“Estudioso dos Sertões e do Seridó, Oswaldo Lamartine, em seu livro ‘O Sertão de Oswaldo Lamartine’, fala sobre a dificuldade da água, seu manuseio e armazenamento no Sertão e na Região do Seridó.”

Ana Tersuliano
|
01/12/2024 às
21:19

Da água:

    É de se imaginar que os primeiros marinheiros que ali se situaram, ainda no século XVII, assentaram seus currais e alevantaram suas moradas nas vizinhanças de algum poço ou cacimba de oferecer refrigério nos meses de seca. E raros poços se formavam nas águas apartadas dos rios. A cacimba é que era e ainda é cavada em suas areias – algumas fartas, capazes de despachar maior peso de gado, outras mais ronceiras, obrigando o sertanejo a mudar, mais dias, menos dias, os paus de bebida até esbarrar no salão. Espiando melhor o solo e a vegetação, ou mesmo em tentativas de aventura, cavoucavam cacimbas longe dos rios, sem outro instrumento que o muque no cabo da alavanca, picareta e pá – palmo a palmo – até dar nos veios d’água da pedra mole ou na desesperança da rocha mais dura.

    A água é que garante a fixação e do chão é que tinham de tirá-la para o gasto dos homens e dos bichos, durante os oito meses de seca. E nem sempre era fina e leve; algumas pesadas, salobras e turvas, parecendo mais, na cor, caldo de cana. Ocasionalmente, quando algum serrote ou algum lajedo apresenta maior cavidade – o tanque – capaz de juntar as águas da chuva ou que para ele corriam – era e ainda é limpo, varrido e coberto, de modo a serem dali carregadas ou servirem para, em derredor, lavar roupa.

    O açude veio depois, trazido pela ciência da outra banda do mar ou pela lição de alguma grota, de ombreiras apertadas, onde algum cordão-de-pedra fazia represar as águas de um riacho.

    Embora o Pe. Manoel de Jesus Borges, ainda em 1706, tenha requerido terras nas ribeiras do Curimataú (Agreste paraibano, limites com o Rio Grande do Norte) para “fazer açude aonde houver capacidade”, no Seridó, ao que parece, o mais velho açude de que temos notícias é o do Recreio (Caicó), construído em 1842. Hoje é a região mais açudada do Nordeste e no município de Caicó, contam os de lá, na ponta do lápis, mais de mil barragens, entre grandes e pequenas. Em enquete que procedemos (dez./1958), somava o Seridó, entre barreiras, açudecos e açudes particulares (construídos sem auxílio do DNOCS) e capazes de guardar água por mais de um ano, 694 unidades…

    Garantida a água, em poços ou cacimbas, para o homem e o gado, careciam de carregá-la para os gastos de casa, o que, primitivamente, deve ter sido feito em recipientes preparados com os recursos do lugar; borrachas, ocos de imburana seccionados fechados em testo e as clássicas cabaças já de uso índio – grandes, pequenas, compridas (marimbas), redondas ou de colo, usadas como cumbucas ou serradas em cuias. Com o tempo e na tentativa de arremedar barris comprados na “praça”, é que se atreveram a fazer suas primeiras ancoretas, que, presas aos pares aos cabeçotes das cangalhas, fizeram do jumento o veículo-tanque daqueles sertões. A cerâmica local, paralelamente, contribuiu com a quartinha, o pote e a jarra. Esta, de maior capacidade, nas casas, apoia-se em forquilhas ou suportes – as cantareiras. Louceiro é chamado o artesão que manufatura as cerâmicas. E há os afamados, feitores de louça fina, bem-acabada, bem queimada e esfriadeira, i. é, revedora, de vez que a evaporação da água na superfície exterior provoca maior resfriamento no vaso.

C:UsersRicardoDownloadsIMG-20241201-WA0082.jpg

Ancoretas de zinco com testo de madeira. Feira de Currais Novos, RN.

Foto: Oswaldo Lamartine de Faria

 

    Os cuidados de higiene eram rudimentares, como rude era e ainda é a vida por aqueles mundos. A cacimba de beber – assim chamada a de uso das pessoas – é, diariamente, esgotada, seca da água velha, e contida em uma armadura de tábuas ou um pote perfurado com tampa também de madeira.

    Assim fazem para os bichos do mato e as criações nela não chafurdarem. Em casa, a água é coada na boca do pote em um pano de algodãozinho e nela ainda alguns colocam pedaços de enxofre. Dizem que faz bem à saúde e impede a criação de martelos! Os potes e jarras são conservados tampados com um testo de tábua em alça; a caneca, neles mergulhada para tirar água, costuma ser de flandres, provida de comprido cabo e tendo os bordos dentados para evitar que alguém, menos avisado, nela venha a beber. Algumas canecas mais engenhosas tinham sistema de pipeta. Quando a empreitada de algum trabalho em léguas dista da fonte de água, na cabeça ou na borracha conduzem o líquido de que necessitam. Nas diligências mais distantes, reclamando a ausência de alguns dias, a água era carregada em borrachões, na carga de um animal, juntamente com a matalotagem da boca, instrumentos de trabalho, rede de dormir etc.

    A água potável é para o sertanejo, mais que para outro vivente, uma constante preocupação. Ainda hoje, quando após os intermináveis meses de estio, as primeiras nuvens de inverno começam a fiar e a água a correr farta nas goteiras, avexam-se em – lavadas as telhas pelas primeiras pancadas de chuva – arrebanhar todo o vasilhame de casa (jarras, potes, alguidares, latas etc.) para guardar água de chuva. Água boa, não só para os gastos de casa, como para bater e alvejar a roupa encardida pelas águas pesadas dos meses de seca.

    Os de maior posse constroem cisternas; algumas com capacidade para tirar toda a seca, i. é, abastecer a família no período de estio. São depósitos de alvenaria impermeáveis e estanques para onde canalizam, por meio de calhas, a água dos telhados. Mais raramente, e quando um lajedo sucede aflorar nas proximidades da morada, fazendo carreira d’água durante as chuvas, fazem um tanque de alvenaria, tampado, tendo na entrada um ralo ou tela de filtração e a saída em torneira. Ali entesouram zelosamente a água de beber de que carecem para atravessar os meses de seca.

Com Informações: Livro O Sertão de Oswaldo Lamartine – Vol. 1.

Comentários

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *