Em Natal, no nordeste brasileiro, terra quente por natureza, um ex-proprietário de um Fusca ano 1972, daqueles com farol “olho de boi”, que parecem olhar para o mundo com a mesma curiosidade de quem já viu muita estrada, protagonizou uma dessas histórias que só quem tem Fusca entende.
Num domingo qualquer, desses em que o sol resolve trabalhar em turno dobrado, o dono resolveu sair para dar uma volta com o fiel companheiro. Mas o Fusca, como todo carro antigo que se preze, também tem personalidade. E, naquele dia, decidiu simplesmente não pegar na chave.
Empurrão vai, tentativa vem, lá foi o dono parar numa oficina de auto elétrica de plantão. O eletricista, homem experiente e de poucas palavras, fez alguns testes, coçou o queixo e decretou:
— É o motor de arranque.
O proprietário perguntou quanto ficaria o conserto. O eletricista respondeu com a sinceridade típica de quem já viu muita gambiarra na vida:
— Melhor comprar um novo, da Bosch. Esse aí é Wapson… e velho. Capaz de ser o mesmo que veio de fábrica.
Diante da sentença mecânica, o dono teve uma ideia prática:
— Então tira logo esse motor de arranque. Amanhã compro um novo e volto para instalar.
Assim foi feito.
O problema é que a segunda-feira chegou cheia de pressa. O proprietário tinha nada menos que seis compromissos rápidos espalhados pela cidade. Como o Fusca agora estava sem motor de arranque, restava o método clássico da engenharia automotiva popular: pegar no empurrão.
Na primeira parada do dia, o destino resolveu dar uma ajudinha. Ele encontrou um grande amigo, daqueles de décadas, amigo de fé, irmão camarada, como diz a música Amigo de Roberto Carlos.
— Rapaz, vem comigo hoje, pediu o dono do Fusca. Só para dar uma força. O carro não está pegando na chave. Nas paradas, quando eu desembarcar, deixo o carro ligado e você fica só olhando, para a gente não precisar empurrar.
O amigo, solidário como todo bom amigo antes do meio-dia, topou.
E lá foram os dois.
O dia, dizem alguns, estava perto dos quarenta graus. O Fusca, como todo Fusca raiz, não tinha ar-condicionado. Tinha, no máximo, ventilação natural e aquele leve perfume interno de gasolina que só quem já andou num sabe reconhecer.
No quarto compromisso, o amigo já estava praticamente derretendo no banco do passageiro.
— Rapaz… vou ter que ir embora.
O dono do Fusca apelou:
— Me ajuda aí! Só faltam dois lugares. Depois eu te deixo onde quiser.
O amigo suspirou… e ficou.
No quinto ponto, a parada demorou um pouco. O sol parecia ter decidido estacionar bem em cima do carro. Quando o proprietário voltou para o Fusca, encontrou o amigo com uma expressão que misturava cansaço, calor e arrependimento.
— Rapaz, eu tenho que ir embora. Não dá mais.
Desesperado, o dono do Fusca tentou o último argumento:
— Só falta mais um lugar!
O amigo respondeu, já abrindo a porta:
— Fico nada! Um calor desse tamanho… já acabou até meu Malbec!
E assim terminou a parceria daquele dia.
Para quem não sabe, Malbec é um perfume famoso. Mas, dentro de um Fusca antigo, no calor de quarenta graus e com aroma de gasolina no ar… até perfume caro pede demissão.
Os personagens reais desta história são:
- Historiador Ricardo Tersuliano – proprietário do Fusca;
- Raimundo Nonato (Vovô) – amigo de várias décadas.
E quem conhece histórias de Fusca sabe: o carro pode até deixar o dono na mão… mas quase sempre deixa uma boa história para contar.
Texto: Ricardo Tersuliano – Historiador Independente – e-mail: ricardotersuliano@yahoo.com.br – Colaborador do Blog do Cobra
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