Bigois & Leinhardt: a empresa de água que mudou a história de Natal.

Equipe de Redação do Blog do Cobra
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30/06/2026 às
09:28

Durante séculos, o abastecimento de água em Natal dependia exclusivamente de fontes naturais. Os moradores da Ribeira buscavam água na Cacimba de São Tomé e nos poços abertos no areal do bairro, enquanto a população da Cidade Alta recorria ao riacho Tissuru também chamado Tiuru, conhecido a partir de outubro de 1761 como Rio do Baldo. Antes disso, em registros de 1675, o curso d’água era denominado Rio da Fonte.

O historiador Luís da Câmara Cascudo lembra ainda que a atual Rua Santo Antônio era conhecida como Caminho de Beber, justamente por conduzir os moradores até a nascente utilizada para o abastecimento.

Além dessas fontes, o sistema era complementado por poços e cisternas construídos nas residências, uma alternativa indispensável para enfrentar a escassez de água. Na prática, Natal contava com dois dos principais pontos de abastecimento: a Fonte da Bica, localizada no Baldo onde hoje está a Santa Cruz da Bica, e a Cacimba de São Tomé, na Ribeira, que passou por obras de recuperação durante a administração do Barão de Lucena.

Philipe Leinhardt

Foi na década de 1880 que Felipe Leinhardt entrou definitivamente para a história da cidade. Em 1882, recebeu da Câmara Municipal de Natal a concessão para implantar e explorar o serviço de abastecimento de água da capital. Naquele período, a população dependia principalmente de fontes naturais, cacimbas e do trabalho dos aguadeiros, que transportavam água para residências e estabelecimentos comerciais.

Para viabilizar o empreendimento, Leinhardt associou-se ao comerciante Nicolau Bigois, formando uma empresa responsável pela distribuição de água encanada em Natal. A iniciativa representou um importante avanço para a infraestrutura urbana da cidade, que começava a acompanhar as transformações observadas em outros centros urbanos do Brasil durante o período imperial e os primeiros anos da República.

Documentos históricos demonstram que Felipe Leinhardt continuava ligado aos negócios do abastecimento de água pelo menos até o início do século XX. Registros datados de 1901 mostram sua participação em questões administrativas relacionadas à Empresa d’Água de Natal, evidenciando sua longa atuação nesse setor estratégico para o desenvolvimento da capital.

Nicolau Bigois:

Natural da Dalmácia, então pertencente ao Império Austro-Húngaro, Nicolau Bigois chegou a Natal por volta de 1880 e rapidamente se destacou como comerciante e empreendedor. Ao lado do dinamarquês Felipe Leinhardt, participou da criação da primeira empresa responsável pelo abastecimento de água encanada da capital potiguar, a Bigois & Leinhardt, marco fundamental para a modernização da cidade. Após a saída do sócio (Phelipe Leinhardt), Bigois assumiu sozinho a empresa, ampliando os sistemas de captação e distribuição de água, contribuindo para melhorar as condições de vida da população.

Além de sua atuação no abastecimento de água, Nicolau Bigois também participou do desenvolvimento urbano de Natal. A abertura de caminhos para a manutenção dos poços acabou impulsionando a ocupação de áreas que mais tarde dariam origem a novos bairros. Reconhecido como um dos pioneiros da infraestrutura urbana da capital, seu legado permanece ligado à história do saneamento e do crescimento de Natal.

Após a dissolução da sociedade, Felipe Leinhardt permaneceu por algum tempo dedicado aos serviços de perfuração de poços, transferindo-se posteriormente para Recife, onde veio a falecer. Nicolau Bigois, por sua vez, consolidou-se como um dos empresários mais influentes de Natal no final do século XIX. Além de administrar a empresa de abastecimento de água, atuava no comércio estabelecido na Ribeira, onde mantinha uma casa comercial voltada à venda de fazendas (tecidos), chapéus, armarinhos e outros artigos importados. Também investia na compra, venda e administração de imóveis, figurando entre os comerciantes de maior destaque da capital, condição que evidencia sua sólida posição financeira e sua participação ativa no desenvolvimento econômico e urbano de Natal. Pesquisas recentes também apontam sua atuação no fornecimento de materiais para obras públicas e sua participação em diferentes empreendimentos comerciais da cidade.

Em notícias do jornal A República, especialmente em março de 1901, durante o rompimento da sociedade Bigois & Leinhardt, quando ambos trocaram comunicados públicos sobre a administração da Empresa d’Água de Natal.

Como funcionava o serviço:

A Empresa Bigois & Leinhardt não apenas perfurava poços. Ela implantou o primeiro sistema moderno de abastecimento de água de Natal. A água era captada em grandes cacimbas escavadas até o lençol freático da Ribeira, bombeada para reservatórios elevados e distribuída por uma rede de tubulações que abastecia residências, estabelecimentos comerciais e repartições públicas.

As principais captações localizavam-se na Ribeira, porque naquela época o bairro era formado por extensas áreas arenosas, muito próximas às dunas. Nessas condições, o lençol freático era raso e produzia água de boa qualidade.

As cacimbas não eram pequenos poços domésticos. Eram verdadeiras obras de engenharia, com vários metros de diâmetro, revestidas para evitar desmoronamentos e permitir grande vazão de água.

Depois de retirada das cacimbas, a água era elevada por bombas para um reservatório. A partir dele, seguia por gravidade através de uma rede de canos.

Na época, possuir água encanada em casa era um privilégio. Muitas residências continuavam buscando água em cacimbas públicas ou chafarizes.

Os documentos indicam que a distribuição atendia principalmente:

  • Ribeira;
  • Cidade Alta;
  • Repartições públicas;
  • Comércio;
  • Algumas residências particulares.

Como a Cidade Alta é mais elevada, provavelmente o reservatório também ocupava um ponto alto para facilitar a distribuição por gravidade.

Imagem gerada digitalmente com o auxílio de inteligência artificial, a partir de referências históricas:

Imagem gerada digitalmente com o auxílio de inteligência artificial, a partir de referências históricas:

Foto de nicolau Bigois e sua família (foto cedida por familiares)

Notas do Jornal A República:

Com informações livro: Sindágua RN | Jornal A República | Pesquisa Google  | Citações de Luís da Câmara Cascudo no Jornal A República (Actas Diurnas)  | Natal. Uma nova biografia – Diógenes da Cunha Lima  | Repositórios da UFRN.

Foto: Jornal A República, 31 de março de 1901. Imagem restaurada e aprimorada digitalmente com o auxílio de inteligência artificial, preservando seu conteúdo histórico.

Pesquisa e edição: Ricardo Tersuliano – Historiador Independente – Colaborador do Blog do Cobra | E-mail: blogdocobra@yahoo.com.br | Apoie a preservação da nossa história | Anuncie conosco: (84) 98764-9696

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