Casa de Guarapes

Ana Tersuliano
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09/09/2025 às
09:00

Fabricio Gomes Pedrosa, pernambucano de Nazaré, em princípios de 1847 estava em Natal, onde perdeu, a 29 de setembro, sua mulher, D. Ana da Silva de Vasconcelos. Em Natal morreriam mais duas esposas suas. Em 3 de julho de 1857, D. Damiana Maria Pedrosa e, a 20 de janeiro de 1910, D. Luiza Florinda Pedrosa, com 80 anos, viúva do “senhor de Guarapes”. Nos arredores da cidade sonolenta, Fabricio Pedrosa ambientou um dos mais avassalantes e prestigiosos domínios comerciais de que há notícia no Rio Grande do Norte.

Pequeno comerciante, comprando ali e vendendo além. “feirante” como dizem em Portugal, mascate, na terminologia de outrora, andou escolhendo onde assentar sua casa, como uma águia procura ninho para as conquistas das serras ao redor. Fixou-se no Coité. O rio Jundiaí, subindo nas marés, coleava, riscando a terra convidativa. Era a boca da picada que levava ao sertão, o início dos “comboios”, a estação de pausa de quem demandava o litoral, especialmente buscando o sal. Fabrício construiu armazéns de taipa, beirando o Jundiaí. E um casebre para morar. Aí começa a história do Coité nas crônicas sociais da Província. Vila em 1879, Comarca em 1882, Freguesia em 1883. Cidade em 1889, Macaíba contará sua existência da vinda desse Fabrício, numa hégira comercial e vitoriosa. De Coité, que seria a Cidade de Macaíba, Fabricio irradiou a energia irresistível para todos os quadrantes. Monopolizador do sal para o sertão, distribuidor de fazendas, animou a indústria açucareira do Vale do Ceará-Mirim, modificando o processo de fabricação, graças as observações em Pernambuco. Principia o financiamento da produção adquirindo em condições únicas as safras. A volta de 1861 é o mais rico, o mais poderoso, o mais influente negociante. Para sua casa descem milhares de cargas de algodão, sacos de açúcar, couros, peles, curiosidades. Populariza as primeiras “faturas”, os primeiros “conta correntes” para o sertão, mandando “boletins de saldo”, divulgando as novidades” da escrituração.

Seu grande auxiliar é Amaro Barreto de Albuquerque Maranhão, também pernambucano de Nazaré, casado em Natal, a 9 de dezembro de 1851, com D. Feliciana Maria da Silva Pedrosa, filha do “velho” Fabricio.

Coité, pertencendo ainda ao Município de São Gonçalo, pertence politicamente a família Moura. Os Teixeira de Moura, filhos e netos de Estevão José Barbosa de Moura, são, tradicionalmente e chefes natos da zona inteira. Não é possível dois soberanos no mesmo trono. Fabricio está rico, forte, imperioso, resoluto. Monta a cavalo e passeia, vistoriando a sede da futura praça de guerra. Agrada-o “Mangabeira”, dos Souza. Ia entabulando compra quando lhe disseram que os Mouras estavam em questão” com limites confusos. Não quero tais vizinhos, resmunga seu Fabricio. Veio vindo, olhando, parando, sonhando. Encontrou Guarapes, a colina solitária coberta de árvores, a curva doce do rio, amplo, igual, tranquilo. Fundou a “Casa de Guarapes”. Embaixo, margeando, a fila dos armazéns bojudos que tudo guardavam e vendiam. Em cima, os escritórios almoxarifados, a Capela, a escola, o quartel-general da ação.

Sob o comando de Fabricio Gomes Pedrosa, Guarapes era o centro comercial de repercussão, de conhecimento, de fama e poder. De 1869 a 1870, mais de vinte navios vem, em viagem direta, da Europa a Guarapes, carregar. Natal, Capital da Província, nesse período recebeu, apenas vinte e um navios. Embarcações de 500 e mais toneladas fundeavam naquela curva silenciosa, apenas abrigando hoje a passagem de canoas pequeninas e barcaças anônimas. Tudo era rumor, vida, agitação, interesse, atividade Em seu “RELATÓRIO de 5-10-1872, o dr. Henrique Pereira de Lucena informava que convém notar que o tráfico mercantil em Guarapes, em tempo em que ali ainda residia o major Fabricio, lutou com vantagem com o de Natal e sobrepujou o da Macahyba, apesar de ser Fabricio negociante único naquele lugar; afluindo de todos os lados compradores aos seus armazéns, até mesmo do sertão da Paraíba e desta capital.

Sisudo, decidido, sabendo mandar. Fabrício era simples e acolhedor. Naturalmente as anedotas explicavam, de mil formas, o sucesso econômico. Diziam que ele mudara para a Inglaterra, misturado com o açúcar, um dos morros de areia mais próximos. Certo é que sua honestidade era proverbial. Uma das maiores companhias de seguro inglesa, pagou um sinistro sem que tivesse documentos de carga assegurada além da palavra do interessado. Fabrício, que costumava ouvir o BOI KALEMBA em dezembro, e não o admitira, furioso com o prejuízo, ao ser reembolsado, em julho, mandou buscar os negros do BUMBA MEU BOI e os fez dançar, pela primeira vez em tal época. Por doença deixou a direção, indo para o Rio de Janeiro. Faleceu no bairro de Santa. Tereza, a 22 de setembro de 1872, sendo sepultado no cemitério de São João Batista.

Seu genro, Amaro Barreto, continuou, em escala menor, a “Casa de Guarapes” que voltou quase ao esplendor do passado com a direção do segundo Fabrício Gomes Pedrosa, nascido a 13-7-1856. Mudada para Natal, a “casa” veio até 1890, com força decisiva na “praça”. Sem saudades, Fabrício II foi para o Rio de Janeiro onde a fortuna se multiplicou. Morreu lá, seguindo, noutra direção, a campanha maravilhosa que a morte interrompia.

Quem passa de automóvel, indo para Macaíba, verá, no alto do monte, o casarão silencioso, mirando, com os olhos apagados das janelas escuras, a época rutilante que o tempo levou…

Na foto acima podemos ver a ruínas do Casarão de Guarapes.

Com informações livro: O Livro das Velhas Figuras – Luís da Câmara Cascudo.

Foto: Canindé Soares

Pesquisa, edição: Ricardo Tersuliano – Historiador Independente – e-mail: ricardotersuliano.iaphacc@gmail.com – Colaborador do Blog do Cobra.

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