A Prisão de Lourival Açucena

Equipe de Redação do Blog do Cobra
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08/07/2025 às
08:42

Henrique Castriciano contou a história em junho de 1907 e repetia no prefácio que escrevi aos “Versos” de Lourival Açucena, editados pelo Instituto Histórico do Rio Grande do Norte em 1927 (p-XV).

Nomeado, em 1885, administrador da Mesa de Rendas de Macau, Lourival, depois de muito capitanear serenatas e festanças, foi acusado de ter dado um desfalque de seiscentos mil réis. Com multas e mais partes, a quantia era de um conto de réis. O capitão desapareceu ante a popularidade do poeta. Na ida e vinda para Macau, o processado era como príncipe em exílio. Toda gente porfiava em amenizar-lhe o “cárcere” e a rudeza da Lei. Condenado a dois meses de prisão, no forte dos Santos Reis, então sob comando do Capitão Manuel Lourenço, veterano do Paraguai e amigo de peito, Lourival teve vida folgada e milagrosa, aceitando as ruidosas visitas de íntimos, com cestas e iguarias e bebidas. Cumprida a pena, deixou-se o condenado ficar mais quinze dias, por sua conta, com saudades do Manuel Lourenço.

Essa história está mal-contada. Ouvi a do prof. Joaquim Lourival, filho do Poeta. Henrique Castriciano, deve ter tido a mesma fonte. O velho Panqueca parece-me enganado em sua memória devotadamente filial. Dizia-me ainda que Lourival Açucena escrevera uns versos ao Manuel Lourenço e recitou duas quadras.

Não sei quando se deu o processo contra Lourival Açucena. Devia ter sido em meados de 1887. Ignoro a duração da pena. Esteve realmente preso

na Fortaleza dos Reis Magos mais de lá saiu a 5 de janeiro de 1888. O comandante da praça era o Capitão Manuel Lourenço da Silva. O poeta, obrigado a deixar a fortaleza justamente na véspera da melhor festa do ano, a festa dos Reis, cuja capelinha estava dentro do forte e atraía multidões de devotos e ondas de violões boêmios, só podia ter viajado com profunda mágoa. Fidalgalmente, em recordação do tratamento recebido, escreveu uns versos e colou-os na porta inferior de um dos quartos do Estado-Maior, onde estivera recolhido. Encontrados e lidos, popularizaram-se imediatamente. O hebdomadário “Gazeta do Natal” publicou-os contando a história, em seu número 110, de 09 de março de 1889. Lourival, possivelmente pela nenhuma penitência de sua prisão na Santos Reis Magos, fora transferido para o Quartel do Corpo de Linha, ficando no Estado-Maior, por ser capitão da Guarda Nacional. E aí, deve ter cumprido a condenação. Se ficou mais quinze dias na fortaleza seria indo para a companhia de Manuel Lourenço. O lugar designado ficara sendo ao que se deduz, o quartel em Natal. Os versos são estes:

O Capitão
Manuel Lourenço
É um herói,
É de Goiana,
Nasceu ali.
Amigo certo
É grande, imenso…
Brilha ao seu lado
Valente espada,
Que defendeu a pátria Amada.
E essa espada
D’altas batalhas
Relampejou
Entre as metralhas
Mostrou na guerra
Fera bravura
Só tem na paz
Honra e ternura!
O varão nobre
Que manda aqui

Franco e leal,
É de finezas
Manacial.
Quem isto escreve
Sabe o que diz,
É um poeta
Preso, infeliz,
Orem por ele
Aos Santos Reis,
Qué exator
Sem ter dez réis!
Também Camões,
Por crime igual
Teve em Macau,
Prisão fatal…

O homenageado foi pessoalmente agradecer a Lourival as quadrinhas encomiásticas.

E qual a história desse Manuel Lourenço da Silva? Pernambucano, pertenceu ao Voluntários da Pátria, fazendo a campanha do Paraguai com distinção pessoal e bravura notória. Capitão honorário do Exército, comandou, durante muitos anos, a Fortaleza dos Reis Magos. Era condecorado com o hábito da Imperial Ordem da Rosa, medalha do Mérito Militar e Campanha do Paraguai, n.º 5. Faleceu em Natal às quatro horas da tarde, de 14 de outubro de 1889.

Tão rico de bondade comunicativa como paupérrimo de moeda cunhada, seus companheiros de guarnição e amigos enterraram-no em subscrição.

Na galeria das figuras esquecidas, nessa visita de saúde, recordo aos nossos olhos displicentes, a figura desse Manuel Lourenço, com suas medalhas, seu riso, seu violão cantando ao luar, entre os focinhos de ferro dos canhões silenciosos, na velha fortaleza…

A República, 30 de novembro de 1939.

Com informações e imagens extraídas do livro Actas Diurnas – Crônicas de Luís da Câmara Cascudo.

Foto da capa: Acervo Luduvicus – Instituto Câmara Cascudo.

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Aladim Potiguar, colaborador do Blog do Cobra.

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