Clara e Felipe Camarão

Ana Tersuliano
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27/12/2024 às
11:45

Capitão-mor de todos os índios do Brasil: Poti, nomeia a Carta Régia de 16 de maio de 1633. Os governos de Espanha e Portugal conferem a Felipe Camarão, o índio Poti, o Brasão de Armas e o reconhecem também Capitão-mor dos potiguares, com nobreza conferida pelo título de Dom.

Índio Poty é catequizado e convertido à fé católica pelos jesuítas. Batizado em 4 de março de 1612 na aldeia de Igapó, à margem esquerda do Rio Potengi, com o nome de Antônio Felipe Camarão. Casou no ritual da igreja, com uma das suas mulheres, Clara Camarão, também batizada na mesma ocasião.

Está no Recife quando da invasão dos holandeses em 14 de fevereiro de 1630. Participa da luta contra o invasor, ao lado de Matias de Albuquerque, atacando o inimigo a partir da estância de Santo Amaro. Segundo o frei Manuel Calado: “Foi o mais fiel soldado que el-rei teve nesta guerra, porque sempre acompanhou os portugueses com sua gente em todos os trabalhos e fadigas.

Tomou parte de inúmeros combates contra os holandeses, com habilidade e bravura inexcedíveis. É decisiva sua participação na vitória das tropas luso-brasileiras na primeira Batalha dos Guararapes, em 1648. O general flamengo Arciczewski ordena completa retirada e registra para a história: Há mais de quarenta anos que milito na Polónia, Alemanha e Flandres, ocupando sem interrupção postos honrosos, mas só o índio brasileiro Camarão veio abater-me o orgulho.”

Felipe Camarão morreu cerca de um mês depois daquela batalha.

É o herói indígena mais cultuado da história do Brasil.

Em Natal é referido “aparecer” em sessões de catimbó. Nessas ocasiões, “o mestre” porta um grande punhal, para ser atendido pelo guerreiro nessas ocasiões. Câmara Cascudo registra: “Dom Antônio de Albuquerque Arcoverde Camarão pituaçu”. É curioso notar que, no catimbó, o espírito guerreiro de Poti toma o sobrenome Arcoverde, que é de sua mulher, Clara.

Clara Camarão foi com o marido a Pernambuco e participou da guerra contra os holandeses, liderando um grupo de índias guerreiras. Domingos do Loreto registra: “Dona Clara, mulher do governador dos índios, dom Antônio Felipe Camarão, tem o seu insigne valor ilustrado com mais realce porque, armada de espada e broquel e montada em um cavalo, foi vista nos conflitos mais arriscados ao lado do marido, para admiração dos holandeses e aplauso dos nossos compatriotas. A sua atuação foi decisiva na batalha de Porto Calvo.”

Ela é, certamente, precurssora do feminismo e motivadora de ações femininas de relevo. Atestam os cronistas a beleza rara, seu corpo escultural. Em época fortemente machista, não recebeu qualquer homenagem de Portugal. Nada que se comparasse às prestadas ao seu marido: Dom – Cavaleiro do hábito de Cristo, Comandante de todos os índios do Brasil.

Depois da morte de Felipe Camarão, ocorrida no Recife, em 1648, Clara recolhe-se à sua aldeia em Igapó, Próxima a Natal.

Passado o tempo, o culto a essa mulher guerreira do Brasil, tem crescido. Renato Seneca Fleury, do Instituto Histórico e Geográfico de São Paulo, publicou pelas Edições Melhoramentos, 1958, o livro Heroínas e mártires brasileiras. A primeira da série é Clara Camarão.

Escolas, ruas e praças têm o seu nome. A Petrobrás, riqueza maior do Rio Grande do Norte, inaugurou a Refinaria Clara Camarão.

Com Informações: Livro Natal Uma Nova Biografia – Diógenes da Cunha Lima.

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