O Jumento ameaçado de Extinção

Equipe de Redação do Blog do Cobra
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03/04/2025 às
08:59

Não há registros históricos precisos sobre a origem dos jumentos.
Existe uma versão, a mais aceita, de que os jegues nordestinos têm sua ascendência dos norte-africanos.
A verdade é que no descobrimento do Brasil do foram encontrados jumentos nas suas terras. Há hipótese de que a primeira vinda deles tenha sido realizada por Martin Afonso de Souza em 1534, transportando-os das Ilhas da Madeira e das Canarias para São Vicente. Depois, em 1549, Tomé de Souza trouxe jumentos de Cabo Verde para a Bahia.
Há hipótese, também, de que no período colonial ocorreu a entrada de jegues espanhóis e africanos no Brasil. No final do século XIX, vieram da Europa alguns exemplares.
Já nos primeiros quinze anos do século XX, foram realizadas importações de jumentos italianos e espanhóis pelos imigrantes e Ministério da Agricultura do Brasil.
Afirmam que, no tempo de D. João VI, os jumentos introduzidos aqui no Brasil, vindos do Egito diretamente ou via Abissínia, deram origem ao nosso pêga de hoje
Quanto à introdução do jegue, no território do Rio Grande do Norte, não existe registro histórico preciso. Há um artigo, publicado num jornal de Mossoró, falando sobre o primeiro jumento que chegou àquelas bandas do Rio Grande do Norte. É uma estória engraçada que vale a penas se contar na integra do seu artigo.

O PRIMEIRO JUMENTO DA VÁRZEA DE MOSSORÓ
José Adem Estigarriga Menescal

“No século passado, era proprietário de um vasto terreno na Quixaba, Manoel João da Silveira, que, segundo a tradição, todos os anos, pelo mês de Santana, só de potros, na sua fazenda, recentemente nascidos, contava mais de cem. Como possuía extenso carnaubal, tornou-se também fabricante de velas de cera de carnaúba, indústria infelizmente aqui hoje desaparecida. Anualmente, ia vender as velas no Piauí comprar rapadura, açúcar, etc. Em 1829, regressava ele com seu comboio de bestas carregadas, trazendo um grande e bonito jumento que comprara por cinco patacas a um fazendeiro piauiense. O animal causou admiração e espanto, aos parentes e aos vizinhos que vinham visitá-lo.
Naquele dia de chegada, já ao entardecer, o jumento é peado, em um cercado. Talvez saudoso da sua terra natal, o jumento passou a noite rinchando. No dia seguinte, a vizinhança em peso vem perguntar que bicho era aquele que lhes tirara o sono durante a noite. E a estória do jumento espalhou-se e se fez centro de turismo a fazenda de Manoel
João da Silveira. Foram vê-lo mossoroenses de até dez léguas de distância. E muitos só se retiravam depois de ouvir o “grito” do jumento, como diziam, os varzeanos perderam o terror pelo bom do asinino e já o viam com mais naturalidade.
Casimiro Carlos da Silveira, (filho de Carlos Magno da Silveira, o “herói” que foi a Minas Gerais no cavalo Vira Mundo), tocador de rabeca, que regressava alta noite de um baile, despreocupadamente, e vinha cantando os versos de sua composição:

Ontem à noite fiz um roubo
Deus me queira perdoar
Roubei a filha do coxo,
Para com ela me casar.

Pois realmente na noite anterior raptara Camila, filha de Manoel Bezerra de Morais que era realmente coxo, ouve assombrado, apavorado mesmo, o rincho do jumento e ei-lo que joga a rabeca de lado e sobe rapidamente em uma carnaubeira. Ali, na esquisita postura, foram encontrá-lo algumas pessoas que passavam pelo local.
Foi desta maneira, entre admirados e até assombrados que os varzeanos de Mossoró tomaram contato com o primeiro exemplar da espécie asinina que chegou às nossas plagas, nos idos de 1829″.

A IMPORTÂNCIA ECONÔMICA DO JUMENTO

Faço questão de abrir o assunto sobre a importância econômica do jumento, citando um texto do Padre Antônio Vieira, do livro “O jumento, Nosso Irmão”, uma das obras mais completas que li sobre asinino. Ele diz: “Atualmente, o ponto alto, para onde confluem os interesses da criação de animais, está no seu rendimento econômico. Na criação de bois para produção de carne ou no seu rendimento produtivo como animal- máquina, transporte e tração. Para tanto se têm orientado a zootecnia, na melhoria desses animais pela seleção, pela alimentação e outros processos científicos. No entanto, nesses cuidados, o jumento, de certo mais útil economicamente, tem sido esquecido desprezado, sobretudo por ser um animal proletário e porque lhe pesa o fardo universal do desprezo”.
Desnecessário algum comentário sobre a correta e justa afirmação do Padre Vieira, este nordestino de alta visão humanitária.
No nordeste, o jumento é utilizado mais como cargueiro e pouco como montaria. Em outros países os jegues são utilizados para os mesmos trabalhos do cavalo e do muar, como montaria, carga e tração. Além desses grandes serviços prestados ao homem, ele tem a aptidão de se hibridar com a égua, gerando o muar (o burro e a mula), que presta valiosos trabalhos nas regiões tropicais, substituindo o cavalo pelo seu porte e sua resistência orgânica.
O Padre Antônio Vieira, querendo mostrar a superioridade do jumento sobre as próprias máquinas, apresenta as seguintes vantagens dele:

1- adaptação a terrenos íngremes e irregulares;
2- dispensa de material de consumo, de peças sobressalentes, de
combustíveis, técnicas etc.;
3- fácil manejo: até as crianças podem conduzir esses animais que, quando exercitados, executam sozinhos os serviços em que foram acostumados;
4-fabricação de estercol que serve de adubos aos terrenos;
5- não comprime o terreno com o peso;
6- refaz-se naturalmente e com facilidade”.

Vale dizer, também, que o jumento comparado com outros animais domésticos, apresenta maior resistência às moléstias e pragas. É um animal que deu, também, sua grande contribuição ao nordeste na construção de açudes.
“A carne do jumento tem fama de ser uma das melhores, superando a do cavalo. Nos últimos anos, no nordeste, grande quantidade de jegues tem sido abatida para a exportação de carne. Se esta matança continuar indiscriminadamente, a população rural nordestina corre o risco de- ficar sem o meio de transporte mais barato de que dispõe e que não requer cuidados especiais e onerosos. Vêm contribuindo para a diminuição da população de jumentos os abatedores-frigoríficos de equídeos com exportação de sua carne”.
Segundo dados da Associação Brasileira de Criadores de Jumento Nordestino, os nossos cavalos, jumentos e burros do Nordeste, entre 1967 a 1983, diminuíram, aproximadamente, setenta por cento. E a causa principal dessa redução residiu no abate de milhões de animais, machos e fêmeas, na sua maioria com enorme capacidade, ainda, de reprodução.
Ainda as estatísticas da ABCJN afirmam que, entre 1972 e 1983, no Nordeste, o abate foi mais de dois milhões e duzentos mil cavalos, burros e jumentos.
Se não fossem as providências da ABCJN com o apoio de outras Entidades da área e do governo, provavelmente, o jumento estaria, hoje, em vias de extinção.
Vale aqui ressaltar que, o professor Fernando Viana Nobre, da Universidade Federal do Rio Grande do Norte, foi o primeiro técnico a desfraldar a bandeira em defesa do nosso jumento, arregimentando forças junto ao Ministério da Agricultura, Secretaria da Agricultura do Estado, Emater, Emparn e outros órgãos, visando apoio para impedir essa matança indiscriminada dos jegues.
Essa campanha, do professor Fernando, começou em 1979, quando ele viajando, entre o Estado do Rio Grande do Norte e Paraíba, encontrava inúmeras carretas, nas rodovias, transportando jumentos, cavalo e muares, o que lhe despertou a curiosidade e conversando com um motorista de uma dessas carretas, obteve informações de que aqueles animais eram destinados às fábricas de charqueados.
Segundo a afirmação do professor, a partir de 1980, com a criação da Associação Brasileira de Criadores do jumento Nordestino, sediada em Natal/RN, foi intensificada a luta em favor da preservação dos asininos, equídeos e muares. E com a ação dessa Entidade foi reduzido, nitidamente, o abate indiscriminado dessas espécies.

Com informações livro: Evolução Econômica do Rio Grande do Norte – (Do Século XVI ao Século XX) – Paulo Pereira dos Santos
Foto: Canindé Soares
Aladim Potiguar – Colaborador do Blog do Cobra.

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