1940 – Uma noite junina em Natal

Equipe de Redação do Blog do Cobra
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17/06/2025 às
12:31

A vitrola emitia um som fraco e antigo que, de tão baixo, dava para ouvir até a agulha riscando o disco de vinil. As cantigas de roda ele sabia de cor. Mas, mesmo assim, gostava de ouvi-las.

Em cima da mesa, uma garrafa de uísque quase seca. Com o copo na mão, ele olhava para o vazio, sem rumo, à procura de nada. O rosto inchado, com os olhos vermelhos e o nariz congestionado pelo álcool, parecia ter crescido. Os cabelos desalinhados e a camisa desbotada deixavam visível o seu estado de embriaguez.

Sabia que aquela noite estava apenas começando pelos traques, rojões e busca-pés que soltavam nas ruas. Nas portas das casas, as fogueiras já ardiam. Dizia uma velha tradição que, em casa onde não se acendia fogueira, era uma casa onde o diabo ia dançar o ano todo. Por isso, a cidade ficava estrelada de fogueiras.

Tinha o costumeiro hábito de beliscar e puxar a pele solta sob o queixo. Coisa de velho, como gostava de dizer aos amigos.

O uísque estava quase acabando, teria que ir até a Ribeira, na Confeitaria Delícia, providenciar outra garrafa para o restante da noite, que seria longa. Já dentro do carro, com a cabeça apoiada no volante, escutava com orgulho o barulho do motor. Motorzão!pensou.

No dia anterior, o Packard havia sido lavado e polido, como fazia semanalmente. Chuviscava, como quase toda véspera do São João em Natal mas, mesmo assim, mantinha a capota de lona do veículo arriada. Carro esporte, isso sim! Lembrou das palavras do vendedor, que insistia que o carro era conversível. O comportamento do carro era o de um esportivo na época. Também pudera… Motorzão V-8!

Na primeira vez que viu o Packard, nem teve dúvidas em se desfazer do velho Oldsmobile. Levantou a testa do volante e pôs a mão esquerda nele, enquanto a mão direita tentava engatar a primeira marcha, sem sucesso. Por isso que nunca gostara de carro com alavanca royal. Moda dos americanos… pensou.

O carro, em marcha, deu um pequeno salto à frente e, num instante, já deslizava suave na terceira marcha. Devagar… bem devagar, dizia para si mesmo.

Na Cordeiro de Farias, a caminho da Ribeira, o único veículo que estava circulando ali era o seu automóvel. Em 1940, apesar da população crescente, Natal não dispunha de mais do que duas ou três centenas de automóveis particulares, que mais ficavam nas garagens pelo racionamento de gasolina, imposto pela guerra.

As lanternas coloridas, suspensas nas fachadas das casas, embelezavam as ruas, junto às fogueiras, presentes em várias residências. A cidade estava alegre. Alguns garotos soltavam chuvas de prata, vulcões e rodinhas chinesas nas ruas, os busca-pés já eram proibidos em Natal. Os balões já eram mal vistos nessa época, pois eram perigosos à cidade, pelo risco de causarem incêndios.

Quando estacionou na Ribeira, todos os olhares se voltaram para ele. Com certeza, seria pelo carro novo! Quase em frente à confeitaria, na fachada do Polytheama, entre vários cartazes de Cinédia, um outro do cowboy John Wayne, que, com certeza, beberia seu uísque, após a luta com os Comanches — ao lado da Rua Chile, o Rio Potengi se espreguiçava no seu leito.

Desceu do carro meio trôpego, sentou e logo recebido por amigos que o conduziram à sua mesa preferida, no fundo da Confeitaria Delícia. Lá encontrou outros amigos que tomavam Black & White descontraídos e alegres.

Limitou-se a tomar apenas um guaraná, pois de lá seguiria até a Rua Borborema, onde as festas juninas prometiam ser bem animadas, a exemplo das tradições avoengas. As quadrilhas, marcadas em francês, as mazurcas, as valsas, os “shottishs”, e quando a música parava cantavam-se rodas, as ingênuas rodas do passado, como aquela que dizia: “a maré encheu, a maré vazou, a maré já deu passagem, eu vou ver o meu amor…”

Nesse ano, não demoraria na Borborema, pois logo mais seria realizado no Centro Esportivo Feminino o “São João na Roça”, uma das primeiras quadrilhas organizadas de Natal, onde as senhoras e senhoritas, com trajes de chita e vestidas de matuta, divertiam-se com os seus pares. Não iria perder essa festa.

Tirou do balde uma pedra de gelo para passar na testa. Quando bebia uma maldita dor de cabeça nunca o deixava em paz, mas não iria permitir que estragasse aquela noite junina.

Com informações livro: Antiqualha – Elísio Augusto de Medeiros e Silva.

Foto: Canindé Soares

Ana Carolina Tersuliano – Diretora do Blog do Cobra.

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Comentários

Respostas de 4

  1. Muito interessante seu interesse em nos relembrar momentos históricos e culturais do nosso estado.

  2. Parabéns meu amigo Cobra, nosso maior patrimônio é a nossa cultura e a nossa História, o seu trabalho está sendo muito importante para todos nós que temos orgulho de pertencer a essa terra tão linda e encantadora !!!

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