A genealogia parcial de Jerônimo de Albuquerque.

Equipe de Redação do Blog do Cobra
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17/07/2026 às
17:46

Poucas famílias exerceram influência tão profunda na formação histórica, política, econômica e social do Rio Grande do Norte quanto a família Albuquerque. Sua trajetória no estado teve início ainda no período da conquista portuguesa, no final do século XVI, quando a Coroa Portuguesa intensificou o processo de ocupação do litoral norte do Brasil para assegurar o domínio do território diante das constantes investidas francesas e das alianças destes com diversos grupos indígenas.

O tronco da família no Rio Grande do Norte tem origem em Jerônimo de Albuquerque Maranhão, um dos principais líderes militares e colonizadores portugueses do Nordeste. Descendente da tradicional e nobre família Albuquerque, de Portugal, Jerônimo pertencia a uma linhagem que, desde a Idade Média, prestava relevantes serviços à Coroa portuguesa. Era também sobrinho de Jerônimo de Albuquerque, o Velho, conhecido na historiografia como “Adão Pernambucano”, personagem considerado um dos grandes responsáveis pela consolidação da Capitania de Pernambuco.

No contexto da expansão portuguesa pelo litoral setentrional da América Portuguesa, Jerônimo de Albuquerque participou ativamente das campanhas militares que culminaram na conquista definitiva da Capitania do Rio Grande. Ao lado do capitão-mor Manuel de Mascarenhas Homem e do engenheiro militar Francisco de Frias da Mesquita, colaborou na construção da Fortaleza dos Reis Magos, iniciada em 1598, marco fundamental da ocupação portuguesa na região.

No ano seguinte, em 25 de dezembro de 1599, foi fundada a cidade de Natal, que passou a servir como centro administrativo da nova capitania. A partir desse momento, Jerônimo de Albuquerque desempenhou papel decisivo na organização política, militar e econômica do território recém-conquistado, promovendo o povoamento, incentivando a agricultura e estabelecendo relações estratégicas com diferentes grupos indígenas aliados aos portugueses.

Como reconhecimento pelos relevantes serviços prestados à Coroa, Jerônimo recebeu vastas concessões de terras por meio do sistema de sesmarias, instrumento utilizado pelo governo português para estimular a ocupação e o aproveitamento econômico do território. Entre essas propriedades destacavam-se as férteis terras de Cunhaú, localizadas no atual município de Canguaretama, onde foi implantado um dos mais importantes engenhos de açúcar da Capitania do Rio Grande.

Foi justamente a partir dessas terras que nasceu a célebre Casa de Cunhaú, núcleo patrimonial que se transformaria no principal centro de poder da família Albuquerque Maranhão durante os séculos XVII e XVIII. Seus proprietários passaram a ser conhecidos como Senhores Hereditários da Casa de Cunhaú, transmitindo de geração em geração não apenas o patrimônio rural, mas também prestígio político, influência econômica e posição de liderança na sociedade colonial.

Ao longo dos séculos seguintes, os descendentes de Jerônimo consolidaram uma extensa rede de alianças familiares por meio de casamentos com outras importantes linhagens da aristocracia rural nordestina, entre elas os Maranhão, Arcoverde, Pinheiro, Melo, Barbosa, Cavalcanti, Pereira e diversas outras famílias tradicionais. Essas uniões ampliaram significativamente a influência dos Albuquerque em toda a Capitania do Rio Grande e também em Pernambuco e Paraíba.

Durante o período colonial, os Albuquerque ocuparam cargos militares, administrativos e religiosos, administraram engenhos, fazendas e propriedades rurais, participaram da defesa do território contra invasões estrangeiras e exerceram forte protagonismo na economia açucareira, principal atividade econômica da região na época.

Entre os descendentes mais notáveis destaca-se André de Albuquerque Maranhão, considerado um dos maiores nomes da história potiguar. Senhor Hereditário da Casa de Cunhaú, tornou-se líder da Revolução Pernambucana de 1817 no Rio Grande do Norte, assumindo o governo da capitania durante o movimento republicano. Sua atuação em defesa dos ideais de liberdade e autonomia transformou-o em um dos mártires da história política brasileira, sendo reverenciado até hoje como um dos grandes heróis do Rio Grande do Norte.

Outro importante ramo da família deu origem ao estadista Pedro Velho de Albuquerque Maranhão, líder da implantação da República no estado, fundador do Partido Republicano Federal no Rio Grande do Norte e primeiro governador republicano potiguar. Sua atuação consolidou a permanência da influência política da família já no período republicano, demonstrando a continuidade de seu protagonismo ao longo de mais de três séculos.

A descendência dos Albuquerque espalhou-se por praticamente todo o território potiguar, originando inúmeros ramos familiares que ainda hoje preservam vínculos genealógicos com o fundador da Casa de Cunhaú. Muitas das tradicionais famílias do Rio Grande do Norte possuem, em maior ou menor grau, ascendência proveniente desse antigo tronco, resultado das sucessivas alianças matrimoniais estabelecidas desde o período colonial.

Os estudos genealógicos desenvolvidos por pesquisadores como Paulo Fernando de Albuquerque Maranhão têm permitido reconstruir parte dessa extensa árvore familiar, revelando uma sucessão de gerações que atravessaram os períodos colonial, imperial e republicano. Esses levantamentos demonstram que a história da família Albuquerque não se restringe à genealogia de uma única linhagem, mas se confunde com a própria formação histórica do Rio Grande do Norte.

Assim, compreender a origem da família Albuquerque significa também compreender a ocupação do território potiguar, a implantação da economia açucareira, a organização das primeiras estruturas administrativas da capitania e o surgimento de uma elite rural que exerceu influência decisiva nos destinos do estado durante mais de quatro séculos. A trajetória dessa família permanece como um dos capítulos mais importantes da história do Rio Grande do Norte e da colonização portuguesa no Nordeste brasileiro.

Com informações:

CASCUDO, Luís da Câmara. História do Rio Grande do Norte. 2. ed. Natal: Fundação José Augusto.

CASCUDO, Luís da Câmara. A casa Cunhaú.

CASCUDO, Luís da Câmara. Nomes da Terra. Natal: Fundação José Augusto.

MONTEIRO, Denise Mattos. Introdução à História do Rio Grande do Norte. Natal: EDUFRN.

LYRA, Augusto Tavares de. História do Rio Grande do Norte. Natal.

MEDEIROS FILHO, Olavo de. Capítulos de História Colonial do Rio Grande do Norte. Natal.

MARANHÃO, Paulo Fernando de Albuquerque. Obra inédita sobre a genealogia da família Albuquerque Maranhão (2008).

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