Acho que nenhum dos frequentadores esperava por uma noitada como aquela. Naquela noite de uma sexta-feira de outubro de 1971, o Hippie Drive-In fervia como sempre, localizado na Estrada de Ponta Negra.
Ao chegar, percebi logo de cara pela enorme quantidade de veículos – Aero-willys, Simca, Dodge Dart, Galaxie, Fusca, DKW, Karmann-Ghia… – que a casa noturna estava lotada. Isso não era novidade… ali era o point de Natal.
Os sons banhavam os vários ambientes de dança. Em um deles, um casal de turistas que dançava chamou-me a tenção… e atraía olhares! Interpretavam as músicas com uma performance arrasadora, da bossa nova ao samba, e levavam o público ao delírio.
No dancing, a luz negra dava efeitos especiais – no grande emaranhado de mesas percebia-se o ritmo intenso dos garçons.
No maior estilo, o casal se esbaldava, música após música, independente do ritmo executado.
Lá para as duas horas da manhã, com a casa noturna pegando fogo, o casal dançou um tango argentino “Besame mucho”, em que provocou aplausos dos jovens, que já se acotovelavam na beira da pista de dança.
A surpresa agradou o público em cheio – que cantou e dançou durante quase uma hora – um verdadeiro show!
A essa altura, a madrugada estrelada e o calor agradável prometiam que seria inesquecível.
O casal arrancava aplausos de todas as mesas, e ao terminar fez um agradecimento, elogiando todos os presentes.
– Eu moraria aqui… Natal é uma cidade gentil! Falou a mulher com forte sotaque inglês.
O casal ficou tão encantado com a recepção calorosa que declarou que adoraria viver aqui com sua família.
Fomos apresentados, conduzi-os à minha mesa e ficamos amigos. Conversamos e nos divertimos até as cinco da manhã, de onde saímos até o caldo do Cigano, na Praia do Meio, perto do hotel em que estavam hospedados. Bebiam gim com água tônica.
Na Tenda, enquanto assistíamos ao nascimento do sol, ao som do violão de Expedito, contaram que no dia anterior, quinta-feira, haviam feito um passeio pela ensolarada Natal, cujos termômetros, nessa época do ano, normalmente, passavam dos 30°C. Apenas reclamaram do calor a que não estavam acostumados.
Um dos locais visitados foi a Fortaleza dos Reis Magos, monumento histórico construído no século XVI, às margens da Praia do Forte. Lá permaneceram cerca de duas horas e demonstravam interesse em conhecer a Redinha, do outro lado do rio, famosa por suas gingas com tapioca. Adoraram a velha ponte de ferro.
Eram naturais de Londres, e o casal de ingleses ficou realmente encantado com a nossa Capital. Patrick trabalhava no Museu de Londres.
A noite, encontrei-os no Hotel Reis Magos, onde estavam hospedados e levei-os para jantar no Xique-Xique, no Posto São Luiz, onde esboçaram o roteiro para o dia seguinte – conhecer os cartões-postais de Natal. Adverti-os que não daria tempo – os encantos de Natal são inúmeros.
No outro dia pela manhã, um sábado ensolarado, levei-os para conhecer várias praias de Natal. Almoçamos em Pirangi uma caranguejada no “Pinoca”.
A tarde queriam fazer compras. Como era sábado, fomos ao comércio do Alecrim. Acharam interessante a “semana inglesa”, adotada pelos comerciantes do bairro. Compraram diversos artigos regionais: redes, artesanato, louças de barro, colher de pau.
Segundo Isabelle, o que mais a encantou foi a hospitalidade e a educação do nosso povo.
– Que gente educada! Ela não cansava de repetir.
Confessou-me que, antes de partir, já estava com vontade de voltar.
Finalmente, no domingo, apanhei-os no Hotel Reis Magos e conduzi-os até o Aeroporto, de onde seguiriam para o Rio de Janeiro e, de lá, para Londres.
Mantemos contato até hoje. Patrick e Isabelle voltaram várias vezes a Natal… a última em companhia de um casal de netos – e nos salões de dança ainda chamam atenção pelo seu talento, que continua o mesmo daquela noite de 1971.
Isso nos prova que idade não influencia o estilo de vida das pessoas que adotam hábitos saudáveis.
Com informações livro: Antiqualha – Elísio Augusto de Medeiros e Silva.
Foto: fonte matéria link abaixo: https://blogoalerta.com.br/hippie-drive-in-nos-anos-60-esse-local-de-natal-era-incrivel-point-de-curticao-do-nordeste
Aladim Potiguar, colaborador do Blog do Cobra.
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Uma resposta
Eu fui… muito encantador, era jovem demais…