A Morte da Hamburguesa

Equipe de Redação do Blog do Cobra
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02/07/2025 às
08:57

Ao meio dia de 16 de fevereiro de 1845 foi descoberto, boiando nas águas do Baldo, o cadáver putrefato de Ana Marcelina Clara, a conhecida e popular “Hamburguesa”, simples e boa, orçando os cinquenta anos, grande e gorda.

Vivia, desde 1826, em Natal, na Rua da Aula Pública, depois Aquidaban, hoje João Pessoa, no trecho entre a av. Rio Branco e Vaz Gondim, numa casinha térrea, onde estão os números 124 e 129. Fazia doces e bolos para a venda pública. Todas as madrugadas ia ao Baldo, banhar-se e trazer água para os gastos domésticos. Diziam-na muito rica, dona de um baú cheio de moedas de ouro.

Os rumores e acusações correram. A Cidade inteira tomou conta do assunto. O chefe de polícia, Dr. João Paulo de Miranda, iniciou as diligências, efetuando prisões. Foram presos os soldados Alexandre José Barbosa e João Francisco de Freitas e o sogro de Alexandre, Maximiano da Silva e sua filha, Josefa Maria da Conceição.

Pouco a pouco, interrogatório a interrogatório, a verdade foi aparecendo, esbatida, indecisa, depois nítida e completa.

Na madrugada de 13 de fevereiro, Alexandre abatera a Hamburguesa com uma cacetada, asfixiando-a depois na areia solta do Baldo. Amanhecia, o assassino carregou o corpo, escondendo-o num dos quartinhos de sua casa, nas imediações. À noite, levou-o para debaixo de um cajueiro e foi buscar o sogro, que, ameaçado, ajudou-o a amarrar o cadáver a uns paus e atirá-lo ao Baldo, na noite do mesmo 13.

Na manhã do crime, o menino Antonio José de Souza Caldas, que faleceu quase septuagenário a 16 de dezembro de 1896, contou a toda a gente um sonho que tivera, vendo a Hamburguesa debatendo-se com alguém que a matara.

O júri, a 17 de julho, presidido por José da Costa Pereira, condenou Alexandre à morte, absolvendo os demais acusados.

O réu chorou, ouvindo a leitura da sentença.

Apelada, a Relação de Pernambuco julgou improcedente. O Imperador D. Pedro II, em 29 de setembro de 1846, negou o recurso da graça. O Presidente da Província, Casimiro José de Morais Sarmento, deu o despacho da lei: cumpra-se e arquive-se.

O juiz de direito, Dr. Cláudio Manuel de Castro oficiou, ao juiz municipal mandando que cumprisse a lei. Marcou este a data da execução.

Na madrugada de 31 de outubro de 1846, Alexandre José Barbosa, confessou-se e comungou, assistido pelo Padre Joaquim Francisco de Vasconcelos que o acompanhou sempre. Seguido pelo povo e escolta militar, algemado, corda ao pescoço, percorreu as ruas mais públicas do Natal, até o patíbulo, onde a forca estava armada, mais ou menos onde está o Mercado Público da Cidade Alta.

Servia de carrasco o preso Francisco Lourenço Cabral. Alexandre bebeu o vinho que davam aos condenados pediu uma “Salve Rainha” aos assistentes, pedindo uma boa passagem para o outro mundo.

Passaram-lhe a corda ao pescoço e o carrasco empurrou-o para fora do tablado, puxando-lhe as pernas, apressando a morte por estrangulação.

Às nove horas da manhã tudo acabara. O corpo foi enterrado na Igreja do Rosário.

H. Castriciano escreveu um ensaio completo, narrando o processo, na revista do Instituto Histórico, vol.V, no 2, 1907.

Esse foi o crime da Hamburguesa. O assassino encontrara apenas, uns dois anéis, moedinhas de prata e um ou outro patacão de ouro. Pagou com a vida.

A República, 25 de abril de 1943.

Com informações e imagens extraídas do livro Actas Diurnas – Crônicas de Luís da Câmara Cascudo.

Foto da capa: Acervo Luduvicus – Instituto Câmara Cascudo.

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Aladim Potiguar, colaborador do Blog do Cobra.

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