Os Busca-Pés

Ana Tersuliano
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14/09/2025 às
18:50

Antigamente, na época dos festejos juninos, o busca-pé era considerado inimigo público, e logo as autoridades trataram de fazer campanha intensa contra ele.

O busca-pé era um pequeno cilindro de papelão grosso carregado de pólvora, dotado de um orifício de escape e uma vareta estabilizadora. Deslocava-se velozmente no chão, girava e serpenteava. Chegou ao Brasil trazido pelos portugueses e espanhóis. Em Portugal, o nosso foguete rasteiro era chamado de bicha de rabear, e na Espanha de buscapie.

Em 13 de julho de 1830, a Câmara Municipal proibiu “os foguetes soltos a que vulgarmente se chama busca-pé que só tem por fim queimar as roupas, pessoas dentro da Ribeira, cidade ou povoados, seja a festividade que for”.

O busca-pé espalhou pavor na população, terror nas beatas da igreja matriz, inimigo do pudor feminino, atrapalhando namoros respeitáveis, pondo fiéis devotos em pânico e tirando a compostura de muita gente circunspecta.

Ninguém podia permanecer parado assistindo a uma festa religiosa quando passava um busca-pé chiando, estalando, queimando e soltando fogo no chão aos pés do cidadão.

No caso das mulheres era um verdadeiro desastre. Algumas, ao escutarem o pipocar inicial, fugiam espavoridas, gritando, e o fogo acompanhava o rastro deixado invisivelmente pelo deslocamento do ar que o atraía, e fazia-lhe perseguir a vítima, que gritava cada vez mais e levantava a saia, o que provocava gritaria e algazarra dos presentes,

Na Cidade Alta, segundo Cascudo, dois velhos becos ficaram famosos por causa dos incidentes com busca-pés. O primeiro entre a Catedral e o Instituto Histórico, o segundo à esquerda da Delegacia Fiscal, ambos situados na Rua Grande, largo da matriz ou Praça André de Albuquerque, atual – próximo à Travessa do Tesouro.

Ali eram comuns as correrias e os barulhos causados pelos busca-pés nas festas juninas, o que deixava todos em alerta quando por ali tinham que passar no mês de junho. Naquele mês de São João, os meninos traquinas adoravam soltar os busca-pés nos transeuntes para vê-los correrem apavorados.

Às vezes, numa casa de família, o ritmo da quadrilha era interrompido pelo aparecimento de um busca-pé, o que provocava gritos, protestos, reclamações e uma interrupção da festa.

Alguns confeccionavam o busca-pé com técnicas próprias, aumentando o seu tamanho e potência para que tivessem um percurso maior e, logicamente, causassem mais pânico.

Mesmo proibido pela Câmara Municipal, o busca-pé surgia todos os anos violento e, como sempre, causador de pânico nas noites de festas juninas.

Consta na tradição oral que, numa véspera de São João, em 1817, o presidente Passos vinha a cavalo da Ribeira para a Cidade Alta quando um busca-pé riscou debaixo das patas do cavalo, que ficou assustado.

O cavalo disparou e o presidente Passos, embora exímio cavaleiro, não pôde conter o animal, que disparou ladeira acima até a Rua Grande, onde as fogueiras detiveram o sobressaltado animal.

Apesar do susto, o presidente foi um dos mais animados naquela noite de festejos juninos, entretanto, apesar dos seus esforços, não conseguiu identificar quem soltara o terrível busca-pé.

De outra feita, o padre Antônio Francisco Areias fazia uma prática na capela da Igreja do Bom Jesus na Ribeira. Era uma noite de novena, e um garoto soltou um busca-pé dentro da Santa Casa.

O padre interrompeu imediatamente seu sermão e correu atrás do menino que soltara o fogo de tiro. Conseguiu pegá-lo na Tatajubeira, esquina da Rua Frei Miguelinho, deu-lhe uns safanões e tremenda bronca, depois voltou para a igreja para terminar o que interrompera.

No folclore mineiro existe uma antiga modinha que faz alusão ao busca-pé:

“Solta o busca-pé

Eu quero ver

Correr muié

Sá Mariquinha

Com Seu José

A professora

Com o Coroné

A Xandoquinha

Com o Zé Mané

E eu atrás vou soltando busca-pé!”.

E ainda hoje, embora raramente, temos notícias de busca-pés nos períodos de festas juninas.

Com informações e imagem livro: Antiqualha – Elísio Augusto de Medeiros e Silva.

Pesquisa, edição e notas pedagógicas: Ricardo Tersuliano – Historiador Independente – e-mail: ricardotersuliano.iaphacc@gmail.com – Colaborador do Blog do Cobra.

Foto: Wikipédia – Reprodução/Internet.

Notas Pedagógicas:

Busca-pé:

O busca-pé (também conhecido como cometinha, apito com vara ou foguetinho de vara) é um tipo de fogo de artificio similar a um foguete de vara, porém em um tamanho reduzido. São muito comuns devido ao seu preço e efeitos variados como apitos, rastros traçantes, tiro ou crackling, também existem variedades de busca-pés sem vara, que consistem em tubos que soltam fagulhas e são muito utilizados nas guerras de espada na região nordeste do Brasil.

O termo busca-pé surgiu devido a muitos destes foguetes serem soltos no chão, voando entre os pés das pessoas em festas populares, uma tradição típica principalmente em festas juninas.

Tatajubeira:

“Tatajubeira” não aparece como um termo comum em pesquisas e pode ser um erro de digitação ou uma palavra local/regional. É possível que esteja a referir-se a “Miriti” ou “Buriti”, uma palmeira da Amazônia usada para fazer brinquedos e fonte de alimento, ou outra planta e cultura paraense.

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