Magro, pálido, feições bem-feitas, educado por temperamento, gentil, por natureza, pequeno “cavanhaque” aristocrático alongando um rosto sério, que dois olhos castanhos alumiam, assim vi Urbano Hermilo de Melo.
Creio ter feito burocracia exclusivamente na Repartição da Polícia, porteiro em 1877. Amanuense em 1889. Secretário em 1895, aposentou-se em 1918. De 41 anos de serviços, esteve apenas três meses em licença. Meticuloso, detalhista, ciumento do trabalho, era dessa velha raça administrativa que Joaquim Nabuco, lamentando a morte do Visconde de Ourém, dizia não mais renovar-se.
Diga-se ainda que Urbano Hermilo apareceu versejando desde 1874, em jornais e revistas do Natal, ao lado dos poetas de primeira plana, íntimo de todos e geralmente querido. Seus originais, tomando mais de 400 páginas, são denominados “Carmes”, e Virgílio Trindade os possui, por dádiva da viúva. Urbano Hermilo foi poeta no gosto romântico de outrora, chorando ausências, lamuriando queixas, lamentando amores impossíveis quando se pretenda estudar a vida literária do Rio Grande do Norte.
Conheci-o já aposentado, gozando a “fresca-da-tarde”, numa cadeira de balanço, na Rua Nova (Rio Branco), cercado de velhos amigos, ressuscitando o passado. Nessas tertúlias cotidianas tomavam parte Pedro Soares, João Nesi, Varejão Filgueiras, Joaquim Damasceno, Moisés Soares, Virgílio Trindade, a quem devo a evocação, lembra que Urbano Hermilo “emprestava ao concurso do seu grande conhecimento das coisas da terra”. Ninguém, entretanto, pode calcular as excentricidades, as manias, as atitudes inesperadas e curiosas de Urbano Hermilo, melhor exemplar do que se chama “neurose coacta”.
Só usava o pé direito para sair, subir escadas e deixar a residência. Fosse onde fosse, desconfiando que andara, inicialmente, com o pé esquerdo, regressava ao ponto de partida. Da mercearia de Bráulio Heroncio, no fim da atual Rua Vaz Gondim, transversal da Uruguaiana, Urbano saiu e já estava na esquina da av. Rio Branco quando voltou de costas, e assim reganhou a porta por onde saíra. Tudo isto porque só podia sair pela mesma porta em que entrara. Quando a Chefatura de Polícia se mudou da Praça André de Albuquerque para a Rua da Conceição, sabendo que seu “bureaux” passara pelo portão em vez de fazê-lo pela porta principal, Urbano Hermilo desarmou-o e mandou fazer a volta completa.
No dia 13 não ia à repartição nem dava as minutas para não escrever o número fatídico. Pagou 148$000 por uns sapatos que custavam 138$000. Não entrava para a alcova pela porta do corredor. Só recebia um objeto pela porta da entrada e nunca pela janela. Saindo para o emprego, deixava um postigo meio-aberto. Não admitia um passarinho cantar no seu muro. Impressionava-se. Vivia um perpétuo estado de moléstia, queixando-se — eu ando aqui em termo de cair!
Afirmava que o cabo do guarda-chuva, de metal, resfriava-o pelo contato. Mandou revesti-lo de camurça. Tirar o chapéu para ouvir o hino Nacional, assombrava-o. Fatalmente, dizia constipava. E se constipou porque um canário belga, tomando banho na gaiola, salpicou-o. Uma xícara de leite obrigava-o a não tomar o bonde senão duas horas depois, para não perturbar a digestão. Quando esteve de luto, descia, na Secretaria de Polícia, as calças até os joelhos, e sentava em ceroulas. A fazenda preta dar-lhe-ia uma dermatose, pelo calor. Andava pela sombra, com o guarda-sol aberto. Recordo-o na Secretaria, sentado, calça pelos joelhos, chapéu de sol aberto, um lenço em cima da cabeça, muito digno, muito sério, muito composto. Recebendo, inadvertidamente, uma simples carta, com a mão esquerda devolvia-a para retomá-la com a direita. Mesmo que o portador se tivesse ido e Urbano estivesse deitado, passava a carta por debaixo da rede para a destra.
Todos esses complexos eram satisfeitos com a plena consciência de sua inferioridade. A Virgílio Trindade, seu amigo e sucessor na Secretaria da Polícia, dizia irritar-se com a obrigatoriedade maquinal dessas fobias. Impossível, confessava, era não obedecer.
Conversava bem, narrando com humor episódios antigos. Quando moço, possuía verve e escreveu “glosas” felizes, satirizando as figuras do seu tempo. Deixo aqui dois exemplos, duas “glosas” de “motes”, relembrando o Natal que o tempo levou…
Deixe o mau costume, não!
De namorar na igreja!
O moço! Ali sério esteja,
TENHA MAIS EDUCAÇÃO…
Seu namoro de esticão,
mil censuras tem causado;
não seja tão depravado,
vá com esse desrespeito,
lá p’raquele beco estreito,
RESPEITE O TEMPLO SAGRADO!
Até os Reis, elas praças,
Andariam toda a vida,
Com giz, tesouras e medida,
SE AS MOÇAS VESTISSEM CALÇAS…
Sofrendo embora chalaças
Da gente de mal quilate,
Não oporiam debate
Pois, vendo em calças metidas,
QEM NÃO SERIA ALFAIATE?
Viveu esperando a Morte. “Sei que não verei o Cenário da Pátria”, disse-me. Mas viu. Faleceu um ano depois, a 16 de setembro de 1923. Em outubro teria sessenta e sete anos…
A República, 20 de fevereiro de 1940.
Com informações e imagens extraídas do livro Actas Diurnas – Crônicas de Luís da Câmara Cascudo.
Foto da capa: Acervo Luduvicus – Instituto Câmara Cascudo.
Pesquisa e Edição: Ricardo Tersuliano – Historiador Independente –e-mail: ricardotersuliano@yahoo.com.br – Colaborador do Blog do Cobra
Apoie a preservação da nossa história. Anuncie conosco: (84) 99658-8154.
Gostou deste conteúdo? Siga-nos no Instagran: @blogdocobra_
