A inauguração de uma placa de bronze em honra de Bert Hinkler, em sua cidade australiana, fez-me lembrar que Natal o hospedou e daqui nasceu a maior glória desse aviador maluco.
Na tarde de 23 de novembro de 1931, desceu em Parnamirim um aviãozinho de boneca, aparelho Puss Moth, com um motor Gipsy, de 120 cavalos. Ninguém o esperava e dele desceu um inglês baixo e robusto, com um saguim ao ombro. Era Bert Hinkler. Na fuselagem do avião via-se, amarrado, um botezinho de borracha. Nem rádio, nem sextantes nem outro qualquer instrumento de direção. Ficou uns momentos conversando com mr. Adam, chefe da aeropraça da então C.G.A. O saguim mirava os arredores com os olhinhos negros e assombrados. Depois Hinkler veio, de automóvel para Natal.
Em 1930 fizera um raid incrível, da Austrália a Inglaterra, fazendo-se notar. Viajou para o Canadá e, a 13 de abril de 1931, comprara o Puss Moth. Voou para New York e daí, tranquilamente, como se não fizesse raid, arrancou para o Brasil, alcançando Jamaica numa reta obstinada de dezoito horas. Chegou à Fortaleza sem papéis, sem explicações, sem conversas. Foi convidado a esperar que o Consulado Geral da Inglaterra no Rio de Janeiro lhe enviasse os documentos. Adquiriu o saguim. Quando se viu desembaraçado, voou para Natal.
Em Natal nenhum jornal lhe noticiou a vinda nem a partida. Nenhuma informação fora solicitada da imprensa carioca ou paulista. Os repórteres dormiram. Eu era um deles.
A única pessoa com quem Bert Hinkler conversou foi o vice-cônsul inglês, Eric Gordon, mas pediu silêncio. Não sabia para onde ir. Rio de Janeiro, direto, ou saltar o Atlântico, para África. Durante todo dia 24 esteve no campo de Parnamirim, estudando o motor. Apenas o óleo da Castrol tivera gratuito. Comprara tudo com o próprio dinheiro e, em diferença de câmbio, perdeu trezentos mil réis. A companhia Wakefield patrocinava o vôo. O óleo viera de São Paulo. Hinkler comprou gasolina em Natal.
Eric Gordon, não se contendo, contou a mr. Adam a rota que seu patrício pensava seguir. O francês radiografou aos avisos que viajavam entre Natal e Dakar pedindo informações meteorológicas. Tempo suspeito ao sul de Dakar. Gordon explicou a Hinkler que em Dakar demorariam o aparelho para averiguações. Hinkler então escolheu Bathurts, possessão inglesa na Gâmbia, pátria do mosquito do mesmo nome.
Na noite de 24 para 25, o australiano passeou Natal, bebeu café, leu os anúncios dos cinemas e deve ter pensado no vôo doido do dia seguinte. Pela manhã, deram-lhe provisões, duas termas de café, uma d’água gelada, sanduíches de galinha e maçãs. Gordon levou- o para Parnamirim. Hinkler conservava seu casimira escuro, chapéu de massa, como se fosse visitar amigos.
Chegados, examinou o motor, tirou o paletó, segurou o chapéu, prendeu o saguim no interior da macete e fez as despedidas. Ele mesmo deu contato e pôs a hélice em movimento. Pediu levassem o automóvel para o extremo da pista de decolagem, indicando a direção. Antes do auto atingir ao fim do campo, Hinkler passava-lhe sobre a capota. No pequeno Puss Moth, que o vento ajudava, o aviador acenava um adeus sereno. O saguim pulava, atordoado com o estrépito do motor. E desapareceram no caminho de leste. Dez horas da manhã.
Os rádios anunciavam tempestades no Atlântico. O Puss Moth levava essência para 24 horas a cem milhas horárias. Os telegramas choviam, agora, sobre Natal, pedindo notícias. E, nada de Hinkler e do saguim, perdidos na imensidade monótona.
Com 22 horas de vôo, Hinkler descera em Bathurst, 50 quilômetros de Dakar, às 8 horas de 26 de novembro, sem paletó, de chapéu de massa e o saguim no ombro. Fizera, pela primeira vez na história da aviação, o vôo, de continente a continente, América-África, leste-oeste, assombrando Lindbergh. O saguim brasileiríssimo, fora o primeiro bicho que voara sobre o famoso Mar do Longo, sabido que o gato do Sprit of S. Louis tinha sido boato.
A 28 de abril de 1934 encontraram o cadáver de Bert Hinkler, nos restos de seu avião, numa fralda das montanhas da Toscana. Era uma tentativa de raid que, inexplicavelmente, falhara. Partira Hinkler para o supremo vôo sem retorno.
Do saguim, não há notícias.
Texto publicado no Jornal A REPÚBLICA em 12/07/1940.
Com informações: O Livro das Velhas Figuras – volume VII – Luís da Câmara Cascudo.
Foto: Wikipédia
Pesquisa e Edição: Ricardo Tersuliano – Historiador Independente –e-mail: ricardotersuliano@yahoo.com.br – Colaborador do Blog do Cobra
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