Além de ser um incansável escritor, Câmara Cascudo foi também um animador cultural. Neste aspecto, sua primeira grande iniciativa foi a criação da Academia Norte-rio-grandense de Letras, em 1936. Na década de 40, inspirado no que se fazia na Espanha, ele fundou uma Universidade Popular. A solenidade de instalação foi realizada no Instituto Histórico Geográfico, no dia primeiro de maio de 1948, sob a presidência do Dr. Paulo Pinheiro de Viveiros. Na ocasião, Cascudo discursou sobre as finalidades desta nova instituição cultural, que funcionou sem burocracia, com entrada franca, e conferencistas convidados. Existia, apenas, um Conselho Diretor composto pelo idealizador, o Dr. Paulo Viveiros, Maestro Waldemar de Almeida, Sérgio Severo e Luiz Veiga
As aulas, num total de dezoito, foram quase todas ministradas no Instituto Histórico e Geográfico, às quartas-feiras, no horário das 20 horas. A assistência aumentava de aula para aula.
Inicialmente, Cascudo deu um curso Sobre a “História da Literatura do Rio Grande Norte”, compreendendo um total de cinco aulas. Abordou a literatura potiguar, desde as suas origens até os últimos acontecimentos literários da primeira metade do século XX.
Em seguida, o Dr. Rodrigo Lopes, chefe da Repartição do Saneamento de Natal, ministrou um curso, em duas aulas, sobre “A água e seu papel na Civilização.” O conferencista fez uma retrospectiva dos grandes trabalhos hidráulicos da Antiguidade, Era Moderna e Contemporânea. Referiu-se aos trabalhos brasileiros neste setor. Por último, apresentou um resumo da história do serviço de água de Natal. O conferencista foi aplaudido calorosamente pela platéia. Em reconhecimento ao seu mérito, Cascudo lhe concedeu o título de Doutor “Honoris Causa”.
A oitava aula ficou a cargo do Padre João Pereira Neto (Salesiano) que, em presença de autoridades, jornalistas e intelectuais, falou demoradamente sobre o pensamento de Balmes, filósofo espanhol. Na mesma aula, Cascudo voltou à cátedra discorrendo sobre a Civilização Indígena.
Ao Dr. Januário Cicco coube a tarefa de proferir a décima conferência, falando sobre o “Padre João Maria”, o Santo de Natal, canonizado pelo povo.
Em seguida, na décima primeira aula, falou o Dr. Otto Guerra sobre “Leão XIII e seu Tempo”. Ao conferencista, a Universidade Popular concedeu o título de Doutor “Honoris Causa.”
Na décima segunda aula, Cascudo dissertou sobre “O Canto Gregoriano”. A reunião foi realizada no Salão da Confederação Católica e o Padre Mario Daorizi ilustrou aquela conferência com a Schola Cantorum dos Salesianos, que executou diversos números do Canto Gregoriano.
Nos assuntos abordados nesta Universidade Popular, figurou a psiquiatria. O Dr. João Machado, renomado profissional nesta área do conhecimento, ministrou a 13ª aula, falando sobre o seguinte tema: “O Doido, o Maluco e o Anormal na concepção popular e científica”.
Visitando Natal naqueles dias, o Major Mário Imbiriba, Governador do Território de Fernando de Noronha, teve a oportunidade de assistir a uma das conferências da Universidade Popular. Após a aula, não conseguiu esconder o seu entusiasmo por este tipo de ensino. Sabendo disso, Cascudo convidou-o a vir fazer uma palestra sobre um assunto da sua especialidade. Foi a décima quarta aula, que versou sobre o seguinte tema: “A Lição dos Guararapes”. Em virtude do Instituto Histórico ser pequeno para abrigar a numerosa assistência que compareceu, a aula do Major Imbiriba foi transferida para o Salão da Conferência Católica, ensejando uma procissão cultural no deslocamento dos participantes de um recinto para o outro. O Governador José Varela, o Prefeito Sylvio Pedroza e outras autoridades foram prestigiar o conferencista.
Em seguida, na 15ª aula, falou o Dr. Antônio Siqueira, Diretor do Serviço Nacional da Malária, neste Estado, sobre “A Batalha Anti-Malária”.
Por ocasião da Semana da Bíblia de 1948, o Padre José Sauer proferiu, no Instituto Histórico, a 16ª aula da Universidade Popular, discorrendo sobre “A Bíblia”. Grande assistência de católicos prestigiou o acontecimento.
A penúltima aula foi pronunciada no Salão Nobre do Teatro Carlos Gomes (hoje Alberto Maranhão), pelo Maestro Waldemar de Almeida sobre “O Canto Coral”. O Orfeão do Departamento de Educação animou o ambiente executando diversos números de Chopin, Beethoven, Bach, e outros clássicos. A aula foi encerrada com o “O Canto da Raça” de autoria do conferencista, entoado a três vozes. A numerosa assistência que lotou o Teatro Alberto Maranhão aplaudiu com entusiasmo a magnífica conferência do maestro conterrâneo.
Finalmente, a 18ª aula ficou a cargo do Dr. Renato Dantas, que fez uma explanação sobre “A Aplicação da Pena no Direito Penal Moderno”. Esta realizou-se no Instituto Histórico e Geográfico. (Souza, Itamar de – 1984:26-29).
Para que serviu está Universidade Popular? No contexto de 1948, ela representou um movimento intelectual capaz de suscitar na elite natalense a consciência do seu valor. E, inegavelmente, fermentou a idéia de Universidade, que seria concretizada no final da década de 50.
Com Informações e imagem: Revista Câmara Cascudo Vida & Obra – Fascículo 3 – Diário de Natal – Itamar de Souza;
Foto da capa: Acervo Luduvicus – Instituto Câmara Cascudo.
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Aladim Potiguar, colaborador do Blog do Cobra
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