Município de Papary

Ana Tersuliano
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13/09/2025 às
11:22

A LENDA DE ESTEVÃO RIBEIRO

No município de Papary há uma povoação denominada BARRA, ou BARRA DE TABATINGA, comumente chamada BARRA DE ESTEVÃO RIBEIRO. Fica pouco mais de três léguas a leste da cidade.

A explicação do topônimo será dupla. Estevão Ribeiro era o primitivo sesmeiro da região ou fundara o arraial, sendo o maior proprietário, conhecido e respeitado. Nada disso, curiosamente, consta no lugar. Dizem que o homem, relativamente pobre, alcançou notoriedade por uma ação criminosa, sensacional, vinda, de lembrança em lembrança, até nossos dias. Ninguém, entre os velhos moradores que, como o OLLAM dos celtas, guardam a reminiscência dos episódios que foram vividos e jamais registrados, recorda o nome da vítima e detalhes do sucesso. Todos, entretanto, afirmam a responsabilidade de Estevão Ribeiro como único e vitorioso matador.

Que fato seria esse? Contam que Estevão Ribeiro, então morador de Piripiri (Macaíba), procurara um governador para queixar- se e fora recebido brutalmente. Deliberara vingar-se e, deixando a casa do Governo, em Natal, viera contando os passos até o patamar da Igreja Matriz. Contou cem passos. Adquiriu uma espingarda que provara atingir mais de cem passos, com absoluta segurança. Carregou-a até a boca, viajou para Natal, deitou-se no mata-pasto, diante da residência do Governador, aguardando a noite. Logo às primeiras horas de treva, o Governador saiu e Estevão Ribeiro disparou-lhe a carga de sua arma. Crivado de ferimentos, o Governador morreu dias depois. Estevão fugiu imediatamente indo para Piripiri e daí para Papary, comprando o sítio a quem legou o nome e lenda. Nunca fora incomodado pela Justiça porque o Governador era odiado. A espingarda durou mais de cem anos, de mão em mão, mostrada secretamente como relíquia.

Que haverá de real nessa tradição? Houve na história do Rio Grande do Norte, acontecimento que justificasse a conservação dessa lenda? Houve. E ninguém sabia o nome do matador. A vítima foi o capitão-mor Luiz Ferreira Freire, Governador da Capitania. Feriram-no na noite de 22 de fevereiro de 1722, domingo. Morreu no dia 28. Esse Ferreira Freire, turbulento e agressivo, deu nascimento a uma fase intensa de barulhos em Natal. Indisposto com meia-cidade, respondia violentamente à sua crescente impopularidade. Cherchez la femme na explicação de sua morte. O capitão-mor, casado, com a mulher em Lisboa, apaixonou-se por uma moça de Natal, filha do tenente-coronel Mateus Rodrigues de Sá, dono de sítios e fazendas, casas e rebanhos. Como a sociedade se afastasse do casal, Ferreira Freire ficou sem ter quem o servisse. Nem um escravo. Decidiu, em sua lógica de tarimbeiro, arranjar uma serva à força. Mandou buscar uma escrava na casa de Manuel de Melo de Albuquerque, vereador do Senado da Câmara. O vereador reclamou ante o Ouvidor Geral, dr. Francisco Pereira, que mandou o Governador devolver a negra. Ferreira Freire ameaçou atravessar o primeiro oficial de justiça que lhe fosse intimar do despacho. O vereador requereu ao Ouvidor Geral novo, dr. Manuel da Fonseca e Silva. E veio, do Recife, ordem para o Juiz Ordinário, Domingos d’Azevedo do Vale, apreender a escrava e entregá-la ao seu legítimo senhor o que foi feito. Ferreira Freire deu um golpe de fera. Com soldados armados cercou a residência do vereador, onde a escrava restituída estava, retomou-a. E prendeu o próprio vereador, na casa escura da Fortaleza. O Senado da Câmara protestou, inteiro e coeso, para o Governador de Pernambuco que mandou libertar o vereador, diretamente, ordenando ao comandante da Fortaleza, capitão Mateus Mendes Pereira, sem ouvir o Governador local.

Tudo se passara entre novembro e dezembro de 1721. Começando 1722 a família Rodrigues de Sá intimou o capitão-mor a resolver sua situação doméstica, com a moça raptada, teúda e manteúda. Ferreira Freire negara ser casado e prometera, na forma do costume, reparar o erro. Quando o tenente-coronel Mateus Rodrigues de Sá levou a pergunta definitiva, Freire desenganou-o de levar a filha ao altar. E pôs o velho para fora, bestialmente. Diga-se ainda, que o vereador Manuel de Melo Albuquerque era parente próximo dos Rodrigues de Sá.

Gonçalves Dias, que esteve em Natal estudando papel velho na segunda metade do século XIX, comentando esse episódio, assim termina sua nota: – “Conta-se que o velho pai da moça raptada, indo queixar-se ao capitão-mor, e pedir que lhe fosse restituída a filha, sofrera no palácio nova injúria do próprio capitão-mor, que o mandara retirar de sua presença, ameaçando-o de mais severo procedimento, se persistisse em suas queixas. Não se sabe se nesta ocasião chegara a esbofetear. Saiu o velho do palácio da cidade, sentindo ao mesmo tempo da não reparação do agravo antigo e da recente violência de que era vítima indefesa: os filhos que vinham para a cidade o encontraram no caminho, lastimando-se e chorando, e lhe prometeram vingança. Algum tempo depois morto o capitão-mor e a arma com que se cometeu o assassínio, ainda hoje (dizem) se conserva entre os membros daquela família, que residem em Piripiri”. (GONÇALVES DIAS). “Catálogo dos Capitães-Mores e Governadores do Rio Grande do Norte”, pág. 39/40.

Não me parece que Estevão Ribeiro fosse aparentado com os Rodrigues de Sá. Creio que há de ter desempenhado o papel de foreiro em suas terras e, concomitantemente, homem de confiança para desafrontar a honra privada da família a que pertenceria pelos liames do trabalho e auxílio mútuos.

Essa é a lenda de Estevão Ribeiro, agora contada em seus detalhes de tragédia comum…

Com informações: O Livro das Velhas Figuras – Luís da Câmara Cascudo.

Pesquisa e edição: Ricardo Tersuliano – Historiador Independente – e-mail: ricardotersuliano.iaphacc@gmail.com – Colaborador do Blog do Cobra.

Foto: Clarissa Bezerra

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