A Morte do Presidente Parrudo

Equipe de Redação do Blog do Cobra
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30/06/2025 às
09:00

Ao pender do sol de 11 de abril de 1838 o Dr. Manuel Ribeiro da Silva Lisboa estava no sítio da passagem, no Barro Vermelho que pertencia a Braz Alvares. Deitado numa rede ampla, S. Excia ouvia o chilrear duma cunha, dessas cor de sapoti, cabeleira de graúna e olhar de brasa assoprada. Quarta-feira Santa, e o Presidente da Província escolhera uma singular contribuição. Do outro lado da cerca, deitados no mata-pasto, três homens olhavam S. Excia. O mais forte, João Nunes, chamado Alfredo Joca, viera da Serra do Pires, em São Bento, emprestado pelo coronel João de Oliveira Mendes, assim como o segundo, escuro e feio, Antonio Coró, antigo soldado de linha. O terceiro, cedido, a curto prazo, pelo brigadeiro Dendé Arcoverde, Cunhaú, era conhecido por Forte do Baraco. Apenas João Nunes estava armado de bacamarte. É o cano que acompanhava as voltas do Presidente Parrudo, na palestra privada. Finalmente a cunha se retirou, dando, sem querer, o sinal. Alfredo Joca premeu o gatilho. Um relâmpago e um estampido, a nuvem de fumo enrolava o peito sangrento do administrador do Rio Grande do Norte. Num segundo, ainda a mão robusta de Parrudo se estirara, tateando o punho da rede, onde dormia uma pistola de dois canos, metida nos coldres. Os dois outros rapazes, Antonio Coró e Forte do Baraco, correram, de faca na mão, para acabar o serviço. Depois, em cavalos de raça desapareceram, sem uma ave-maria de penitência legal.

Trouxeram o corpo para a casa do governo, na Rua da Cruz, vestido com sua farda, cheia de ramos de ouro, enluvado, o chapéu com orla de arminho. Silva Lisboa recebia as visitas, presididas pelo chefe de polícia, sexto vice-presidente, agora em exercício, o Dr. Joaquim Aires de Almeida Freitas, seu conterrâneo, amigo velho. Sepultaram-no na Matriz. O Padre Cândido José Coelho, vigário interino, escreveu o registro. Só choraram duas pessoas, Dona Maria Francisca, a viúva, e o Doutor Barata. Seus amigos, o Dr. Barata, Santaninha que era Juiz de Paz, Antonio José de Moura, ajudante de ordens, Joaquim Romão Seabra de Melo, o Capitão Sarmento, que comandava a Tropa de Linha, José de Castro e Silva, oficial de gabinete do presidente, ignoravam a trama da morte e desconheciam os maiores pecados de Parrudo.

O Presidente Silva Lisboa foi uma energia que o vício sexual dispersa e torna antipática. Trabalhador infatigável, inteligente, vivo como um canário, atirador maravilhoso, esgrimista, sabia fazer tudo e estava pondo a Província nos trilhos financeiros e administrativos. Obrigou muito político importante a cumprir suas obrigações funcionais. Fez justiça. Demitiu mesmos homens que antes faziam. Reviu papéis, cancelou dívidas e fazendo-as pagar, fosse quem fosse. Tinha simpatias e admiradores. A mulher, estando isolou-se da sociedade e foi a melhor explicação para sua fulminante impopularidade. Respeitador da família grave que formara e alta da Cidade, era um amador decidido das mocinhas praieiras, cobrindo-as de presentes. O caso de sua morte, entretanto, não se prendeu às conquistas presidenciais. O coronel Estevão José Barbosa de Moura, membro da Loja Maçônica Sigilo Natalense, foi escolhido para levar a Parrudo, manso também, um conselho d’irmão. Parrudo recebeu Estevão Moura fidalgamente, na sala de jantar da Casa do Governo, hoje Capitania dos Portos. Ouvindo a admoestação, irritou-se esbofeteou o visitante e, segurando-o pela gola, arrastava-o para um móvel onde estava uma arma. Dona Francisca Maria arrebatou Estevão Moura das garras do esposo, empurrou-o na direção da porta, rumo ao grande quintal que dá para o rio, gritando: fugia coronel, que Ribeiro é doido. Estevão correu até a margem, saltou na embarcação que o trouxera de Ferreiro Torto, sua residência, herdada do sogro, e mandou puxar pelos remos na curva do Piriquito avistou Parrudo, de pé, ainda molhado, vindo atrás com a sua perseguição. Metendo-se pelos defluidos dos mangues. Estevão desembarcou e chegou até Ferreiro-Torto. Ali Dona Maria Rosa, ajudando-o a preparar-se para fugir, intimou-o a desonfrentar-se sob pena de suas. Estevão galopou até a Serra do Pires, em São Bento, onde reinava seu compadre João de Oliveira Mendes. De lá voltou vagarosamente, mandando o alférez Joca, com Antônio Coró, avisarem o brigadeiro Dendé Arcoverde em Cunhaú, levando carta de pedido.

Enterrado Parrudo, viajou Dona Francisca Maria. A 1º de julho morria o Doutor Barata. Estevão Moura chegou a Natal e uma das primeiras ordens foi a doação do sítio Cajupiranga a João de Oliveira Mendes, que aí faleceria, doze anos depois.
O Presidente Silva Lisboa continuou sem compensação na história, amaldiçoado na tradição oral, cheio de pechas, agora sem provas. Seus planos, leis interessantes, projetos, ordens, um programa útil e justo para a Província, ficaram inteiramente esquecidos. Só recordamos os vícios. Parece que essa unilateralidade psicológica, não sendo elemento de raciocínio, não é demonstração positiva de virtude.

A República, 17 de dezembro de 1939.

Com informações e imagens extraídas do livro Actas Diurnas – Crônicas de Luís da Câmara Cascudo.

Foto da capa: Acervo Luduvicus – Instituto Câmara Cascudo.

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Aladim Potiguar, colaborador do Blog do Cobra.

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