Escritor Jaime Adour Câmara

Ana Tersuliano
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15/11/2025 às
12:53

Jayme Leopoldo Raposo Adour da Câmara nasceu em Ceará-Mirim/RN, 29 de abril de 1898. Foi escritor modernista, participante do movimento antropofágico.

Aos 18 anos escrevia nos jornais da terra natal, especialmente em “A Imprensa” de Francisco Cascudo, pai de Luís da Câmara Cascudo. Segundo Francisco de Assis Barbosa, “por essa época (1918-19) começou a corresponder-se com escritores brasileiros e portugueses. Lima Barreto muito o animou a que se mudasse para o Rio de Janeiro”.

Já Câmara Cascudo disse: “Até 1918, quando viajou para a Rio de Janeiro, estávamos cotidianamente juntos, lendo Literatura Portuguesa e discutindo problemas para nós transcendentes. Escrevia-me, vez por outra. De Helsinki enviou-me carta que é o masterplan do futuro ‘Europa, França e Bahia’. (…) Na última vez que o encontrei no Rio (…) disse-me trabalhar num livro de ensaios, ‘Pequena Cabotagem’. Não terminaria”.

Como demonstram os textos do escritor conhecido como “FAB” e o de Cascudo, o jovem Jayme Adour da Câmara desde cedo começou a namorar com a literatura. Antenado, não se limitou à província. Assim que a idade permitiu, trocou a vida pacata de Natal pelo movimento da Capital Federal, onde estava mais próximo dos acontecimentos. Mesmo tendo nascido no Engenho Paraíso e sendo filho dos senhores de engenho, tratou de trabalhar para se manter: atuou em postos de profilaxia rural, ao mesmo tempo em Itaguaí e Mangaratiba, no Rio de Janeiro.

Em 1926 mudou-se para São Paulo, passando a dirigir a sucursal da Agência Americana, integrando-se ao grupo de Antropofagia de Oswald de Andrade, Raul Bopp, e Tarsila do Amaral, chegando a dirigir o Suplemento Antropofágico semanal, do “Diário de São Paulo”, na 2ª fase do movimento, ou como diziam, na “Segunda Dentição”.

Em 1929 viajou para a Finlândia, permanecendo mais de um ano na Europa em missão cultural. Viajou muito, fez suas próprias descobertas, indo ao Pólo Ártico e à Uniao Soviética. Com as impressões dessas viagens escreveu um livro com título bem humorado: “Oropa, França e Bahia”, inspirado numa quadrinha popular.

Continuou a trabalhar na imprensa e foi fazendeiro plantando algodão e criando gado em São Paulo. Mas não seria exatamente um capitalista. O escritor Brito Broca conta que o conheceu numa livraria dizendo: “Deixem durante um mês de comprar seis livros e  comprem O Capital, de Karl Marx. É uma obra fundamental, que nos dá uma visão completamente diferente do mundo!”.

Era amigo de Manuel Bandeira e muitos nomes importantes na literatura brasileira. Carlos Drummond, em 4 de março de 1919 no seu livro de anotações e lembranças “O Observador no Escritório” disse que Adour foi quem deu o apelido de Pagu à Patrícia Galvão na “Revista De Antropofagia”. Admirador de Marcel Proust, bom escritor, às vezes era um brincalhão. Cascudo conta que certa vez, indo ao Rio, visitou todos os gloriosos, como ele dizia. “A visita ao poeta Alberto de Oliveira ficou famosa. Recebido por um criado, perguntou: – O Sr. Alberto de Oliveira está? – Está sim, senhor. – Está trabalhando? – Não, senhor. Está escrevendo”.

Quando estava escrevendo (ou trabalhando?) “Macunaíma” Mário de Andrade pediu a Jayme Adour o nome de uma fruta nordestina bem perfumada: “Guajiru!”. E relata Cascudo: “Mário empregou o forte odor do guajiru. O Guajiru não cheira a coisa alguma”. Respondendo ao ping-pongue do escritor João Condé, informou: “Se pudesse recomeçar a vida, gostaria de ser pescador de águas turvas… Gostaria de tocar bem berimbau. Santo de sua predileção: São Cipriano, porque é ao mesmo tempo milagroso e macabro. E muito viajado: dos 7 mares concebe 5. Fruta de sua predileção: Araticum cagão (graviola)”. Deve ter feito aqui de novo uma brincadeira, já que araticum, embora da mesma família, é uma fruta, e graviola é outra diferente. Finalizou dizendo que “esperava morrer reconciliado com a vida que sempre lhe foi dura e hostil, mas que dela não se queixa. Não tem dúvida de que chegará aos 90 anos”. Morreu aos 66, numa clínica em Petrópolis/RJ.

Casado com dona Leonor, paulista, deixou dois filhos: o publicitário e escritor Leopoldo e o ator João Paulo Adour. Sua biblioteca, adquirida por Umberto Peregrino quando dirigia o Instituto Nacional do Livro (INL), foi doada à Biblioteca Câmara Cascudo, por iniciativa de Zila Mamede. Josué Montelo, no seu “Diário da Tarde”, escreveu sobre Adour: J. A. da C. foi pranteado na Academia por Pedro Calmon, Raimundo Magalhães Júnior; Viana Moog e Peregrino Júnior. Estive lá para falar também; mas como já era tarde, e eu tenho de ir a um jantar, remeti-me a este caderno para dizer que senti a morte do escritor”. Conta histórias sobre o seu relacionamento e finaliza dizendo: “Agora, sabendo-o morto, sinto saudades dele e de mim”.

Jayme Adour faleceu em Petrópolis/RJ no dia 12 de março de 1964.

Com informações e imagem livro: 400 Nomes de Natal – Coleção Natal 400 Anos.

Pesquisa e edição: Ricardo Tersuliano – Historiador Independente – e-mail: ricardotersuliano.iaphacc@gmail.com – Colaborador do Blog do Cobra.

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