo o pecado) / Buscam os homens riomar / Feitos de água. / Alguns / Descobrem o noturno / Pela rua de São João / Pela travessa da Lua / Em busca de Wanderbar / (Que tem sacada pro rio) / Todos somos carecidos / De assistência emocional. / A sinopse íntegra / O bairro aquoso / Da cidade triste / A Ribeira palafita.

O Plano Geral de Sistematização de Natal, elaborado pelo arquiteto Giacomo Palumbo, constaria, registra o professor João Maurício, de uma planta do projeto da cidade, em escala 1:1000 e perfis transversais em escala 1:1000 de todas as ruas e avenidas consideradas no projeto, conforme mostra imagem acima.

Com informações livro: Natal Uma Nova Biografia – Diógenes da Cunha Lima.

Aladim Potiguar – Colaborador Blog do Cobra

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